O capitalismo é amoral e o Banco Master é a ponta do iceberg que o Brasil não quer discutir
31 janeiro 2026 às 21h00

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Assisto, de perto e de longe, a cruzada moralista das alcateias para “pegar” o banqueiro-playboy Daniel Vorcaro, políticos de praticamente todas as correntes e até magistrados — como os ministros do Supremo Tribunal Federal José Antonio Dias Toffoli, de 58 anos (mais 17 anos no cargo), e Alexandre de Moraes, de 57 anos (mais 18 anos no STF).
Discutir o assunto de uma perspectiva não moralista — e não se trata de moral — é quase impossível. Todo radicalismo condenatório é aprovado. Afinal, quem é corrupto, mesmo o indivíduo que fez boas ações, não chega ao purgatório quanto mais ao Céu. Vai direto ao Inferno. Somos, mesmo que não acreditemos, agentes de tipos diferentes das novas inquisições.
A história do capitalismo — a rigor, de qualquer modo de produção — é de uma amoralidade chocante. A riquíssima e asséptica Suíça é uma sociedade equilibrada e democrática. Mas seus cidadãos, a maioria deles, por certo, não apreciam discutir, notadamente nos livros de história das escolas, que o país financiou o tráfico de escravizados (https://tinyurl.com/2vcbmte2) e lavou dinheiro roubado dos judeus pelos nazistas da Alemanha de Adolf Hitler.

A civilizada Inglaterra massacrou pessoas em vários países, notadamente na Índia, mas, tendo se tornado campeã contra o tráfico negreiro e o nazismo, quase tudo lhe é perdoado. Ademais, trata-se da terra dos geniais Shakespeare, Keats, Ian McEwan e Julian Barnes. A pérfida Albion é “civilizada”. Pois é: sua civilização resulta, em larga medida, de atos de barbárie.
Paulo Francis adorava corrigir: Vladimir Lênin — que não era de família pobre; era da elite culta e bem-pensante da Rússia —, e não o poeta alemão Bertolt Brecht, dizia a frase ligeiramente enigmática: “O que é assaltar um banco perto de um banco”.
Lênin, o intelectual bolchevique que fez gato e sapato do pensamento de Karl Marx, sabia do que estava falando, pois estudara, em profundidade, em livro, a história do capitalismo na Rússia. Portanto, não estava tratando especificamente de um banco, ao estilo do Banco Master, e sim de todas as instituições bancárias. Do sistema bancário.

Os Moreira Salles, gente de bem e do bem — figuras admiráveis, desde o pai, o sagaz Walther —, sabem como poucos, dada uma excelente formação cultural, que a função, para não disser missão, do Banco Itaú, assim como do Bradesco e do Nubank, não é ser altruísta. Bancos não são instituições de caridade.
Bancos ganham quando a sociedade e, às vezes, os governos perdem. É uma espoliação brutal. A sociedade brasileira está endividada — devendo até os cueiros.
O leitor pode pensar que banco é sinônimo apenas de Itaú-Unibanco, Bradesco, Nubank, Master, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Banco é mais do que isto. As financeiras, independentes ou unidades dos citados bancos, são, por assim dizer, o x da questão. Os brasileiros devem — os tais empréstimos consignados (e outros) —, em larga medida, às financeiras, que são muitas. Até grupos empresariais, como o Votorantim (o Banco Votorantim, que não é mais do grupo), atuam na área financeira.

Até lojas de departamentos fazem empréstimos. Os cartões de supermercados são uma forma de aumentar o endividamento dos pobres e das classes médias. Os juros são altos; para não dizer, extorsivos. Se a pessoa atrasa, então, as contas explodem, às vezes se tornando impagáveis. Mas, sabe-se, os bancos, os emprestadores, nunca têm prejuízos.
O problema é o Banco Master, com sua financeira? É um deles, quiçá minúsculo.
O BRB entrou de gaiato na história? Não. Alguém, poderoso, jogou o Banco de Brasília nas mãos de Daniel Vorcaro. Quem levou milhões? Poucos, é certo. Lavou-os como?
Como foram construídas as grandes fortunas dos fazendeiros e empresários de São Paulo e de outros Estados?

