Manuel Puig disse que Hector Babenco, diretor do filme O Beijo da Mulher Aranha, era idiota
21 fevereiro 2026 às 21h00

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Em 1980, o escritor argentino Manuel Puig trocou o México (onde trabalhou para o cinema e para a televisão) pelo Rio de Janeiro. O autor do romance “O Beijo da Mulher Aranha” amava a cidade, informa Suzanne Jill-Levine na biografia “Manuel Puig y la Mujer Araña” (Seix Barral, 415 páginas, tradução de Elvio E. Gandolfo).
“A decisão de Manuel de mudar-se para o Brasil foi rápida. A indústria do cinema estava no auge no fim dos anos 1970. No Brasil começaria a maior aventura cinematográfica” do autor de “A Traição de Rita Hayworth”.

A chegada ao Rio, junto com a mãe, Male, se deu em fevereiro de 1980. A atriz Dina Sfat (1938-1989) sugeriu a Puig a adaptação de “O Beijo da Mulher Aranha” para o teatro. Paulo José e Rubens Corrêa interpretariam, respectivamente, as personagens Valentín e Molina.
Como seus livros estavam vendendo bem, notadamente na Espanha — caso de “Pubis Angelical” — e na Itália, dada a venda dos direitos autorais de “O Beijo da Mulher Aranha” para o teatro, Puig comprou um luxuoso dúplex no Leblon e um apartamento para sua mãe (os dois não se desgrudavam — eram quase irmãos). O escritor assustou o pessoal da imobiliária ao aparecer com uma valise cheia de dinheiro. Pagou à vista. Ele tinha o hábito de guardar seu dinheiro, não em bancos, e sim em sua casa.
“O Rio era perfeito: uma grande cidade com vida cultural e uma praia onde Manuel podia nadar todos os dias. Os cariocas eram relaxados, amantes da diversão, e ‘tropicais mas não demasiado tropicais’. Os rapazes eram negros, belos e disponíveis. Em fevereiro solicitou o visto permanente”, assinala Suzanne Levine. A biógrafa terá realmente conhecido o Rio? Não parece. Há, claro, negros, muitos negros, na cidade, mas também há pardos e brancos. E nem todos os jovens certamente estavam disponíveis para sexo com gays.

De acordo com Suzanne Levine, a mudança para o “Brasil significava o renascimento de sua saúde e vida sexual”. Numa carta Puig escreveu: “As coisas são muito boas, e o romance é melhor do que nunca, a carreira está ok”.
Paixão por cinema e atrizes
De manhã, Puig escrevia e revisava traduções de seus livros. Depois do almoço, fazia a siesta e, em seguida, voltava a escrever na sua Olivetti. Era disciplinado. À noite, via filmes.
O advento do videocassete (videocasetera em espanhol) empolgou Puig, que era, acima de tudo, apaixonado por cinema. Ele pedia aos amigos que gravassem filmes de suas atrizes preferidas — Rita Hayworth, Lana Turner, Susan Hayward, Joan Crawford, Hedy Lamarr, Betes Davis e Katharine Hepburn.
Os críticos franceses falam em cinema de “autor” (o diretor, em alguns casos, seria “autor”). Pois, para Puig, os verdadeiros autores eram os atores, sobretudo as mulheres. Ele viu ao menos 15 vezes Hedy Lamarr ajeitando o chapéu ante o espelho.

A adoração por cinema era tanta que Puig não se contentava em ver filmes. Mesmo pão-duro, comprava televisões e videocassetes para os amigos. Era para estabelecer um diálogo.
Puig chegou a ter mais de 3 mil filmes (e óperas) em cerca de 1.260 fitas cassetes, no apartamento da Rua Aperana, que funcionava como cine clube. Ele via filmes americanos, alemães (admirava a atriz Brigitte Helm, de “Metrópolis”, e gostava de “O Congresso Baila”, com Lilian Harvey e Conrad Veidt), franceses e mexicanos.
O escritor Alan Pauls ficou surpreso ao quase não encontrar livros no apartamento de Puig, exceto biografias de produtores (diretores?) e atrizes e suas próprias obras.
Puig comprou um sedan Alfa-Romeo e contratou um motorista negro, Aristides. O escritor apreciava visitar viveiros de plantas.

