Num tom irônico e decidido, o argentino Manuel Puig disse para o amigo cubano Germán Puig (não eram parentes): “Dado que não vou ser um grande diretor [de cinema], serei um grande escritor”. A história é relatada por Suzanne Jill-Levine na extraordinária biografia “Manuel Puig y la Mujer Araña — Su Vida y Ficciones” (Seix Barral, 415 páginas, tradução de Elvio E. Gandolfo), na página 130.

Antes de ser o brilhante autor de “A Traição de Rita Hayworth”, “Boquitas Pintadas”, “O Beijo da Mulher Aranha”, Manuel Puig — que ia ao cinema, com a mãe Male, desde os 4 anos — planejava ser diretor ou ao menos roteirista de cinema.

Por isso, além de saber inglês e francês, aprendeu italiano na Sociedade Dante Alighieri e ganhou uma bolsa para estudar um ano na Itália.

Manuel Puig era aficionado pelo cinema italiano, e não apenas pelo neorrealismo (ao qual fazia críticas), e pelo cinema americano. “Se Paris seguia sendo a capital da cultura literária, Roma, nos anos 1950, era ‘Hollywood junto ao Tibre’ e a escola de cinema mais importante da Europa — o Centro Sperimentale di Cinematografia — ficava ao lado da Cinecittà, a mais célebre produtora de filmes neorrealistas”, relata Suzanne Levine.

Manuel Puig jovem
Manuel Puig, jovem, encantava italianos e italianas | Foto: Reprodução

Na escola de De Sica, Rosselini e Renoir

Entre os professores do Centro Experimental de Cinematografia estavam, entre outros, Vittorio de Sica, Roberto Rosselini, Ingrid Bergman e Jean Renoir.

Aos 23 anos, Manuel Puig chegou à Itália, em agosto de 1956 — há quase 70 anos —, com uma ideia única na cabeça: se tornar diretor de cinema. Ou, no mínimo, roteirista.

Apaixonado pela beleza de Roma, Manuel Puig trafegava pelas principais ruas da cidade. Tentava conectar a Roma antiga à Roma moderna, meca do cinema.

“Roma fervia de cineastas de todo o mundo. Ao longo da Via Veneto era comum ver Greg Peck, Ingrid Bergman, Bill Holden, Anna Magnani, Gene Kelly, Silvana Mangano, Clark Gable, Audrey Hepburn, Gary Cooper, Jennifer Jones e Errol Flynn”, escreveu o jovem.

Manuel Puig e o cinema 1
Manuel Puig tinha paixão pelas divas do cinema | Foto: Reprodução

Na Via Veneto tão importante quanto ver, era ser visto. Mais importante ainda era ser fotografado pelos paparazzi, como aqueles de “La Dolce Vita”, de Federico Fellini.

“Roma era uma cidade noturna e, para o jovem Manuel, a luminosa Fontana di Trevi era tão romântica na vida real como nos filmes, tão decadente e glamurosa quanto a luxuriosa Anita Ekberg surgindo como Vênus até os braços de um Marcello Mastroianni quase desvanecido, igualmente estupendo. Manuel estava enamorado pelos romanos e ele também”, assinala a biógrafa.

As aulas de Manuel Puig no Centro Experimental de Cinematografia começaram em setembro de 1956. O argentino ficou encantado ao conhecer diretores famosos como Roberto Rosselini e Vittorio De Sica.

Manuel Puig capa de biografia 500

Pier Paolo Pasolini não empolgou Manuel Puig. O argentino disse que era um “falso poeta” e um “cineasta terrível” (uma leitura, por sinal, tremendamente redutora, mas feita por uma pessoa bem jovem). Conheceu o escritor Alberto Moravia e sua mulher, a escritora Dacia Mairani, de quem se tornou amigo.

Vittorio De Sica, com seu “enorme talento”, era “uma pessoa simples”, amável com os que o rodeavam. “Gostei de ‘Anna de Brooklyn’, com Gina Lollobrigida. ‘Lollo’ tinha dificuldades de entender as orientações do diretor, mas De Sica tinha uma paciência infinita com a atriz italiana.” Manuel Puig acompanhava tudo de perto.

