[Texto publicado na edição de 30 de novembro a 6 de dezembro de 2003 do Jornal Opção]

Três capitalistas: Lourival Louza Júnior, Walterci de Melo e Paulo Panarello. Três perfis diferenciados. Três empresários absolutamente pragmáticos e arrojados, que sabem que a ideologia deles é a de todos os capitalistas. Falta-lhes tão-somente o estofo intelectual — a formulação — de Roberto Simonsen e Antônio Ermírio de Moraes 

Num livro clássico, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, o sociólogo alemão Max Weber delegou à superestrutura, a moral do protestantismo — aberta ao lucro, ao trabalho e à poupança —, uma influência decisiva na aceitação, expansão e hegemonia do modo de produção capitalista.

Max Weber, ao contrário dos marxistas ortodoxos, nem apela a um velho pilar acadêmico — “em última instância”.

Na obra “Os Judeus, O Dinheiro e o Mundo”, o economista franco-argelino Jacques Attali, a quem falta o brilhantismo teórico de Max Weber, apresenta outra versão.

Se fosse dado a Jacques Attali o direito de reescrever o tratado do alemão, o título seria outro — “A Ética Judaica e o Espírito do Capitalismo”. Os patrocinadores do capitalismo foram os judeus. Os judeus financiaram, para citar dois exemplos, a descoberta da América por Cristóvão Colombo e a derrocada de Napoleão Bonaparte. Disputas teóricas e históricas à parte, ressalte-se que Jacques Attali é judeu.

Flamboyant Shopping Center | Foto: Divulgação

Capitalismo e tradição

Nos casos de países com tradição de pesquisa e interpretação sólida, com amplos estudos de caso, é mais fácil entender a complexidade da ideologia — ou, digamos, espírito — do capitalismo. É o que ocorre na Alemanha de Max Weber e na França de Jacques Attali.

No Brasil, pode-se citar como ideólogo-partidário do capitalismo o paulista Roberto Simonsen (1889-1948), frequentemente confundido com o economista Mario Henrique Simonsen. É mais oportuno chamá-lo de ideólogo da indústria.

No campo teórico — Roberto Simonsen, filho de inglês, era mais historiador e apologista —, há grandes analistas do capitalismo, como o economista Celso Furtado, João Manuel Cardoso de Mello, Luiz Gonzaga Belluzo e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, este formulador, com Enzo Faletto, da Teoria da Dependência.

Fernando Henrique Cardoso chegou a estudar a história de alguns capitalistas brasileiros, mas não chegou a aprofundar seus estudos. Raros são os casos de capitalistas-ideólogos, ao menos no Brasil.

Antônio Ermírio de Moraes é um empresário articulado, um dos maiores capitalistas brasileiros — senão o principal —, que soube combinar o investimento na indústria, com a Votorantim, com o sistema financeiro (ele é dono de banco, como Silvio Santos, este, proprietário do Banco Panamericano, uma financeira). Não é, porém, um ideólogo. Sabe como investir, avança e recua, de acordo os planos econômicos — e ainda não abriu o capital de sua empresa —, mas não criou uma teoria sobre o sucesso de seus negócios.

Nas entrevistas, Antônio Ermírio de Moraes atribui os acertos mais à capacidade de trabalho dele e de sua família, à coragem de investir no Brasil, do que a qualquer outro sistema. Nada diz, por exemplo, sobre o processo de acumulação, digamos, primitiva de suas empresas. O pai de Antônio Ermírio de Moraes, José Ermírio, era usineiro e político, em Pernambuco. Seu avô, Ermírio Barroso de Morais, era senhor de engenho.

Alphaville em Goiânia 1
Alphaville em Goiânia: um negócio de Louza e da Fal | Foto: Divulgação

Então, citando-se o caso de Antônio Ermírio de Moraes — que escreve peças de teatro —, pode-se dizer que não há capitalista sem ideologia, mas há capitalista sem uma teoria sobre o seu empreendimento.