Nadando e feliz, Puig parecia mais jovem. O que escreve Suzanne Levine é um velho preconceito (estereótipos) contra o Rio e os cariocas — com o singular, na sua pena, se tornando geral: “A vida naquela cidade de vagabundos, sexo e samba era relaxada e informal. As ruas exalavam sensualidade — corpos escuros e jovens ondulando na balsâmica luz solar, sorrisos largos no rosto, os odores e cores da fruta tropical, o ruído da fala brasileira fundindo-se com os sons das discotecas”.
O escritor e o pedreiro Amílcar, que era casado com mulher, retomaram um relacionamento afetivo.
Marcelo Mastroianni quase foi Molina
Em maio de 1981, Puig recebeu o visto de residência. A peça “O Beijo da Mulher Aranha”, produção de Marco Mattolini, fez sucesso na Itália. “Baccio Della Donna Ragno” (título da edição italiana) ganhou o prêmio do Istituto Italo Americano de melhor romance do ano. O escritor faturou 2 milhões de liras e o tradutor levou 1 milhão.

Em Paris, para onde fora para promover a edição de “Pubis Angelical”, Puig ouviu do amigo Juan Goytisolo que “era considerado na Espanha o melhor escritor do idioma espanhol nos anos 1970”.
O Brasil deu sorte a Manuel Puig. No país, frisa Suzanne Levine, ele teve “seu primeiro êxito como dramaturgo, e as produções teatrais de ‘O Beijo da Mulher Aranha” começariam a pipocar em todas as partes. Sua primeira adaptação representada foi em Milão, em 1979”. Ficou mais de um ano em cartaz na cidade italiana.
Dado o sucesso na Itália, Puig chegou a ser indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, que não ganhou. Por causa da indicação, se tornou famoso e produtores de vários países o procuravam para adaptar “O Beijo da Mulher Aranha”.
Em 1979, recebeu, na Itália, uma proposta para levar “O Beijo da Mulher Aranha” ao cinema. Atores famosos, como Gian-Maria Volonté, Giuliano Gemma e Marcelo Mastroianni estavam interessados pelo papel de Molina (a personagem gay). O preferido de Puig era Volonté.
Na França, queriam Gérard Depardieu como o marxista Valentín. Puig discordou: “Prefiro Gemma”. Philippe Noiret era cotado para o papel de Molina.

Puig não ficava muito animado com as adaptações de seus romances, pois considerava redutoras. Mas apreciava o dinheiro que entrava em suas contas bancárias ou valises.
Em Madri, “O Beijo da Mulher Aranha” foi adaptado para o Teatro Martín, com direção de Luis García Sánchez. O ator Fernando Rey e o diretor de cinema Pedro Almodóvar estavam entre os que aplaudiram a montagem da peça. A cidade estava coalhada de cartazes com a frase de Molina para Valentín: “Ahora yo… soy tú” (“agora eu… sou você”).
Puig decidiu fazer sua própria adaptação de “O Beijo da Mulher Aranha” para o teatro. “Manuel reintegrou ‘a palavra’, mas teve de recortar o texto reduzindo os seis relatos de filmes de Molina a um, ‘A Mulher Pantera’. Conseguiu eliminar 25% do diálogo original e condensar o restante”, conta Suzanne Levine.
“A produção italiana havia inspirado a ideia minimalista de um só espaço: a cela”, diz a biógrafa.
“A versão abreviada seria a base do roteiro, que subordinava o denso e sutil tecido de argumentos de filmes, política fascista, sexualidade, e a imaginação do romance para o estratagema da mulher aranha, a sedução, o amor de um homem autêntico, por breve que seja, pode ser transformador: purificador”, anota Suzanne Levine.