O argentino viu também De Sica atuando como ator ao lado de Marlene Dietrich nas gravações do filme “The Monte Carlos Story”. Dietrich “era uma profissional”.

Aos poucos, Manuel Puig percebeu que em Roma depreciavam filmes americanos de Ernst Lubitsch, Hitchcock e Fritz Lang. O argentino era admirador sobretudo de Billy Wilder, diretor de “Crepúsculo dos Deuses”, e de Douglas Sirk, diretor de “Sublime Obsessão”.

Vittorio De Sica diretor
Vittorio De Sica: diretor de cinema italiano | Foto: Reprodução

“Nada era legal fora do neorrealismo”, criticava o jovem. “Só contava o conhecimento da realidade. Eles [os adeptos do neorrealismo] identificavam narração com cinema reacionário. Hollywood sabia narrar. (…) Para mim, narrar é, de algum modo, conhecer.” Manuel Puig apreciava “Rocco e Seus Irmãos”, de Visconti, e “As Noites de Gabiria”, de Fellini.

“Manuel sentia que, de ‘Oito e Meio” (“Otto e Mezzo”) em diante, os filmes de Fellini eram, como os de Antonioni, pretensiosos”, pontua a biógrafa.

Pediram aos alunos do Centro Experimental uma crítica de filmes de um grande cineasta europeu, como Eisenstein, Dreyer ou Renoir. Mas Manuel Puig optou pelo filme “O Cisne”, do americano do norte King Vidor, adaptado de uma obra do escritor húngaro Ferenc Mólnar. Grace Kelly atua no filme.

Professores e colegas de curso estranharam a escolha de Manuel Puig. Mas ele era e continuou sendo admirador dos clássicos americanos.

Crítico do “terrorismo teórico” do neorrealismo

Ao perceber o “terrorismo teórico” do Centro Experimental, que “satanizava” Hollywood, Manuel Puig perdeu o encanto.

O quase cineasta gostava sobretudo de filmes que convidavam ao sonho. Manuel Puig queria fazer filmes que, “sem deixar de ser comprometidos, fossem também entretenimento”. Como os filmes americanos.

Isolado, ante o predomínio dos neorrealistas, Manuel Puig ganhou em Néstor Almendros (futuro ganhador do Oscar pela fotografia de um filme) um aliado.

Néstor Almendros 2
Néstor Almendros: amigo e aliado de Manuel Puig em Roma | Foto: Reprodução

O jornalista e escritor argentino Ernesto Schoo contou que Manuel Puig era tão obcecado pela gravação de filmes que chegava a levar sanduíche para o set. Não queria perder nada.

Crítico do neorrealismo e do conformismo burguês, Manuel Puig deixou a escola no primeiro ano. Alegava que os não italianos não conseguiam trabalho na Cinecittà.

O argentino chegou a ganhar um prêmio pela escrita do melhor roteiro. Mas davam preferência aos alunos italianos.

Chegou a ser ajudante de direção num filme. “Ajudante do ajudante”, ironizava. Nos sets, percebeu que diretores e produtores se comportavam como ditadores. Designado para a unidade de efeitos especiais do filme “Adeus às Armas”, produção de David O. Selznick, não ficou satisfeito. O diretor Charles Vidor, Selznick e a atriz Jennifer Jones discordavam do eixo do filme. Era uma guerra. “Odeio a autoridade. Gosto de tratar as pessoas de maneira igualitária”, disse Manuel Puig.

Roberto Rossellini, diretor de cinema italiano, e Ingrid Bergman, atriz sueca | Foto: Reprodução

Apesar de suas críticas, Manuel Puig, menciona a biógrafa, “fez na Cinecittà uma grande descoberta: se relacionava com os filmes como espectador, não como cineasta”.

