Lúcio Flávio de Faria Pinto é o principal repórter da Amazônia. É pouco para defini-lo. Trata-se de um dos maiores repórteres do Brasil.

Pense em dois repórteres notáveis — José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho. Pensou? Pois Lúcio Flavio é um repórter da mesma linhagem. Com uma vantagem. Os outros dois pares trabalham com o apoio substantivo de uma equipe. Lúcio Flávio, claro, também já trabalhou com uma equipe — no “Estadão”, na “Veja”. Mas, nos últimos anos, ele se tornou um homem-redação. É o Izzy Stone dos trópicos.

No “Jornal Pessoal” e no site Agenda Amazônica, que escreveu e editou (o segundo ainda edita), Lúcio Flávio fazia tudo praticamente sozinho. Muitas vezes, com suas reportagens tão bem apuradas quanto corajosas, mexeu nos vespeiros da elite política e, também, jornalística do Pará — sua base de trabalho. Para tentar contê-lo (e intimidá-lo), homens de vários poderes, o público e o do dinheiro, moveram vários processos. O repórter manteve-se incólume, resistente, apesar das agruras de sempre, como dificuldades financeiras (enfrentar poderosos chefões é uma tarefa de Heracles).

Dada a excelência de seu material jornalístico, Lúcio Flávio ganhou quatro prêmios Esso e três prêmios internacionais. Na reportagem “Mal de Parkinson leva Lúcio Flávio Pinto a parar com o jornalismo diário”, de Dedé Mesquita, do Jornalistas & Cia, o repórter relata: “Fui o primeiro não europeu premiado com a Colombe d’Oro per la Pace, a mais importante premiação da imprensa italiana; o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection dos Estados Unidos; e como um dos 100 heróis do jornalismo pelos Repórteres Sem Fronteiras de Paris”.

Aos 73 anos, por causa do Mal de Parkinson, Lúcio Flávio não está se aposentando, mas está se afastando ao jornalismo diário no site Agenda Amazônica. Receia cometer algum erro grave no exercício da profissão.

Ao se despedir, com o texto “Perdão, leitores”, Lúcio Flávio disse: “Fui alertado pelos médicos: na sua progressão, o Parkinson poderia começar a atingir a minha cognição; e eu seria abalado. Esse dia chegou. Mesmo lendo e relendo o extrato de um contrato, que motivou uma nota, já cancelada, voluntariamente, li errado e só percebi o erro neste momento. Acordei subitamente, assustado, já com a constatação do erro crasso que eu cometera por uma leitura prejudicada”.

I. F. Stone: o Lúcio Flávio dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Porém, sublinha Lúcio Flávio, “só cancelar a nota, como fiz, não é o suficiente. Depois de anos de convivência com a doença mental, este foi o primeiro erro desse tipo que cometi, depois de milhares de notas que escrevi neste blog já com o diagnóstico do Mal. Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva”.

A história de Lúcio Flávio: jornalista aos 15 anos

Lúcio Flavio começou cedo no jornalismo. Aos 15 anos já apresentava um programa de rádio, que, considerado subversivo por um militar, foi retirado do ar. “A Província do Pará”, dos Diários Associados, o colocou na redação quando tinha 16 anos. Lá chegou a secretário de redação.

Com a cara e a coragem, Lúcio Flávio mudou-se para o Rio de Janeiro, aos 18 anos, em 1968 — o ano que não terminou, de acordo com Zuenir Ventura. No Rio, trabalhou como repórter no celebrado “Correio da Manhã”. Em São Paulo, onde se fixou, escreveu em vários jornais, como “Diário de S. Paulo”, “Diário da Noite”, “Jornal da República”, “Jornal da Tarde” e “O Estado de S. Paulo”, e em duas revistas, a “Veja” e a “IstoÉ”. Também escreveu em dois jornais que combatiam a ditadura — “Opinião” e “Movimento” (na década de 1980, eu era um dos leitores dos jornais, sobretudo do “Movimento”, que apreciava).

Lúcio Flávio talvez tenha reinventado o jornalismo sobre a Amazônia | Foto: Arquivo de Lúcio Flávio

No “Estadão”, onde trabalhou 18 anos, entre 1971 e 1989, Lúcio Flávio se tornou conhecido, não como “um”, e sim como “o” repórter. “O jornal sempre bancou as minhas viagens. Nunca rejeitou as minhas pautas. Sabia que eu voltaria com a matéria pautada e ela ocuparia um lugar de destaque no jornal. Além disso, um dos donos da empresa, Júlio Mesquita Neto, aprovou meu projeto de criar uma sucursal da Amazônia, com repórteres em todas as capitais, coordenadas por Belém, para fazer uma cobertura de melhor qualidade, como fizemos, até estourar uma crise no jornal, que colocou um fim na experiência daquela que foi a primeira sucursal verdadeiramente amazônica da imprensa”, assinala o jornalista.