O filme deixa de fora, aponta Suzanne Levine, “o aspecto mais crucial do romance. “Quando William Hurt masculinizava Molina no final, quando morre heroicamente por uma causa política, derrotava todo o impulso do argumento de Manuel: Molina não tem que adequar-se a condutas varonis para ser heroico, afeminado não tem porque significar covarde”.
A peça O Beijo da Mulher Aranha no Rio
A biógrafa volta à peça “O Beijo da Mulher Aranha”. Paulo José e Dina Sfat, que estavam separados, retiraram-se e José de Abreu foi convidado para o papel de Valentín e Rubens Corrêa permaneceu como Molina. Ivan Albuquerque — que operava o Teatro Ipanema, com sua mulher Leila — assumiu a direção do drama.
“O Beijo da Mulher Aranha” estreou, no Teatro Ipanema, no dia 14 de agosto de 1981. Ganhou o aplauso do público. Puig disse que a adaptação da peça era a melhor, até aquele momento, “porque os brasileiros haviam comunicado seu eros e humor” (a frase é de Suzanne Levine).

Militantes gays, chamados de rainhas stalinistas por Puig, criticaram a peça. Os críticos gays contestaram a apresentação do gay Molina como frívolo, e não herói. Mas, nas ruas, o escritor dava autógrafos e as emissoras de televisão o entrevistavam com frequência.
Em 1981, o diretor argentino Raúl de la Torre disse a Puig que planejava adaptar “Pubis Angelical” para o cinema, com a atriz argentina Graciela Borges. O escritor se mostrou cético, pois considerava o romance “demasiado complexo e qualquer redução o faria trivial”. Mas, para ganhar algum dinheiro, acabou cedendo.
A um amigo, Puig escreveu que “o Rio era perfeito para viver, amar e trabalhar. ‘Vida amorosa: para mim [o Rio] é [o] Jardim do Edén”. Contou que não se falava em doenças sexualmente transmissíveis. Mas acabou pegando “sarna” na praia.
No Rio havia mais tolerância com gays do que na Argentina. “A religião ‘candomblé’, de origem africana, parecia governar os costumes sexuais no Brasil: no folclore afrobrasileiro os deuses abarcavam personagens ativos e passivos sem distinções de gênero, e amiúde eram transexuais.” A biógrafa mais uma vez parece exagerar, ainda que o candomblé seja mesmo forte no Rio.

Entre os amigos argentinos que Puig fez no Brasil estava o ator Patricio Bisso, que cuidou do figurino da peça teatral e do filme “O Beijo da Mulher Aranha”. Ele aparece no filme, sem destaque, como a atriz de cabaré Olga del Volga.
Puig escreveu a peça “Bajo un Manto de Estrellas”, em dois atos, para o teatro — “‘uma espécie de farsa sexual’ com triângulos edípicos entrelaçados, figuras paternas enganosas, e uma filha se torna louca, provavelmente devido a incesto”.
Ivan Albuquerque dirigiu a peça, no Teatro Ipanema, com o título de “Quero”. “O tema principal, a velha obsessão de Manuel, era o olhar do outro, a definição e circunscrição da identidade de um indivíduo pelo ‘olho censor’”. Atuaram Rubens Corrêa, Leyla Ribeiro e Edson Celulari.
A vida no Rio seguia muito bem. Com grana farta, Puig comprou quatro apartamentos no Rio. Num deles vivia o amigo Mario Fenelli.
Ao reformar seu apartamento, Puig conheceu um pedreiro pardo e analfabeto, conhecido como Chefão, e começou a ouvir suas histórias.

Puig decidiu gravar as histórias com o objetivo de publicar um livro. Ele disse ao Chefão que lhe daria parte do dinheiro que lhe caberia pela vendagem de “Sangue de Amor Correspondido” — que foi “publicado simultaneamente em 1982 em português (Editora Nova Fronteira) e em espanhol (Seix Barral)”.
Emil Rodríguez Monegal resenhou o livro e o resumiu: “Édipo nos bairros pobres do Rio”.
O filme “O Beijo da Mulher Aranha”
Devido ao sucesso da peça, o produtor Flavio Tambellini e o diretor Hector Babenco procuraram Puig e sugeriram que fosse levada ao cinema.
“Em 1985, foi distribuído [o filme] ‘O Beijo da Mulher Aranha’. Manuel estava, ao mesmo tempo, excitado e desiludido”, pontua Suzanne Levine.
O filme obteve sucesso no Festival de Cinema de Cannes e no Festival de Cinema de Tóquio. Em 1986, foi candidato a quatro prêmios do Oscar: melhor filme, melhor ator, melhor roteiro adaptado e melhor diretor.