“Quando ‘Desprezo” (baseado no romance de Alberto Moravia), de Jean-Luc Godard, estreou em Nova York, em 1965, Manuel encontrou como espectador motivos para delirar, sendo uma das razões o affair amoroso da câmara com os formosos glúteos bronzeados de Brigitte Bardot, que começou com o excitante ‘E Deus Criou a Mulher’ (1956), de Roger Vadin.”

“‘Desprezo’ era um filme sobre o mundo do cinema; neste caso, uma sátira à Cinecittà e a Hollywood.” Manuel Puig era, porém, crítico do “reducionismo político dos intelectuais de esquerda como Godard.”

Manuel Puig dizia, na síntese da biógrafa, que “o valor artístico nem sempre acompanha a política correta, e que os politicamente corretos são amiúde hipócritas”.

Em 1956, Manuel Puig conheceu o argentino Mario Fenelli e se tornaram amigos para sempre. Discutiam cinema e literatura sem cessar e em qualquer lugar. Eram almas gêmeas.

Manuel Puig e Mario Fenelli Foto Reprodução 500
Mário Fenelli e Manuel Puig: o amigo o incentivou a escrever literatura | Foto: Reprodução

Nas conversas, Manuel Puig disse ao amigo que o ano decisivo para o cinema, ou para ele, tinha sido 1940, com os filmes “Outra Vez Meu”, com Greta Garbo, e “Intermezzo”, com Ingrid Bergman. Em Roma, na Via Veneto, o quase-cineasta via a sueca com frequência, “caminhando como uma viking”.

A beleza nórdica de Ingrid Bergman — com aquele nariz que parecia tocar o Céu — mesmerizava tanto Mario Fenelli quanto Manuel Puig. A biógrafa conta que o primeiro apreciava Ginger Rogers e Joan Crawford. Já o segundo preferia Greta Garbo.

Manuel Puig e Mario Fenelli se sentiam atraídos um pelo outro, mas prevaleceu a amizade. Os dois se tornaram irmãos. O outro grande amigo da dupla era Néstor Almendros.

Para sobreviver, Manuel Puig dava aulas de espanhol.

O primeiro roteiro de Manuel Puig

Na escola de cinema, Manuel Puig escreveu seu primeiro roteiro, “Baile Cancelado”, espécie de “Morros dos Ventos Uivantes” atualizado. Pretensioso, disse que o escreveu — em inglês — para Vivien Leigh.

Ginger Rogers e Fred Astaire 500
Ginger Rogers e Fred Astaire: atores e bailarinos admirados por Manuel Puig | Foto: Reprodução

As duas versões de “Chá e Simpatia” (“Tea and Sympathy”), a primeira com Deborah Kerr e a segunda com Ingrid Bergman, agradaram a Manuel Puig. O filme repercutiu no romance “A Traição de Rita Hayworth”. “O que interessava a Manuel no filme era a relação quase incestuosa que ajudava o garoto a se tornar adulto.”

“Os dois primeiros roteiros de Manuel, ‘Baile Cancelado’ e ‘Rosas Marchitas [Murchas] Para Apolo” — o último escrito com Mario —, giravam em torno do incesto mãe-filho”, anota Suzanne Levine.

Pretensiosos, Manuel Puig e Mario Fenelli queriam no elenco de “Rosas Murchas” nada mais nada menos do que Rita Hayworth, Hedy Lammar, Joan Fontaine e Giuliano Gemma (vinte anos depois, o ator italiano chegou a ser cotado para uma versão europeia de “O Beijo da Mulher Aranha”).

Manuel Puig capa de A tradição de Rita Hayworth 500
O romance deriva de um roteiro de Manuel Puig

O roteiro seguinte, “Verão Entre Paredes”, era uma “comédia”. Centrava-se na história de uma mulher na encruzilhada entre a correção moral e os desejos. “A batalha entre a vida pública e privada — o coração do melodrama, o coração de sua própria vida dupla — era um tema ao qual Manuel voltaria obsessivamente”, assinala a biógrafa.