Na imprensa patropi, eu tinha — e mantenho o hábito — de ler reportagens e artigos de alguns jornalistas (assim como determinados jornais — os meus preferidos são o “Valor Econômico”, muito bem-feito, e o “Estadão”. Mas leio também outros, como “Folha de S. Paulo”, “O Globo” —, revistas, como “Veja”, “Piauí” e “451”, e sites e portais). Ao folhear as páginas dos jornais (estou falando dos impressos, aos quais quase não tenho mais acesso), se encontrava o nome de Lúcio Flávio, assim como o de Ricardo Kotscho ou o de Roberto Pompeu de Toledo, parava e começava a ler seus textos. Suas matérias sempre foram bem-apuradas e escritas com rigor — o que, em muitos jornais, está ficando raro.

Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), o que lhe deu substância analítica — e capacidade de examinar documentos com acuidade —, Lúcio Flávio voltou para Belém, em 1975. Na cidade, escreveu e editou o suplemento alternativo “Bandeira 3”. Como professor visitante, deu aulas na Universidade Federal do Pará e no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Florida, nos Estados Unidos.

Ao se demitir do jornal “O Liberal”, da Organização Rômulo Maiorana, Lúcio Flávio criou o “Jornal Pessoal”, em 1987, que durou 32 anos. “Jornal escrito por uma única pessoa, com as ilustrações e a diagramação do meu irmão, o Luiz Pinto, que não aceitava publicidade, vivia da venda avulsa, tinha tiragem de 2 mil exemplares, vendendo em bancas e livrarias, me causou 34 processos judiciais, propostos por pessoas poderosas, mas jamais foi desmentido. Firmou-se como referência da história contemporânea”. Chamo-o de I. F. Stone dos trópicos exatamente porque, trabalhando praticamente sozinho — na apuração e na feitura das reportagens —, abalava os podres poderes da região amazônica, sobretudo do Pará.

Aqueles que processaram Lúcio Flávio não queriam esclarecer os fatos, e sim intimidá-lo, tentando segurá-lo, via Justiça, para que não desse continuidade às reportagens investigativas. Como a imprensa no Brasil é, no geral, o sorriso do poder e a cárie da sociedade, o que deixou as elites mal-acostumadas, os poderosos avaliam que podem escolher os verbos, os substantivos e até os adjetivos (“bom” não serve, tem de ser “ótimo”) e os advérbios. E, às vezes, escolhem mesmo.

Lúcio Flávio deixou parte da elite de quatro, quase pedindo bênção ou “arrego”. Incautos dirão: sua coragem era/é suicida. Não era. Não é. É a coragem dos que sabem que a verdade precisa ser dita, publicada. Há os suicídios do corpo, mas é preciso sugerir que o suicídio da moral é grave.

Na entrevista a Dedé Mesquita, Lúcio Flávio diz: “Sempre me senti como um correspondente de guerra ao atuar nas frentes pioneiras na Amazônia, que são extremamente violentas. (…) Hoje, a insegurança dos jornalistas é visível e estou certo de que, se fosse repetir o que fiz entre 1970 e 1980, não estaria vivo”.

O talento do jornalista é um fato incontestável. Mas gostaria de saber de onde tirou tanta coragem para não renunciar à sua ética — a de reportar os fatos como aconteceram, sem edulcorá-los jamais.

O futuro do jornalista que tem história

Lúcio Flávio, ao reduzir sua carga de trabalho, aposentou-se? Não é bem assim. “O blog será dedicado, a partir de agora, à divulgação do que já escrevi e à imensa quantidade de documentos do meu arquivo, que possam ter utilidade pública. (…) Continuarei a acompanhar o dia a dia do Pará, da Amazônia, do Brasil e do mundo. Agora, como espectador, um espectador ainda comprometido com o meu tempo, mesmo que este já não seja exatamente o meu.”

O repórter diz que planeja “ficar perto da imensa biblioteca” que formou em mais de meio século. “Eu jamais darei conta de todos os livros que possuo. Mas colocá-los na minha companhia foi uma das maiores realizações da minha vida. Espero que continuem a ser meus queridos companheiros de viagem.”

Como Lúcio Flávio, tenho milhares de livros e continuo adquirindo lançamentos e comprando usados. Sei que, como completei 62 anos, não terei tempo para ler todos, mas eventualmente posso consultar a maioria deles, olhá-los com prazer (muitos pelo prazer que me deram durante tanto tempo).

Costumo dizer que minha lista de leitura é penelopiana. Aos que perguntam o motivo, apresento-o: às vezes crio uma programação de leitura para o ano, com vários livros, porém, com o passar do tempo, vão entrando novos livros e vários dos listados vão saindo.

Então, como Penélope, personagem da “Odisseia” de Homero, minha lista é sempre provisória, pois está sempre sendo feita e desfeita. Agora mesmo está saindo uma biografia do pintor Di Cavalcanti, que não estava programada na minha lista mensal e anual. Ao entrar, à força, o livro empurrou outro para o fim da fila. Se sair, digamos, a biografia de Millôr Fernandes, por Paulo Roberto Pires (autor de excelente biografia do editor de livros Jorge Zahar), ou a biografia de Leonel Brizola, por Karla Fernandes, saio correndo para lê-las. É assim a vida dos que amam livros.