A ideologia do capitalista, mesmo quando não adepto de teorias, é a ideologia geral do capitalismo. Ele talvez não saiba, ou não se interesse por isso, mas suas ações, aparentemente estribadas no mais puro pragmatismo, são permeadas tanto pela história quanto pelos instrumentos básicos do capitalismo.

Lourival Louza Júnior

Empresários como Lourival Louza Júnior, dirigente do shopping Flamboyant, Paulo Panarello, presidente da Distribuidora de Remédios Panarello, e Walterci de Melo, proprietário do laboratório de medicamentos Teuto, são capitalistas que atuam no Estado de Goiás, mas, pragmáticos ao extremo, não se interessam por Adam Smith, Mises e Hayek e Karl Marx.

Nunca leram o “Capital”, de Marx, mas sabem, ao contrário de Marx (que raramente tinha dinheiro e estava sempre dependendo de Engels, este, filho de capitalista), investir e, portanto, lucrar.

Sabem, na prática, o que é reprodução do capital, o que é mais valia absoluta e relativa. Perguntados sobre o assunto, atrapalham-se; mas, para ganhar dinheiro, para reproduzir o capital em suas empresas, num mercado arriscado e complicado como o brasileiro, não se atrapalham.

Paulo Panarello e Walterci de Melo pertencem à categoria dos self-made men, isto é, empresários que construíram suas próprias trajetórias — sem o apoio de famílias. Começaram quase do zero e chegaram ao topo. Sabem como é difícil “formar” capital, sobretudo têm percepção de como o capital financeiro “escraviza” o capital puramente industrial, se ainda é possível dizer assim.

Mais perdulário, Walterci de Melo dependeu, em larga medida, do capital bancário para ampliar seus investimentos em Anápolis. Além dos incentivos fiscais do governo estadual. Trata-se, pois, de um capitalista que, aqui e ali, ainda vive às expensas do Estado — o que não é o caso de Paulo Panarello e de Lourival Louza. Este não começou do zero, pois, como Antônio Ermírio de Morais, teve o apoio do pai, também Lourival Louza, para lançar, em 1981, o shopping Flamboyant, a ponta de lança de outros investimentos.

Lourival Louza Júnior: o empresário que construiu o Flamboyant em 1981 | Foto: Divulgação

Negócios conectados

No início de novembro, Lourival Louza inaugurou a ampliação do Flamboyant e a mídia noticiou com destaque, mas sem analisar o fato. Como o jornalismo diário é, em geral, exclusivamente fatual, nenhum texto publicado nos jornais “O Popular” e “Diário da Manhã” percebeu que, ali, Lourival Louza, atentíssimo — a simplicidade dos modos e do vestir escondem um capitalista arrojado —, ampliava um empreendimento capitalista que, por ser capitalista, deu à luz ou atraiu novos investimentos.

O supermercado Carrefour (francês) e a Tend Tudo² (norte-americano) — espécie de hipermercado de material para construção — acoplaram-se ao Flamboyant porque este é um empreendimento bem-sucedido. É uma cidade dentro de uma cidade, Goiânia.

Capitalista paciente

A maioria dos capitalistas é impaciente —, Lourival Louza soube arriscar e esperar o seu investimento proporcionar retorno.

Depois de puxar (não sozinho, claro) o desenvolvimento da cidade para a região Sul, atraindo construções e outros empreendimentos — sem matar os pequenos negócios, ao contrário do que se acreditava (o capitalismo só destrói modos de produção competitivos; pequenas células pré-capitalistas são “toleradas” e “incorporadas” ao processo de reprodução do capital) —, Lourival Louza³ fez duas ampliações do shopping (a parte mais visível de seus investimentos). Mas não só.

Unindo-se a outros grupos empresariais, Lourival Louza construiu o hotel Comfort e um edifício de escritórios, ao lado do Flamboyant. O objetivo é, claro, alavancar o shopping, criar estrutura. Tanto que, numa área em frente ao Flamboyant, são organizados vários eventos, como jogos de vôlei de praia, e muitos de seus participantes se hospedam no hotel. São negócios conectados.