O tráfico negreiro e a exploração maciça de escravizados, nas fazendas de São Paulo, de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco — e também em Goiás —, financiaram a futura indústria brasileira.
Como ganhou dinheiro o ilustrado milionário que financiou a Semana de Arte Moderna de 1922? Com o café, ou seja, a parte visível.
Mas quem eram os trabalhadores — escravizados ou não — que, com a mais valia absoluta, financiaram la dolce vita dos “aristocratas” dos prados brasileiros que viviam na Europa, notadamente em Paris? Gente comum. Gente sofrida. Gente abusada.
Os filhos dos ricos, os herdeiros? Ah, sim, podem fazer cinema e até ganhar o Oscar, quem sabe, e editar revistas de cultura de alta qualidade. (Ressalvo que não estou dizendo que os Moreira Salles, os antepassados, venderam escravizados — estou tratando, no caso, mais da elite paulista, e não da mineira.)
Um banqueiro ou um hoteleiro teria dito, com muita pertinência: “A minha fortuna, eu tenho como justificar. O mesmo não posso dizer do meu primeiro milhão”. Não é uma boutade, um mero aforismo. É um retrato da realidade.

Um potentado rural de Pernambuco pode ter ganhado muito dinheiro, com seus engenhos de cana de açúcar — nos quais trabalharam escravizados “invisíveis” e “sem história” — e, mais tarde, aplicou o capital acumulado na expansão e diversificação dos negócios, tornando-se um industrial do setor de transformação de minérios. É bem possível que tenha vendido negros sequestrados na África ou nascidos no Brasil.
Repetindo, a moral do capitalismo é amoral. As regras do jogo são suas e ao Estado — o Executivo, o Legislativo e o Judiciário — cabe protegê-las.
Aqui e ali, um elemento do capital financeiro excede, como o Banco Master, cria má imagem para o sistema e, por isso, urge extirpá-lo. Para evitar uma contaminação generalizada e, daí, uma crise de confiança no setor bancário (o mais lucrativo da economia). É preciso que tudo volte ao “velho normal” e os potentados possam expor um rosto tranquilo, saudável e invejável aos pobres mortais.
O Banco Master tem sido apresentado, inclusive pela imprensa — que investe no moralismo pequeno-burguês, diria Marx —, como uma falha de um sistema que, grande anunciante publicitário, seria praticamente perfeito. O que não é vero e é mal trovato.
Não há nada mais profissional, sofisticado e complexo quanto o sistema bancário. Tanto que todos nós achamos normal sermos espoliados. Afinal, são as regras e as aceitamos de bom grado.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, quiçá, ao lado de Schopenhauer, os pais enjeitados do existencialismo francês, se vivesse entre nós, certamente diria que construíram um ideário e o transformaram em coletivo. Mas não é do público. É dos homens do capital financeiro — banqueiros e grandes industriais (até industriais estão se tornando banqueiros para administrarem suas fortunas e “trabalharem” as dos outros). É o caso da JBS.
Ah, dirão, o “discurso” acima só pode ser de um comunista. Não é bem assim.
Quem escreveu este texto considera o comunismo e o nazismo como as grandes tragédias do século 20 (o comunismo ainda continua em alguns lugares, como fantasma andante) e sugere que o capitalismo, por não excluir a democracia e ter melhorado a vida de mais pessoas (sobretudo na socialdemocracia europeia), não foi superado por nenhum outro modo de produção. Não é excelente, mas é o menos pior. Então, a rigor, é o melhor.
Voltando ao Banco Master. Quem pôde arrancou um naco dos negócios de Daniel Vorcaro. Se você acredita que é possível ganhar bilhões com trabalhos inteiramente decentes, saiba: sua vaga no Céu está garantida, não por ser santo, e sim pela inocência. Tu não é um indivíduo — e sim um anjo, e não dos caídos, como Lúcifer.

