Jair Bolsonaro e seu grupo político atacavam — o que é diferente de criticar — jornalistas com extrema violência verbal. O alvo preferido era, por vezes, mulheres — como Patrícia Campos Mello (“Folha de S. Paulo”), Vera Magalhães (“O Globo”), Eliane Cantanhêde (“Estadão”) e Miriam Leitão (“O Globo” e GloboNews).

Misoginia e bolsonarismo são hermanos, por assim dizer. O que fazem com a atuante deputada Érika Hilton é um horror. Um desrespeito total. Não é nada casual. Pelo contrário, é uma maneira, barbárie articulada, de “puxar” a esquerda, ainda mais, para as causas identitárias. A direita — a extrema direita — avalia que tais questões “jogam” a sociedade, parte dela (a mais conservadora), contra o PT do presidente Lula da Silva.

Patrícia Campos Mello: a repórter mais atacada pelo bolsonarismo | Foto: Reprodução

Dados os ataques, altamente condenáveis — a Justiça condenou os caluniadores de Patrícia Campos Mello —, a esquerda alinhou-se com as jornalistas e as defendeu. Agiu corretamente.

As críticas ao bolsonarismo, feitas pela esquerda, também eram (e são) pertinentes. Porque revelou-se antidemocrático e tentou um golpe de Estado — barrado porque o Exército e a Aeronáutica não quiseram participar.

Entre a democracia e os que são antidemocráticos — golpistas —, é preciso fazer a defesa da primeira. A imprensa agiu bem ao se posicionar contra o bolsonarismo golpista e ao defender o Supremo Tribunal Federal, que, ao lado do Exército, foi decisivo para conter o movimento golpista dos que planejavam o retorno a uma ditadura.

Mas os casos do Banco Master & Daniel Vorcaro — que corrompeu parte substancial da República — e o assalto aos aposentados do INSS contribuíram para distanciar esquerda e imprensa.

Vera Magalhães Foto Agência Pública
Vera Magalhães: alvo de ataques do bolsonarismo | Foto: Agência Pública

“O Globo”, “Estadão” e a “Folha de S. Paulo”, para citar apenas três jornais, vasculham com lupa os dois casos e publicam reportagens a respeito.

O que a imprensa descobriu e está mostrando é que o Banco Master e o carequismo do INSS envolvem praticamente todo o espectro político — o centro, a direita e a esquerda. Os três grupos “colocaram” alguns de seus membros no centro dos dois escândalos. Por sinal, como nem tudo foi revelado — a delação premiada de Daniel Vorcaro vai abrir a latrina ainda mais —, novos (e velhos) personagens do mundo da política e dos negócios serão, por certo, arrolados.

Os rolos do Banco Master e do INSS são “democráticos”, digamos. Porque envolvem indivíduos de colorações ideológicas as mais diferentes. É o que Malu Gaspar e Lauro Jardim, de “O Globo”, estão mostrando. Assim como repórteres de “O Estado de S. Paulo” e da “Folha de S. Paulo”. Estão dizendo: “Há jornalismo na praça, doa a quem doer”.

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Daniel Vorcaro, banqueiro-prisioneiro: delação pode ser reveladora | Foto: Reprodução

Sugerindo que Malu Gaspar está fazendo jornalismo contra o presidente Lula da Silva e o Supremo Tribunal Federal, a artilharia da esquerda, em vários sites, começou a criticá-la de maneira abusiva (para potencializar os ataques nas redes sociais e, com isso, intimidar seu jornalismo investigativo). Seria, agora, a misoginia de esquerda? Não parece misoginia porque a infantaria da esquerda é de matiz intelectual, quer dizer, guarda certo refinamento. A misoginia red é chique, analítica.

(Quanto ao STF, tenho uma posição heterodoxa. Enfraquecê-lo, com denúncias não suficientemente apuradas, fortalece, sim, o bolsonarismo. Ainda que não seja a intenção do jornalismo mais equilibrado, como o de “O Globo”, “Estadão” e “Folha”. A ideia é pôr tudo por terra? Se for, comprem o terno de posse para Flávio Bolsonaro. Há momentos em que é preciso escolher entre a democracia e a barbárie. O Supremo “garante” a democracia e o bolsonarismo quer extingui-la.)

Ibaneis Rocha, citado em reportagens sobre o Banco Master, não é de esquerda | Foto: reprodução

O jornalismo de Malu Gaspar é, insista-se, o mais amplo e preciso possível. Deveria ser louvado, e não criticado. Em que está errando? Seus críticos, se a atacam, não apontam quais são seus equívocos. Se querem convencer leitores que não observam os fatos pelos prismas da esquerda e da direita, e sim ressaltando a veracidade dos fatos, precisam apontar onde estão as falhas cruciais de suas reportagens. Porque, pelo que tenho lido, a repórter não está dando opinião, e sim apresentando fatos.

O bolsonarismo criou uma legião de apoiadores para sua causa de atacar, de maneira coordenada e direcionada, jornais e jornalistas. A esquerda vai seguir pelo mesmo caminho? Oxalá não. Porque não há dúvida de que a esquerda é melhor do que o bolsonarismo — é civilizada e avessa à barbárie. Por isso, chegou a hora de Lula da Silva — leia-se Sidônio Palmeira — suspender a artilharia contra Malu Gaspar e outros jornalistas, como a apresentadora da Globo News, Andréia Sadi.

Andréia Sadi faz um jornalismo de primeira linha. Não é mera apresentadora do “Estúdio I”, da GloboNews. É uma repórter que apura bem e divulga furos. Seu perfil é o de César Tralli (que está bem como apresentador do “Jornal Nacional”, mas parece ter perdido a “alma” como repórter), ou seja, o de repórter sempre em forma, presente.

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Malu Gaspar: jornalista de “O Globo” e da GloboNews | Foto: Facebook

A GloboNews (com anuência de alguns jornalistas, decerto) deu um mau passo com o PowerPoint — por sinal, malfeito, até bobinho como arte — que, claramente, tentou envolver o presidente Lula da Silva e o PT na falcatrua do Banco Master. O foco das investigações não são nem o petista-chefe nem o Partido dos Trabalhadores.

Então, de fato, a GloboNews errou, e feio. Pediu desculpas pelo erro e conta-se que teria afastado, definitiva ou provisoriamente, dois profissionais. Como Andréia Sadi é apresentadora do “Estúdio I”, desde que foi apontado o erro, se tornou a vítima preferida da artilharia da esquerda.

Ciro Nogueira, citado no Caso Banco Master, o senador não é de esquerda | Foto: Senado Federal

Mas por que “linchar” uma profissional da qualidade de Andréia Sadi? De novo, a velha e “democrática” (é da direita e é da esquerda) misoginia?

De qualquer maneira, as críticas, de esquerda ou não, são positivas no sentido de mostrar que a sociedade está vigilante e aponta os (possíveis) erros do jornalismo. O que está errado é a campanha contra Malu Gaspar e Andréia Sadi. Vão parar? Dada a pré-campanha eleitoral, com a polarização entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, o mais provável é que a insanidade articulada continue. É uma pena.