“A ânsia por triunfar sobre as obscuras origens provincianas, que expressaria, com excelência, em ‘Boquitas Pintadas’, era um mundo que conhecia.” Era sua história, em parte. Mas, se escapou da cidade do interior, jamais conseguiu escapar de sua infância (mãe superprotetora e amiga, que o levou a amar o cinema, e pai autoritário e distante, o que contribuiu para que detestasse o autoritarismo).

Como o dinheiro da bolsa havia acabado, Manuel Puig arranjou um emprego de tradutor de legendas de filmes e continuou dando aulas de espanhol. Também lavava pratos em restaurantes. Em Londres, mais tarde, limpava janelas de edifícios. Era pau para toda obra.

O quase-ator em Paris, que era uma festa

De Roma, Manuel Puig foi para Paris, em 1957, onde se tornou amigo de Germán Puig, parça de Tomás Gutiérrez Alea (o cubano se tornou, mais tarde, célebre diretor de cinema), Guillermo Cabrera Infante (escritor cubano muito lido na Europa, autor de “Três Tristes Tigres”) e Néstor Almendros.

Manuel Puig e Germán Puig 1
Germán Puig e Manuel Puig: grandes amigos e cúmplices culturais | Foto: Reprodução

Germán Puig estudou em Paris com o lendário Henri Langlois, fundador da Cinémathèque Française.

Em Paris, Manuel Puig quase se tornou ator. “Fez um teste para um papel pequeno — ‘sentando-se à uma mesa em uma cafeteria de aeroporto e com expressão de surpresa’ — como extra em um filme de pouca importância.” Era um filme, “Les Fanatiques” (1957), com o ator Pierre Fresnay, sobre um complô para matar um ditador latino-americano, “vagamente sobre Perón e a Argentina”.

Mas acabou não ganhando o papel, pois o diretor não o achou parecido com argentino e o trocou por “um índio mexicano com bigode”.

Sem espaço no cinema, aceitou o emprego de recepcionista numa editora que publicava a revista oficial da Comédie Française. Depois, empregou-se como telefonista num hotel e secretário de uma empresa de artigos de couro.

Dadas as amizades de Mário Fenelli e Néstor Almendros, Manuel Puig entrou num set em Paris e pôde ver René Clément e Stanley Donen dirigindo filmes. Ele pretendia voltar a Roma, porque De Sica “havia prometido que o deixaria assistir a filmagem de ‘Anna of Brooklyn’”. Em 1957, na Itália, muitos atores estavam sem emprego.

Manuel Puig leu, nesta época, “A Lição do Mestre”, de Henry James, e “O Emblema Vermelho da Coragem”, de Stephen Carne. E os recomendou à mãe, Male — que amava. Leu a poesia de Byron e Shelley.

Yul brynner
Yul Brynner: um dos casos amorosos-sexuais de Manuel Puig na Europa | Foto: Reprodução

De volta a Paris, que ainda era uma festa, com os destaques sendo Jean Cocteau, Jean-Louis Barrault e Jean Genet. “A vida gay entre os artistas e intelectuais florescia na Rive Gauche.” A imaginação corria solta no Café Flore e no Deux Magots. “Paris era um porto para os exilados e um refúgio onde os artistas latino-americanos podiam estreitar vínculos entre si — mais do que nos seus países de origem”, relata a biógrafa.

Manuel Puig se tornou amigo de outro cinéfilo argentino — Nino Franqui — que morava em Paris. Os dois chegaram a ter um caso, em Buenos Aires, mas eram, acima de tudo, amigos e amantes do cinema.

Em Londres e o caso com Yul Brynner

Decidido a conhecer os melhores lugares da Europa, Manuel Puig foi para Londres, em fevereiro de 1958. Achou os ingleses “pitorescos” e “corteses”. Mais tarde, disse que “eram esplêndidos mas incompreensíveis”. Para sobreviver, dava aulas de espanhol e italiano.

