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O jornalista e pesquisador Mário Magalhães escreveu uma biografia que, ao contar a vida de Carlos Marighela, é uma grande história do Brasil no século 20.

Acima de tudo, Mário Magalhães é um pesquisador meticuloso e escreve como se tivesse possuído pelo “espírito” de Machado de Assis ou de Graciliano Ramos. Quer dizer: pesquisa como o melhor dos acadêmicos e escreve como os bons escritores.

Há dez anos, uma década, Mário Magalhães pesquisa sobre a vida do “shakespeariano” Carlos Lacerda — o político, o escritor, o jornalista (“Tribuna da Imprensa”), o editor (da Nova Fronteira), o tradutor. (Era namorador? Consta casos com as atrizes Shirley MacLaine e Maria Fernanda. Ele despertava paixões.)

Carlos Lacerda em campanha eleitoral na Praia do Pinto em 1960
Carlos Lacerda em campanha eleitoral na Praia do Pinto, em 1960 | Foto: Reprodução

Noutras palavras, Mário Magalhães está estudando o Brasil a partir do indivíduo que, tendo começado como militante da esquerda, ao lado de Luiz Carlos Prestes, bandeou-se para a direita. Cassado, articulou a Frente Ampla, com Juscelino Kubitschek e João Goulart — retomando o caminho democrático, depois de ter sido o símbolo civil da ditadura.

Quando março chegar, com ou sem águas, a Editora Companhia das Letras colocará nas livrarias o primeiro volume da exaustiva biografia de Lacerda escrita por Mário Magalhães. Figura, desde já, na minha penelopiana lista de leituras.

Se fosse vivo, depois de ler a biografia, Lacerda certamente diria: “Magalhães sabe mais de mim do que eu mesmo”. Os biógrafos de valor constroem um indivíduo amplo — com defeitos e virtudes, as nuances, expostos com o máximo de amplitude e clareza. Mário Magalhães fez isto com Carlos Marighela… e há sempre um Carlos na vida do ex-repórter e ex-ombudsman da “Folha de S. Paulo”. Um de esquerda e outro de direita. Os dois grandes em suas contradições.

Numa entrevista ao jornal “Tribuna do Norte”, do Rio Grande do Norte, Mário Magalhães disse: “Gente perfeita, sem defeitos, é enfadonha” (quando li o primeiro volume da biografia do presidente Lula da Silva escrita por Fernando Morais, pensei: “Mais perfeito do que o anjo Gabriel”. Trata-se de uma hagiografia… de um político notável. O grande Morais de “Chatô” não comparece ao escrever sobre o petista-chefe).

Jornalista tão inovador quanto Samuel Wainer

Na década de 1930, a da dita Intentona Comunista, Lacerda, escreveu Mário Magalhães, numa postagem do Facebook, “era vinculado ao Partido Comunista”, o Brasileiro, quer dizer, o de Prestes. Pesquisa nos arquivos da Internacional Comunista, em Moscou, estabelece o verdadeiro relacionamento do jornalista com o Partidão.

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Mário Magalhães, biógrafo de dois Carlos — Marighella e Lacerda | Foto: Divulgação

Durante uma campanha contra “agentes do Kremlin” — possivelmente espiões do KGB —, Lacerda escreveu: “Há quem nos considere, por estas opiniões, um horroroso reacionário. É que nem todos se aperceberam ainda que o comunismo, na prática, hoje, é um empreendimento mundial de destruição da liberdade”.

Noutro post, Mário Magalhães comemora o relançamento do livro “A Missão da Imprensa”, de Carlos Lacerda, pela Casa Matinas, a editora do jornalista Matinas Suzuki, que publica livros sob demanda.

De acordo com Mário Magalhães, o livro de Lacerda “é um ‘documento incontornável para reconstruir a história do jornalismo brasileiro, atavicamente avesso a se mirar no espelho”.

Na apresentação do livro, Mário Magalhães conta, entre outras cousas, que a primeira chefe de Lacerda no jornalismo “foi a poeta, professora e jornalista Cecília Meirelles”.

Há quem postule que, em termos de jornalismo, Samuel Wainer era mais inovador do que Lacerda — apontado mais como articulista, polemista. Pois o biógrafo sugere que não é bem assim.

Carlos Lacerda capa de A missão da imprensa 2

Lacerda “caracterizou-se pela obsessão por inovar. Criou em 1933 a revista cultural ‘rumo’, escrita só com letras minúsculas e com vastos espaços brancos arejando as páginas — ‘mensário modernista’, timbraram”.

Conta-se que, ao voltar dos Estados Unidos, o jornalista Pompeu de Souza, do “Diário Cariosa”, introduziu o lead e sub-lead na imprensa patropi.

A versão de Mário Magalhães é outra: “Em 1943”, Lacerda “introduziu na Agência Meridional o lead, técnica de abertura da notícia com a informação mais relevante, influência do jornalismo americano. Secretariando ‘O Jornal’, no ano seguinte, ensinou que fotografia não constitui penduricalho estético, e sim unidade informativa”.

Lacerda definiu o jornalismo assim: “De certo modo, ele é a arte de simplificar a complexidade dos fatos e das opiniões, tornando-os acessíveis à compreensão de um número apreciável de pessoas, fixando-os num momento da sua trajetória, o que confere certa permanência à sua transitoriedade. E assim, na imobilidade de um momento, neles encontra a marca da eternidade”.

Carlos Lacerda Depoimento ok2

Em 1962, com a seleção brasileira de futebol bicampeã, cumprindo uma promessa, Lacerda, então governador da Guanabara — consta que tinha apetite pela gestão pública —, presenteou Garrincha com o mainá, uma ave, que vivia no Palácio Guanabara.

Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu em 1914 e morreu em 1977, aos 63 anos. Vivei dois anos a mais do que Mário Magalhães, de 61 anos.

Carlos Lacerda e João Goulart: de adversários a aliados | Foto: Reprodução

(A Casa Matinas deveria republicar o admirável “Depoimento” de Carlos Lacerda a uma equipe de jornalistas do “Jornal da Tarde”. O livro saiu pela Editora Nova Fronteira. Resultou de entrevistas concedidas a repórteres do “JT”. O livro é tão bom que Herbert de Moraes Ribeiro, o fundador do Jornal Opção, recomendava aos jornalistas de política como se fosse quase um manual de redação.)