Euler de França Belém
Euler de França Belém

Machado de Assis publicou crítica dura de O Primo Basílio e disse que Eça de Queirós imitou Zola¹

O escritor brasileiro escreveu que “O Crime do Padre Amaro” não passava de imitação do livro “O Crime do Padre Mouret”, do autor francês Émile Zola

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O cubano G. Cabrera Infante (“Três Tristes Tigres”), o poeta e pensador mexicano Octavio Paz (“Signos em Rotação”), Susan Sontag (“Sob o Signo de Saturno”), o americano John Updike (“Coelho Cai”), Salman Rushdie (“Versículos Satânicos”) e o mexicano Carlos Fuentes (“A Morte de Artemio Cruz”) dizem que o maior escritor da América Latina, no século 19, é Machado de Assis (1839-1908).

Cabrera Infante e Octavio Paz afirmam que, no século 20, a primazia cabe a Guimarães Rosa (1908-1967). “Grande Sertão: Veredas” é, no dizer do escritor cubano, a Carmen Miranda da literatura ou dos escritores. Gabriel García Márquez é fichinha perto do criador dos contos de “Sagarana” e do autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro” (o nosso “Madame Bovary” — com sutileza e disfarce — ou nosso “Otelo”). Guimarães Rosa, por sinal, nasceu no ano em que Machado de Assis morreu — 1908.

Os estilos de Machado de Assis e Guimarães Rosa são diferentes. São autores, digamos, incomparáveis — jamais incompatíveis. Há quem avalie que Machado de Assis é “mais” escritor do que Guimarães Rosa. Aquele seria um escritor mais “natural” e este, mais artificial. Na verdade, toda prosa é artificial e o que parece natural não o é. O que importa mesmo é que são escritores de alta qualidade. É isto que vale numa terra por vezes tão estéril e devastada pelos PCs e Collors das letras. Curiosamente, o carioca e o mineiro beberam nas águas caudalosas de autores irlandeses — Laurence Sterne, o primeiro, e James Joyce, o segundo.

Crítico de olhos e cérebro de aço

A máscara do romancista de sucesso “escondeu” outras qualidades de Machado de Assis. O mulatinho das sombras era bom poeta e excelente contista, mas alguns críticos preferem repetir clichês. O autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (que, na curiosa leitura de Cabrera Infante, antecipou “Lolita”, de 1955, do russo Vladimir Nabokov, o pai da palavra “ninfeta”, hoje tão “brasileira”) seria um “poeta menor”. Rótulos são resistentes e difíceis de serem derrubados. Uma leitura cuidadosa da poética machadiana talvez possa mudar a opinião dos resenhistas de fim de semana (como eu). É claro que, como poetas, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto são bem superiores. Os contos merecem uma releitura urgente².

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O Machado de Assis (foto acima) crítico perspicaz e “severo” (linguagem dele próprio) tem sido ainda mais negligenciado que o poeta e tradutor (há uma bela tradução sua do longo poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe). O homem que não quis legar a sua miséria a um filho (apesar das más e boas línguas insinuarem que era o pai de Mário Alencar, o escritor registrado como filho de José de Alencar) foi o primeiro e mais cáustico comentarista brasileiro de “O Primo Basílio”, segundo romance do escritor português Eça de Queirós (1845-1900).

A Editora Cultrix prestou excelente serviço ao leitor e aos críticos lançando “Crônicas, Crítica, Poesia, e Teatro”, do infatigável Machado de Assis.

Na parte de “Crítica” encontra-se um ensaio de 15 páginas analisando, ou melhor, tentando demolir a estrutura, a construção literária de “O Primo Basílio”, romance publicado por Eça de Queirós em 1878.

Não é uma avaliação convencional. É o resultado do trabalho de um escritor-crítico de olhos e cérebro de aço. Machado de Assis escreve com uma volúpia ímpar. Às vezes, perdendo a serenidade e a isenção. O mais importante é que ele não fica em cima do muro. Não sabia ser o PSDB da crítica literária. Toma posição às claras e diz por que não gostava e, ao mesmo tempo, gostava de Eça de Queirós, o prolífico escritor. Em seguida, resumo os “ataques”, diatribes e preconceitos machadianos. O homem que cabalou votos para Mário de Alencar frequentar a Academia Brasileira de Letras (ABL) tinha o que Mike Tyson não tem e John Updike tem de sobra: inteligência à flor da pele.

Eça de Queirós capa do livro o PrimoBasilio

Discordar da habilidade e das “distorções” de Machado de Assis é um prazer — por causa de seu brilhantismo e capacidade de percepção de como se constrói uma obra e de como o crítico deve ou pode desmontá-la. Felizmente, não havia semiotiquês, estruturalês e descontrucionismo no tempo do autor de “Memorial de Aires”. O escritor brasileiro escrevia como gente civilizada fala. Ela lia as obras diretamente — não as lia a partir de determinada teoria. De certa forma, criava sua própria teoria.

