A companhia das Letras vai publicar uma biografia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 2029. O jornalista Naief Haddad, da “Folha de S. Paulo”, já está pesquisando a vida e a obra do político e sociólogo que fará 95 anos em junho.

A primeira barreira que o biógrafo terá de superar foi construída pelo próprio ex-presidente Fernando Henrique. Numa série de livros (como os “Diários da Presidência”) — excelente material para pesquisadores destrinçar —, o sociólogo e ex-professor da Universidade de S. Paulo apresentou, de maneira articulada a sua versão dos fatos dos quais participou, direta ou indiretamente.

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Fernando Henrique Cardoso e Jean-Paul Sartre, no Brasil | Foto: Reprodução

A sorte de Naief Haddad é que há vários personagens vivos do período em que Fernando Henrique Cardoso, o FHC, militou política e intelectualmente. E, claro, há uma vasta documentação a respeito do intelectual — do primeiro time — e do político.

Fernando Henrique disse mesmo que, depois de assumir a Presidência da República, era preciso esquecer sua obra? Se disse, a razão deve ser mais ampla do que aparenta. É provável que o ex-presidente quis dizer que administrar um país é mais complexo do que um ou mais livros. Não dá para gerir a nação com um livro de receitas políticas nas mãos.

Naief Haddad terá de situar a obra do sociólogo entre pares como Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnio, Raymundo Faoro, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Eduardo Viveiros de Castro, Florestan Fernandes, José Arthur Giannotti, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Marilena Chaui, Olgária Matos, Lélia Gonzalez, Oswaldo Porchat, Luiz Felipe de Alencastro, Emília Viotti da Costa, Ruy Fausto, Francisco de Oliveira, Roberto Schwarz, José de Souza Martins, Flora Sussekind, Luiz Costa Lima, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Jacob Gorender, Scarlet Marton, Milton Santos, Eduardo Giannetti, Octavio Ianni, Bento Prado Júnior.

Fernando Henrique Cardoso capa de Diários da Presidência 500

O autor de “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional — O Negro da Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul” é um par dos intelectuais citados acima? É provável que sim. Por isso, o biógrafo terá a missão de mostrar sua importância como intelectual, antes de evidenciar o político que se tornou presidente.

No livro “Modelo Político Brasileiro”, Fernando Henrique estabeleceu um diálogo crítico com o economista Celso Furtado. Ou seja, durante a ditadura, buscou não apenas criticá-la. Procurou entendê-la e explicá-la de maneira objetiva. Não gostar não significa que não é preciso compreender. Até para condenar, com mais elementos, é preciso estudar, de maneira detida, aquilo de que se discorda.

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Naief Haddad, repórter da “Folha de S. Paulo” | Foto: Facebook

Celso Furtado havia sugerido que o regime autoritário levaria à estagnação econômica e o país não cresceria. Fernando Henrique, examinando o quadro real, para além das ideologias, mostrou que a análise do economista era, no curto prazo, equivocada. Tanto que a economia estava crescendo, e em níveis chineses.

O que Celso Furtado, um economista competente, realmente quis dizer? Talvez que, a longo prazo, a ditadura — sem um quadro internacional favorável — naufragaria e o país deixaria de crescer aos níveis do governo do geral-presidente Emilio Garrastazu Médici. A crise do petróleo foi um dos primeiros nocautes na ditadura.

O fato é que o sociólogo estava certo e o economista errado — insistindo: no curto prazo. A economia pode crescer mesmo sob regime autoritário. O mesmo ocorreu no Chile, sob o brutal regime do general Augusto Pinochet.

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Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco: criatura e o criador? | Foto: Reprodução

Naief terá de explicar qual é a principal contribuição intelectual de Fernando Henrique. Como foi a atuação do scholar patropi na França e nos Estados Unidos? Como era e é visto lá fora: como um intelectual original ou um vulgarizador de ideias alheias? Qual é o seu papel no estabelecimento, por assim dizer, de uma sociologia paulista? Em que se distingue de Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Francisco Weffort?