Poeta e espião, Paul Dehn era um dos alunos de Manuel Puig. Ele havia escrito o roteiro do filme “Ordens de Matar”, dirigido por Anthony Asquith. Ele também fez o roteiro de “Goldfinger”, uma das histórias de James Bond, e de “O Espião Que Veio [ou “Saiu”] do Frio”. Os dois se tornaram amigos. O ator John Gielgud era outro aluno. O argentino também lavava pratos num restaurante do Soho.

Maria Callas como Violette em La Traviata | Foto: Houston Rogers/Victoria and Albert Museum

Manuel Puig era visto como um homem bonito e, como tal, chamava a atenção de homens e mulheres. As pessoas paravam para vê-lo. “Suas numerosas conquistas incluíam algumas celebridades, como Stanley Baker e Yul Brynner” (que, por sinal, foi casado com quatro mulheres). O argentino diz que ele e Brynner eram bem-dotados, notadamente o ator russo-americano.

Em Londres, além do cinema, Manuel Puig se dedicou a ver peças de teatro, óperas e ballet. Encantou-se com “My Fair Lady”, com Eliza Doolittle e Rex Harrison. Julie Andrews “não era uma maravilha”, mas tinha “boa voz”

A ópera “Don Carlos”, produzida por Visconti, “foi realmente maravilhosa”. Mas espetacular mesmo, segundo Manuel Puig, “foi Maria Callas em ‘A Traviata. (…) Vi Callas, encantadora. Atua como uma perfeita atriz, e canta com um sentimento que faz chorar as pedras”.

Em Londres, viu Laurence Olivier, Vivien Leigh, John Gielgud e Claire Bloom no teatro. Eram os deuses atores? Sim, para Manuel Puig.

Manuel Puig tentou vender seu roteiro “Baile Cancelado” em Londres para o produtor Anthony Havelock-Allan. Educadamente, seu aluno sugeriu que ampliasse (na verdade, melhorasse) o roteiro.

Anthony Havelock seguiu o conselho de Puig de que Robert Mitchum era melhor ator do que Yul Brynner e o escalou em alguns filmes.

Vivien leigh
Vivien Leigh: a atriz assediou Manuel Puig no camarim | Foto: Reprodução

Em Londres, viu “E Deus Criou a Mulher”, com Brigitte Bardot, e “Pal Joey”, com Rita Hayworth. Não aprovou nenhum dos filmes. Assistiu também “Indiscreta”, de Stanley Donen, com Ingrid Bergman e Cary Grant. Uma comédia, disse, “deliciosa”.

Assediado pela atriz Vivien Leigh

Manuel Puig decidiu conversar com Vivien Leigh sobre o roteiro de “Baile Cancelado”. A atriz inglesa não demonstrou nenhum interesse. Mas assediou o argentino “guapo”, que também não demonstrou muito interesse. Talvez algum?

Leu com interesse “A Convidada do Casamento”, livro de Carson McCullers. A história foi levada ao cinema com a atriz Julie Harris. Manuel Puig interessou-se pela obra. O roteiro que se tornou o romance “A Traição de Rita Hayworth” deve alguma coisa ao livro da escritora americana, que relata uma história do Sul provinciano dos Estados Unidos. O livro do argentino, “autobiografia da infância”, trata, em parte, de sua vidinha numa cidade pequena da Argentina, General Villegas, onde nasceu.

De volta a Paris, em 1959, Manuel Puig recebeu incentivo de Mario Fenelli e Germán Puig para escrever. Já o produtor Havelock o aconselhou a escrever roteiros sobre “temas modernos”. Uma maneira gentil de dispensá-lo.

Na capital francesa, assistiu, deliciado, as gravações de “Ainda uma Vez com Emoção” (“Once More, With Feeling”), comédia de Stanley Donen, com Yul Brynner e Kay Kendall. Como ajudante de set, levava sanduíches para Kay.

“Ver Kay atuar foi definitivo para mim; sempre improvisou, mas tinha a virtude de ser capaz de repetir suas improvisações uma ou outra vez.”