William Hurt levou a Palma de Ouro em Cannes. “‘O Beijo da Mulher Aranha’ foi o primeiro filme independente a receber quatro indicações ao Oscar e ganhar o prêmio da Academia.”
“O efeito sobre a reputação de Manuel como escritor foi enorme: por fim ‘a Metro’ (quer dizer, Hollywood) havia lhe estendido o tapete vermelho. Se Manuel havia cortejado o cinema durante os primeiros 40 anos de sua vida, as câmeras agora rodavam para ele”, aponta Suzanne Levine.
Como começou a lua de mel que se tornou de fel entre Puig e Babenco? Em 1982, Arnaldo Jabor apresentou Babenco ao produtor americano do norte David Weisman.
Babenco conversou com o agente literário Tom Colchie, pois planejava adaptar “O Imperador do Brasil”, de Márcio Souza.
Durante a conversa, Babenco perguntou a Colchie se havia alguma história de Puig disponível para ser levada ao cinema. O agente literário sugeriu “O Beijo da Mulher Aranha”.

Babenco comprou os direitos de “O Beijo da Mulher Aranha” e discutiu sua produção com Weisman.
“Um dos desafios primários era o tema gay, que Babenco pensou que podia ser excessivo para as massas.” A história de amor improvável entre um preso político, Valentín, e um homem gay, Molina, poderia ser pouco palatável para o gosto médio.
Desde o início, Puig não se entusiasmou com Babenco. Porque considerava “Pixote” como um filme “grosseiro” (quando, na verdade, grosseira era a sociedade que excluía o menino).
De acordo com Suzanne Levine, Puig “não acreditava que o diretor, nada sofisticado, que não era gay, fosse especialmente sensível ao tema gay. Manuel o considerava como um típico portenho, ‘oportunista’”.
Quando o jornal “Los Angeles Times” perguntou com qual ator americano do norte gostaria de trabalhar, Babenco mencionou, de maneira cautelosa, Burt Lancaster. Por causa de “O Leopardo”, o filme de Visconti.
Burt Lancaster, de 69 anos, leu o roteiro e disse que queria fazer o papel de Molina. Richard Gere, que tinha uma namorada brasileira, havia aceitado interpetar Valentín.

Richard Gere não agradava a Burt Lancaster, que queria Martin Sheen como Valentín. Mas o ator não demonstrou interesse no papel.
Conhecida de Weisman, Jane Holzer aportou os fundos para os custos iniciais do filme. O roteirista Leonard Schrader (irmão de Paul) foi contratado.
Babenco acabou indicando o portoriquenho Raúl Julia para o papel do jovem marxista argentino, Valentín.
Com problemas cardíacos, Burt Lancaster acabou descartado. Puig avaliou que, com a saída do ator, levaria à liberação de seu livro das mãos “da grande Babenco”. Sim, “da” e não “do”. E “grande” era uma ironia.
Puig escreveu que Burt Lancaster “tinha um acordo com a horrível Babenco”. O escritor usa o artigo “a” quando se refere ao diretor. Fazia isto também com outros homens, inclusive amigos heterossexuais.
O romancista não apreciou a indicação de William Hurt para o papel de Molina. “Em minha cama pode ser, mas não como Molina”, vociferou. Sônia Braga, contratada por Babenco, exigiu que seu papel fosse mais substancial.

