Comentarista da GloboNews, Daniel Sousa não tem uma voz, digamos, como a de Andréia Sadi, Arthur Dapieve, Flávia Oliveira, Ana Flor, Demétrio Magnoli, Joel Pinheiro, Gerson Camarotti. Sua voz é fina, quase de soprano. Mas isto é irrelevante ao se considerar que seus comentários são, em geral, de primeira linha.

Daniel Sousa é cuidadoso na exposição de suas análises — quase sempre pertinentes. O que diz talvez repercuta menos por não ser uma estrela, por assim dizer. É menos midiático e raramente excede nos seus comentários.

Não exceder não é sinônimo de não se posicionar. Daniel Sousa defende suas ideias de maneira competente. Seus comentários, os de economia, por exemplo, são de alta qualidade.

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Produzir dívidas é uma “missão” do capitalismo no Brasil, nos Estados Unidos e em qualquer lugar | Foto: Reprodução

Entretanto, na quinta-feira, 9, Daniel Sousa, ao criticar os maus pagadores, pisou no chuchu.

O governo do presidente Lula da Silva estuda uma medida para beneficiar endividados. Daniel Sousa se posicionou contra.

O jornalista postula: “O Brasil não estimula o bom pagador. Pelo contrário, premia o mau pagador”. Bela frase: de matiz liberal ou conservador?

No caso, o Estado planeja amparar as, digamos, vítimas do capitalismo. Incentiva-se o consumo, inclusive com vários anúncios divulgados na TV Globo, de maneira desmedida. Para não serem atraídas pelas ofertas, facilitadas pelo crédito relativamente fácil, só se as pessoas fossem santas ou eremitas.

Vive-se na sociedade de consumo — do comprar por comprar, às vezes em excesso. É o que move a velocidade reprodutiva do capitalismo (do capital).

Vladimir Lênin: o que é assaltar um banco perto de um banco | Foto: Reprodução

Cria-se um círculo vicioso. O cidadão compra, não tem como pagar e, adiante, o Estado precisa ampará-lo (para mantê-lo como consumidor para a eficácia do capitalismo). E tem de fazer isto mesmo — já que não pode “penalizar” quem incentiva o consumo o tempo todo, com uma publicidade insistente e capciosa.

O consumidor deve ser tratado como sujeito, e não só como vítima. Mas é preciso insistir no fato de que é intimado — ou pressionado — a consumir. Não há capitalismo sem crédito ou, noutras palavras, sem endividados. A sociedade de consumo pressiona o indivíduo para comprar cada vez mais, e quase sem limite.

Daniel Sousa sugere que os brasileiros precisam poupar mais. Está certo. Precisam mesmo. Mas como poupar quando se ganha salário-mínimo, ou mesmo dois ou três salários-mínimos? O cidadão vai deixar de comer para atender os apelos dos bancos e liberais por mais poupança. O que, a rigor, rende ninharias depositadas nas poupanças dos bancos? Nada. Só é positiva para os bancos.

O comentário de Daniel Sousa é, de certo modo, moralista. Talvez porque, como recebe um salário elevado, em comparação com os ganhos da maioria dos brasileiros, pode comprar mercadorias à vista e ainda sobrar algum troco para depositar na poupança.

Por fim, Daniel Sousa deveria verificar se o governo federal não estaria protegendo produtores rurais, industriais e construtores de edifícios endividados? Quais são suas dívidas no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal e no BNDES? Por que condenar — com uma moralidade pequeno-burguesa — tão-somente os “pequenos gastadores”?

O que será que Daniel Sousa pensa de uma frase clássica de Lênin (atribuída ao poeta e dramaturgo Bertolt Brecht): “O que é assaltar um banco perto de um banco”?