Nos “Diários da Presidência”, incontornáveis para quem quer e precisa estudar a história recente do país, Fernando Henrique conta a sua versão dos fatos. Fica-se com a impressão de que, por ser presidente e um político dos mais hábeis, tinha o controle quase absoluto dos fatos. Antônio Carlos Magalhães, ACM sênior, “não” manipulava seu governo. Pelo contrário, o sociólogo, investido no cargo-mor da República, sabia como lidar com o “rei” da Bahia.

Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva Reprodução
Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso: o petista é continuidade, e não ruptura, do segundo | Foto: Reprodução

É vero e bem trovatto o que diz Fernando Henrique? Mentindo não está. O que informa é seu relato dos fatos, como os vivenciou. Mas falta o contraditório nos diários do presidente, o que é natural. Porque, insistindo, é sua versão dos acontecimentos.

Quem deve apresentar as contradições — por exemplo, com um ACM mais forte do que é apresentado — são os pesquisadores, como Naief Haddad, que certamente não se contentará em ser hagiógrafo. As privatizações foram bem-sucedidas. Mas houve mesmo negócios pouco católicos, típicos de qualquer capitalismo, notadamente no tardio e mais amoral?

As memórias de Fernando Henrique são de ótima qualidade, com farto material, que precisa apenas ser nuançado, contraditado. Portanto, um trabalho, um lado da questão, já está exposto. É preciso acrescentar os outros lados.

Fernando Henrique Cardoso capa de Memórias 500

O caráter relativamente indeciso, ou relutante, de Fernando Henrique merece análise. É mito ou fato? As memórias sugerem que era um presidente decidido e que fez o que quis. Procede? Talvez só em parte. O Centrão era determinante em seu governo? Qual controle o ex-presidente tinha dos políticos fisiológicos que compunham seu governo? Dava o quê para eles ficarem “sossegados”? Como se sabe, não bastam cargos…

Entre três presidentes-chaves da história do Brasil — Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula da Silva —, qual é o lugar de Fernando Henrique? Pertence à galeria dos grandes? É possível que sim. A criação do Plano Real mostrou que um plano econômico não precisa ser formulado só para ganhar eleições. Era e continua sendo um projeto para o país — o da estabilidade da moeda.

Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas: protagonistas da história recente do Brasil | Foto: Reprodução

Na questão específica do Plano Real, qual foi a participação efetiva do presidente Itamar Franco e a de Fernando Henrique Cardoso? A relação entre os dois merece exame mais detalhado. Procede que Fernando Henrique, o FHC, ficou com um legado que não é só dele?

A vaidade excessiva de Fernando Henrique será evidenciada? O latin lover — bonito, inteligente e charmoso — será exibido por Naief Haddad? Quem mais namorou na República, além da jornalista Miriam Dutra? Biografias, as boas e as ruins, não têm como deixar a vida pessoal, mesmo a íntima, de lado.

Certamente não entrará no escopo da pesquisa de Naief Haddad — ótimo repórter —, mas vale especular: mesmo filiado ao PT, mais à esquerda, Lula da Silva é uma continuidade de Fernando Henrique, e não uma ruptura? É provável que sim. Os dois são socialdemocratas, com o petista-chefe mais radicalizado. Nenhum dos dois é comunista. São de esquerda. Fernando Henrique pendendo para a centro-esquerda e a raposa de Garanhuns para a esquerda. (É possível sugerir que Lula da Silva “melhora” o governo quando marcha para o centro.)

Outra coisa, a ser analisada mais pela ciência política do que por biógrafos: porque, na Presidência — todo-poderoso da República —, Fernando Henrique não conseguiu eleger seu candidato a presidente, abrindo as portas para o império do PT de Lula da Silva?

Depois de dois mandatos, Fernando Henrique e seus aliados perderam sintonia com a sociedade? Qual é efetivamente o x da questão?

Fica-se à espera de um Fernando Henrique, o biografado, mais nuançado e menos pavão da República? Naief Haddad tem de arrancar o Fernando Henrique que os diários (as memórias), ainda que não tenham escondido, transformaram quase num santo onipotente, onisciente e onipresente. Um deus laico. Um Rodolfo Valentino misturado com Maquiavel.