A agente Maggie Curran conseguiu um cachê de 100 mil dólares para Puig pela adaptação de “O Beijo da Mulher Aranha”.
Crise entre Babenco e Manuel Puig
Babenco e Puig não se entendiam. O diretor queria ter o controle do roteiro e o escritor queria preservar a fidelidade de sua história. O diretor quis excluir o escritor da elaboração do roteiro.
Com Sônia Braga, Puig se dava bem. “Aos olhos de Manuel, a atriz era a imagem do glamour, mas também uma simples garota brasileira de origem humilde.”
Schrader, de acordo com Suzanna Levine, “havia baseado o roteiro na obra de teatro de Manuel (a única versão que Babenco conhecia quando se encarregou do projeto), em vez de fazer a adaptação diretamente do romance. (…) Schrader havia sido fiel ao diálogo original” do romance, “começando o filme, como fez Manuel no livro, com a voz de Molina”.
Durante as filmagens, “Manuel sugeriu que Hurt podia ocultar seu aspecto de jogador de futebol americano se usasse um turbante e um kimono. Funcionou, como apontou [a crítica] Pauline Kael: “William Hurt… é quase a única coisa a ser olhada”. Um amigo da crítica de cinema disse: “Hurt como Molina é como fazer um cachorro de caça interpretar um chihuahua”.
Puig e William Hurt não se entendiam. “Manuel via que entre a leveza picante de Molina e a intensidade neurótica de Hurt se abria um abismo enorme.”

Como não lia bem em inglês, Babenco se via “acossado pelas revisões constantes do roteiro”.
Babenco e William Hurt discutiram e quase trocaram tapas. Deixaram de se falar. “Hurt já não tomava instruções diretamente de Babenco. O diretor tinha que dirigir-se a Hurt por meio de uma terceira pessoa.” Ante as brigas, Puig escreveu numa carta para a mãe: “O mundo do cinema é um horror”.
Para um amigo, Puig desabafou: “A Babenco é uma mulher freak. Agora parece que a Hurt está dirigindo realmente o filme”. O escritor tinha o hábito de tratar homens como se fossem mulheres.
William Hurt, pelo menos de acordo com Puig, estava dirigindo ele mesmo e também Raúl Julia. O escritor voltou a criticar: “A demente Hurt se nega a falar com a horrível Babenco”.
“Raúl Julia, um ator notável, necessitava de muito treinamento prévio para captar a essência de um papel, mas, uma vez que compreendia, fazia uma grande atuação. Hurt era o oposto: brilhante, rápido, compreendia tudo com facilidade, porém não tinha a amplitude vocal e gestual de Julia”, compara Suzanne Levine.

William Hurt teria lido o romance “por alto” e Raúl Julia fez uma leitura metódica. “A Hurt esteve tão mal que é provável que lhe deem o prêmio de melhor ator em Cannes” (assim foi), atacou Puig.
A edição inicial de “O Beijo da Mulher Aranha” resultou num filme de três horas. Depois, foi reduzido para duas horas. Com câncer linfático, Babenco desapareceu por dez meses. Antes, disse aos produtores e técnicos: “Vocês amam este bebê tanto quanto eu. Deixo-o em suas mãos”.
Weisman e o roteirista Schrader contrataram o montador Lee Percy. Schrader e Percy remontaram o filme. Tiveram dificuldades com Sônia Braga, segundo o relato de Suzanne Levine. “Com Braga, que havia voado do Rio para Los Angeles, a dublagem era difícil devido ao seu inglês, sobretudo a dificuldade com a pronúncia.”
Em março de 1985, recuperado do câncer, Babenco finalmente viu o filme reduzido para duas horas. “É muito bom abandonar um filme. A gente volta com olhos livres [limpos], e parece muito melhor.”
Filme desagradou o autor do romance
Babenco tentou reconciliar-se com Puig, que se manteve distante. O diretor quis saber se o escritor aprovara a montagem final. “Não gostei do filme e você não gosta de mim. Não sei por que está me incomodando”, respondeu o escritor.