Numa carta para a mãe, escreveu: “Vi o melhor da Itália (De Sica), o melhor da França (Clément) e duas americanas: drama em ‘Adeus às Armas” (dirigido mais por Selznick que pelo verdadeiro diretor) e agora uma comédia. Donen é suave e paciente”.

Ao mesmo tempo que continuava reescrevendo “Baile Cancelado”, Manuel Puig fez amizade com cineastas e atores americanos e europeus, como Suzy Parker e Fernando Rey.

Viajante nato, esteve na Alemanha Ocidental e apaixonou-se por suas cidades, sobretudo Colonia e Nuremberg. A arquitetura gótica e a energia dos alemães o conquistaram. Não gostou de Viena. Apreciou a Tchecoslováquia e detestou a Alemanha Oriental. “O inferno na Terra”, avaliou. O autoritarismo do stalinismo o afastou do país.

Manuel Puig passou o verão de 1959 na Suécia, o país onde ocorre “‘Morangos Silvestres’, a obra-prima onírica e evocativa de Ingmar Bergman.

Na Suécia, além de lavar pratos em restaurantes, deu aulas de espanhol e italiano nos cursos de verão de uma universidade. A permissividade sexual do país o agradou. Suecos, loiros e altos, se encantaram com a beleza argentina (ou italiana, a mãe descendia de italianos) de Manuel Puig.

O argentino ia à Biblioteca Americana, de bicicleta, quase todas as manhãs. Estava escrevendo o roteiro de         “Verão Adentro”. Leu o roteiro do filme “A Malvada” e estudou os três ou quatro truques do diretor Joseph L. Mankiewicz “para acelerar e condimentar um diálogo”.

Em Estocolmo, até a depressão, que o acometia em Paris, diminuiu. Estava decidido a ir para Nova York. Mas escreveu para a mãe que “não hazia como fazer de qualquer uma das cidades seu lar”. Era um errante pelo mundo, que era e não era seu.

“Roma havia sido a mais próxima de seu temperamento; ainda assim, era sufocante e demasiado cheia de obstáculos”, frisa a biógrafa.

O cinema argentino e o nascimento do escritor

Quando a mãe teve câncer, Manuel Puig apavorou-se e decidiu voltar para a Argentina. Era gay, mas, na viagem de navio, manteve relações com uma jovem, Vera. A família de Coco — como era conhecido — ficou entusiasmada. Mas o jovem pediu dinheiro ao pai, Baldomero, o Baldo, para a namorada fazer um aborto. Vera estava apaixonada; ele, não.

Manuel Puig capa de O Beijo da Mulher Aranha 500

Manuel Puig sentia-se atraído por algumas mulheres, com as quais manteve relacionamento sexual. “Mas não eram paixões duradouras nem amor romântico.” O certo é que fazia sucesso com mulheres e homens. O argentino apreciava mais homens bonitos e fortes.

Em Buenos Aires, longe da efervescência europeia, Manuel Puig deprimiu-se. A capital argentina era vista como “atrasada”.

Manuel Puig era um missivista compulsivo. Suas cartas eram consideradas extraordinárias pelo amigo Mario Fenelli. Eram ricas em espontaneidade. “Me pareceu que revelavam um indubitável talento para a escritura e mais de uma vez sugeri que, sendo autor de cartas tão lindas, deveria se dedicar à literatura.”

Mario Fenelli talvez tenha sido o primeiro a perceber a genialidade literária de Manuel Puig. Mas o amigo queria mesmo era ser roteirista de sucesso.

Manuel Puig e Carlos e Male e Baldomero 400
Carlos (criança) e Manuel Puig com os pais Mal e Baldomero Puig | Foto: Reprodução

Em Buenos Aires, trabalhou como “assistente do diretor assistente” no filme “America di Notte”, uma produção ítalo-argentina. Em espanhol ganhou o título de “Casi al Fin del Mundo”. Irônico, Manuel Puig sugeria o outro título: “Quase no culo do mundo”.