Eça foi acusado de copiar Zola

De início, Machado de Assis implica com a escola e o estilo literários do escritor português. “O sr. Eça é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do ‘L’Assommoir’” (romance do francês Émile Zola). Reconhece o talento do romancista, mas, sutilmente, repisa a ideia de que ele era um iniciante.

Grave e injusta é a acusação de que “O Crime do Padre Amaro” não passava de uma imitação do livro “O Crime do Padre Mouret”, de Émile Zola (1840-1902; foto abaixo). Acontece que o livro de Eça Queirós foi escrito e publicado primeiro. O preconceito turvou o julgamento crítico e levou ao exagero e ao erro.

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Um dos “defeitos” mais observados por Machado de Assis em Eça de Queirós é de “concepção”. Esta, segundo o autor de “Quincas Borba”, seria por demais artificial. “Se não houvesse extravio das cartas, ou se Juliana fosse mulher de outra índole, acabava o romance em meio, porque Basílio, enfastiado, segue para a França, Jorge volta para o Alentejo, e os dois esposos tornariam à vida antiga.”

Deve-se observar como Machado de Assis levanta hipóteses, variantes para a narrativa de Eça de Queirós. É como se pensasse assim: a literatura pode ser feita com uma receita na mão e duas ideias na cabeça. Talvez seja possível dizer que o defeito de concepção está na crítica, não na obra criticada, mas não vem ao caso fazer uma crítica ao texto machadiano, um texto, óbvio, datado (mas interessantíssimo) e escrito no calor de polêmicas sobre estilos literários, sobre qual o melhor para expressar uma “estória”. Machado de Assis discutia “forma” de um ponto de vista, o “seu”, e rejeitava outro, o de Eça de Queirós e dos “realistas aspérrimos”…

Em artigo-réplica a um dos fãs de Eça de Queirós, Machado de Assis escreveu: “Depois de analisar o caráter de Luísa, de mostrar que ela cai sem repulsa nem vontade, que nenhum amor nem ódio a abala, que o adultério é ali uma simples aventura passageira, chego à conclusão de que, com tais caracteres como Luísa e Basílio, uma vez separados os dois, e regressando o marido, não há meio de continuar o romance, porque os heróis e a ação não dão mais nada de si, e o erro de Luísa seria um simples parênteses no período conjugal. Voltariam todos ao primeiro capítulo…”.

Machado de Assis atira, mais virulento do que Rambo: “Tirai o extravio das cartas, a casa de Jorge passa a ser uma nesga do Paraíso; sem essa circunstância, inteiramente casual, acabaria o romance. Ora, a substituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito, eis o que me pareceu incongruente e contrário às leis da Arte”. Arte assim mesmo: com “A” maiúsculo. E com “leis”…

Para o irritado mas seriíssimo Machado de Assis, a ação, em Eça de Queirós, “adquire um interesse anedótico, um interesse de curiosidade”. Fico a imaginar como Machado de Assis criticaria os autores do novo romance francês…

Realismo era uma “doutrina caduca”

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Machado de Assis fulmina, no final de sua arrasadora crítica publicada, em 1878, no jornal “O Cruzeiro” (não confundir com a revista): “Resta-me concluir, e concluir aconselhando aos jovens talentos de ambas as terras de nossa língua que não se deixem seduzir por uma doutrina caduca (o realismo/naturalismo de Émile Zola e Eça de Queirós), embora no verdor dos anos. Este messianismo literário não tem a força da universidade nem da vitalidade; traz consigo a decrepitude. (…) o seu (de Eça de Queirós) dom de observação, aliás pujante, é complacente em demasia; sobretudo, é exterior, é superficial. O fervor dos amigos pode estranhar este modo de sentir e a franqueza de o dizer. Mas então o que seria a crítica?”

Curiosamente, Machado de Assis publicou seus livros mais importantes (fora os contos) depois de 1878: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, 1881; “Quincas Borba”, 1891; e “Dom Casmurro”, 1899. Todos plenos de realismo, de um realismo bem machadiano, irônico, nuançado e, às vezes, distanciado — com influência europeia e cariz tropical.

Os críticos inseguros mordem e sopram quase ao mesmo tempo. Machado de Assis agia diferente: mordia com violência e não pedia desculpas. A intenção e arrancar pedaços, desclassificar o criticado e reduzir sua influência “nefasta” e “caduca”.

O leitor decerto perdoa os exageros e o autoritarismo do genial escritor — que parecia não ter sangue nas veias, mas tinha, e fervente. Machado de Assis escrevia como um leão — um leão com a pata ferida. Sua crítica nada tinha de condescendente.