Suzanne Levine avalia que “o pesado naturalismo” do filme irritou Manuel.
Numa carta para Emir Rodríguez Monegal, Puig disse que o filme “O Beijo da Mulher Aranha” não tinha “a menor sutileza”. Babenco, destacou, “foi um pesadelo”.
O roteirista Schrader era “aborrecido”. Já William Hurt “dominou por completo o idiota Babenco. O resultado foi uma ‘Scherezada’ típica, lenta e lúgubre. Hurt apresentando-se triste, torturado e neurótico… que é na vida real. Ao fim, eliminaram o núcleo da história, que era a alegria de viver e o humor do homossexual [Molina]. Julia está melhor, apesar de que a personagem [o marxista] já não existe”.
Porém, Puig concluiu que havia um lado positivo: “Pode servir ao menos para vender mais livros”.
Prometeram pagar um adicional a Puig, mas a produtora Island Alive faliu. O escritor foi lesado.
Puig continuou criticando “O Beijo da Mulher Aranha”, mas com mais leveza: “Não gostei do filme. É demasiado lúgubre, demasiado severo. Porém o que apreciei foi o efeito que exerce no público. Por isso está tudo bem. O que gosto é que apresenta a ‘rainha’ como um ser humano. Molina chega a se pensar como a rainha quintessencial. Quando vendi a história, sabia que a visão seria a do diretor, e não a minha. O melhor é não se enervar”.
Pauline Kael, da revista “New Yorker, se interessou mais pelo romance do que pelo filme. “Mais do que uma defesa do escapismo… é uma homenagem ao escapismo. A glória do livro é que o leitor sente o poder da fantasia. Puig não é um sentimental”. Já o filme, ao perder conexão com o livro, se tornou mais pobre. (Cá entre nós: li o livro e vi o filme. O que posso dizer é que são obras interdependentes, mas, em parte, diferentes. Mas o filme é muito bom, assim como o romance. Puig excedeu-se em relação a Babenco e ao filme.)
A crítica da “New Yorker” lamenta que a história crua, aberta, de Puig se tornou um filme politicamente correto. Teria sido a mão de Babenco. “O romance de Puig está dizendo que as rainhas [gays] podem ser inúteis, vitrinistas tontas [Molina], ao estilo dos romances do cinema, mas que podem ser encantadoramente divertidas. Isto dá realce à vida, a faz mais arrebatadamente aloucada”. Babenco teria retirado parte da beleza, digamos, herética do livro, ao suavizar a história, dando-lhe uma moral ausente no texto original.
O diretor de cinema Paul Mazursky era admirador de Puig. Ele disse que, “à parte o brilhantismo e engenho, Manuel tinha pureza, uma mescla maravilhosa”.
Mazursky sugeriu que Puig fizesse uma ponta como general latino-americano num filme, do qual participariam Raúl Julia, Sônia Braga e Richard Dreyfuss. O escritor não quis: “Frente a tela, sempre; frente à câmera, nunca”.
Devido ao desgaste provocado por sua participação na elaboração do roteiro de “O Beijo da Mulher Aranha”, Puig concluiu que era difícil escrever para as telas e que seus romances não eram bem “traduzidos” (para o cinema). “Seus livros eram sobretudo falados, com pouca prosa descritiva, visual; estava tudo no ouvido, não no olho. Seu foco sobre a palavra falada funcionava melhor no teatro do que no cinema”, postula Suzanne Levine, a partir das ideias do escritor.
“O Beijo da Mulher Aranha foi distribuído em agosto de 1985. Puig era então uma celebridade internacional. Mas disse ao amigo René Jordan: “Oh!, mulher, que infeliz sou”.
O êxito do filme “O Beijo da Mulher Aranha” rendeu uma série de homenagens a Puig. O argentino recebeu, em 1986, seu segundo prêmio literário, o Curzio Malaparte na categoria romance estrangeiro com “Sangue de Amor Não Correspondido”. Em 1987 o filme sobre Molina e Valentín ganhou o prêmio Efebo d’Oro Agrigento, em Capri. Sônia Braga também foi premiada. Puig compareceu.
Puig gostava de morar no Rio. Mas a crise econômica e os assaltos nas praias e nas ruas, “em plena luz do dia”, o assustaram. Um amigo de Mario Fenelli foi esfaqueado. E o apartamento deste foi roubado. Male, sua mãe, tinha 80 anos e o escritor estava preocupado com sua segurança. Por isso, os dois voltaram para o México.
Ao contrário de alguns amigos, Puig se protegia e usava camisinha. Fez o teste de HIV e não estava contaminado. O escritor não morreu — em 1990, aos 57 anos — devido à Aids, e sim em decorrência de uma cirurgia de vesícula malsucedida. O hospital de Cuernavaca, no México, não era dos melhores.
1
A batalha de Puig para ser roteirista na Europa
[https://tinyurl.com/37hd59fy]
2
A nova tradução de O Beijo da Mulher Aranha