Manuel Puig também colaborou com “Uma Americana em Buenos Aires”, com os atores Jean-Pierre Aumont e Mamie Van Doren, de Hollywood. O argentino e o francês tiveram um caso. Sem entusiasmo do roteirista.

A mulher de Aumont, a “encantadora” Marisa Pavana, irmã da atriz Pier Angeli, se tornou “amiga” de Manuel Puig. Ele preferia sua companhia.

O diretor disse que Manuel Puig seria convidado para participar de um filme no Mato Grosso, Estado brasileiro.

O amigo Mario Fenelli e uma prima, Bebé, o convenceram a procurar um terapeuta. Estava, mais uma vez, deprimido. Submeteu-se, durante seis meses, à hipnoterapia.

Manuel Puig e Néstor Almendros com amigos 500
Manuel Puig e Néstor Almendros (de óculos) com colegas do Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma | Foto: Arquivo de Carlos Puig

Apesar do sucesso da psicanálise na Argentina, Manuel Puig não se entusiasmou. Mas admitiu, segundo Suzanne Levinas, que “a hipnose lançou luz sobre o menino que havia nele e sobre os ‘demônios’ que precisava enfrentar, e assim o ajudou a liberá-lo para explorar seus problemas por meio da escritura”. Daí as histórias aparecerem com força no romance “A Traição de Rita Hayworth”.

Em Buenos Aires, seguindo o conselho de Mario Fenelli, voltou a escrever em espanhol, e não mais em inglês. Acatou também o conselho de Havelock e começou a escrever sobre temas modernos.

O primeiro roteiro de Manuel Puig ambientado na Argentina contém muitos diálogos. Colocou o título de “La Tajada” (tem a ver com corrupção política, mas, na gíria portenha, é vagina). Mais tarde, ele disse que o roteiro era “uma crítica social, ainda tímida, à burguesia de Buenos Aires durante os anos de Perón”.

Suzanne Levinas postula que “‘La Tajada’ foi sua primeira tentativa de esboçar sua realidade como obscuro jovem argentino vindo de uma remota e pequena cidade de província”. Manuel Puig não era, na época, leitor de Roberto Arlt. “Mas o roteiro é surpreendentemente arltiano, pois o personagem principal fala de dentro do peronismo, e expõe os intelectuais locais como esnobes antipáticos.”

“Logo Manuel encontraria um modo de mostrar sua crítica, de permitir que seus personagens falassem com sua própria voz. (…) Manuel exploraria os prós e os contra do peronismo ainda mais explicitamente em ‘The Buenos Aires Affair’, e em livros posteriores”, sublinha a biógrafa.

Um diretor argentino notou a autenticidade do diálogo no roteiro. Mas ressalvou que Manuel “não parecia conhecer bem o tema”.

Suzanne Levinas contrapõe: “Mais certo seria dizer que Manuel não era um historiador, e sim um espectador participante (como a jovem Evita) da história personificada por Marlene Dietrich fazendo Catarina a Grande ou por Norma Shearer interpretando Maria Antonieta. Buscava os melodramas íntimos à margem da história: uma debilidade aparente, mais tarde, reconhecida como sua força”.

Em 1961, com promessa de emprego garantida por Mario Fenelli, Manuel Puig decide voltar para Roma. Na viagem, de navio, passa uns dias no Rio de Janeiro e curte o Carnaval. Depois, vai à Galícia, ver parentes do pai, Baldomero Puig. Na Espanha, adorou Sevilla.

Em Barcelona, havia uma máquina de escrever à espera. Por isso, ele disse: “Dado que não vou ser um grande diretor, serei um grande escritor”. Estava certo.

Para gáudio dos bons leitores, a Editora Todavia vai lançar uma nova edição do romance “O Beijo da Mulher Aranha”, com tradução de Sergio Molina (o argentino é um dos melhores tradutores de literatura em espanhol).

Leia mais sobre Manuel Puig no Jornal Opção

[https://tinyurl.com/3ttdxmps]