Mas o leitor perdoa Machado de Assis principalmente porque o comentário contra Eça de Queirós foi escrito no calor da hora. Isto é, “O Primo Basílio” foi publicado no dia 18 de fevereiro de 1878 em Portugal e a “demolição” do crítico patropi saiu em 16 de abril do mesmo ano. Com certeza, Machado de Assis não tinha informação suficiente — por certo, não lera outros críticos — e o distanciamento crítico necessário, naquele momento, para analisar o romance de Eça de Queirós com mais amplitude. Mas felizmente rejeitava a crítica do “por outro lado” e era corajoso e de rara perspicácia (reconhecida pelo próprio Eça de Queirós).

Eça de Queirós assimilou a crítica e elogiou artigo de Machado de Assis

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Outro livro revelador é “Eça e o Brasil”, de Arnaldo Faro, publicado pela Companhia Editora Nacional e pela Editora da Universidade de São Paulo. O autor conta que o avô de Eça de Queirós foi ouvidor do Rio de Janeiro e o seu pai era carioca. O jornalista, político e polemista Carlos Lacerda chamava o escritor Eça de Queirós de o “grande desemburrador” de jovens. Curiosidade à parte, há informações preciosas a respeito da pioneira crítica de Machado de Assis.

A crítica de Machado de Assis foi assinada sob o pseudônimo de Eleazar e recebeu respostas de S. Saraiva e Amenófis Efêndi (Henrique Chaves e Ataliba Lopes de Gomensoro). A defesa que fizeram de Eça de Queirós só foi republicada, 60 anos depois, na revista “Os Anais”, de Domingos Olímpio, o autor do romance “Luzia-Homem”.

A crítica de S. Saraiva — “Ainda o Primo Basílio” — saiu na “Gazeta de Notícias” de 20 de abril de 1878, quatro dias depois do petardo de Machado de Assis.

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S. Saraiva afirmava que não discutia escolas literárias, mas que Machado de Assis, não tendo distanciamento, combatia “causa e efeito, a escola e o livro” de Eça de Queirós.

No dia 24 de abril do mesmo ano apareceu a resposta (a Machado de Assis), na mesma “Gazeta de Notícias”, de Amenófis Efêndi: “Eleazar e Eça de Queirós — um Crítico do ‘Primo Basílio’”.

Amenófis Efêndi assegura que Machado de Assis não entendeu a força dos personagens de Eça de Queirós.

Contra o coro dos contentes e dos descontentes, o próprio Eça de Queirós escreveu a Machado de Assis. “O sr. Machado d’Assiz, nome tão estimado entre nós, o autor do belo artigo sobre ‘O Primo Basílio’ e o Realismo publicado no ‘Cruzeiro’ de 16 de abril assinado com o pseudônimo d’Eleasar”, escreveu o prosador português.

Eça de Queirós informou que o primeiro artigo de Machado de Assis “foi transcrito em mais d’um jornal português”. E mais: “Não quis estar mais tempo sem agradecer o seu excelente artigo. Apesar de me ser adverso, quase severo, e de ser inspirado por uma hostilidade quase partidária à Escola Realista — esse artigo todavia pela sua elevação, e pelo talento com que está feito, honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade”.

A crítica de Machado de Assis, “negativa”, foi muito melhor recebida que os elogios. Para Eça de Queirós, a crítica de Machado de Assis não foi negativa — apenas adversa e, ao mesmo tempo, enriquecedora…

Machado de Assis, segundo Arnaldo Faro, “nem acusou o recebimento da carta”. Parece que os dois evitaram o debate. Intencionalmente. Eram dois gigantes que se entendiam mesmo quando se fingiam de desentendidos. Mas em 1880 Eça fez questão de frisar que não havia copiado Émile Zola ao escrever “O Crime do Padre Amaro”.

No geral, o escritor português parece ter assimilado bem a crítica de Machado de Assis ao romance há pouco tempo adaptado para televisão pela Globo. O próprio Eça de Queirós admitiu a falta de “um pouco mas de sobriedade” ao livro.

Analistas mais recentes de Machado de Assis respeitam sua avaliação da obra de Eça mais “como estilização” (Agrippino Grieco). Álvaro Lins escreveu que Machado de Assis usou de um critério que nenhum crítico pode usar: o de imaginar, para personagens alheios, destinos diferentes.

Notas

¹ Título original do artigo: “Eça de Queirós sob o ‘machado’ de Assis”.

² O texto foi publicado há quase 24 anos, na edição de 9 a 15 de agosto de 1992 do Jornal Opção. Entre 1992 e 2016, estudiosos acadêmicos e não-acadêmicos publicaram uma série de livros de qualidade sobre o romance, o conto e a poesia de Machado de Assis. Minha crítica, portanto, não é mais válida. Mas procede que a literatura do Bruxo do Cosme Velho é inesgotável. John Gledson e Alfredo Bosi, para citar dois estudiosos, têm publicado uma série de livros gabaritados sobre a literatura de Machado de Assis.

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