Há outra questão que a mídia também não explora. A cidade naturalmente não cresce apenas em direção aos negócios de Lourival Louza — tanto que, depois do “fracasso” do Shopping Bougainville, o segundo shopping em volume de venda é o Goiânia Shopping, que fica numa área privilegiada, em frente ao Parque Vaca Brava, o mais frequentado da capital, entre os setores Bueno, Nova Suíça e Jardim América, que, somados a mais dois ou três bairros próximos, como Oeste, Marista e Bela Vista, perfazem, no mínimo, 60 por cento do PIB dos grandes consumidores de Goiânia.

O Goiânia Shopping não está inteiramente consolidado4, mas tende a se consolidar, especialmente em virtude de sua localização privilegiada, da presença intensa de jovens da classe média — futuros consumidores. Então, do ponto de vista estrito da competição, o Goiânia Shopping seria a ameaça mais séria ao principal negócio de Lourival Louza — o Flamboyant. Seria é o termo certo.

Mesmo que não exista uma teoria, uma formulação ideológica com elaboração refinada, Lourival Louza não ficou parado. Trabalhou rápido e aliou-se ao grupo que fez o condomínio fechado Alphaville, em São Paulo.

Depois da construção dos condomínios horizontais Aldeia do Vale, Jardins, Granville e Portal do Sol — para onde parte das classes alta e média migrou —, alguns empresários disseram a Lourival Louza que era loucura realizar um grande investimento como o Alphaville. Não haveria tanta riqueza assim em Goiânia para tantos condomínios.

Com seu olho clínico, Lourival Louza não se importou, pois sabia que a riqueza em Goiânia (e de Goiás) é maior do que aparenta. Valor de reserva, as terras da família — que, a qualquer momento, poderiam ser invadidas ou então desapropriadas por algum governante mais populista (o espaço daria excelentes conjuntos populares, o que reduziria o poder de consumo dos frequentadores do Flamboyant e de outros negócios de Louza e associados) —, a rigor, não davam lucro.

Então, Lourival Louza associou-se ao Alphaville e fez o condomínio fechado. Resultado: os lotes da primeira etapa foram vendidos rapidamente (pode ser que haja alguma especulação, mas não é total, pois muitas casas já estão sendo construídas).

Como na região já existem outros condomínios, como o Portal do Sol, Housing Flamboyant e Privê dos Girassóis — além de, brevemente, o Clube de Golfe de Goiânia, que também terá residências, além de chácaras também em sistema de condomínio —, os negócios, em termos de consumo mesmo, de Lourival Louza e seus associados (os lojistas e outros) tendem a crescer em progressão geométrica.

No mínimo 20 mil pessoas, com alto e médio poder aquisitivo, foram ou serão deslocadas para as imediações do Flamboyant. Trata-se de uma jogada, digamos, de grande oportunismo (no melhor sentido do termo) capitalista. Há uma teoria-ideologia para tal? Não. Nem precisa.

Entre os próximos negócios de Lourival Louza estão a construção de um centro de convenções e mais um hotel, além de nova expansão do Flamboyant. Mais: dentro de dois anos, Goiânia ganha o Centro Cultural Oscar Niemeyer5 — a 200 metros do Flamboyant, numa área cedida por Lourival Louza.

Definitivamente, Lourival Louza é um grande capitalista, cuja ideologia, se perguntarem a ele, é o lucro. Além de gerar empregos e depender o mínimo possível do setor financeiro e do Estado.

Notas atualizadoras

¹ Paulo Panarello e Walterci de Melo já faleceram. Assim como Antônio Ermírio de Morais.

² A loja Tend Tudo fechou as portas.

³ Os negócios dos Louza hoje, 2025, são operados pelas filhas de Lourival Louza Júnior.

4 O Goiânia Shopping, em 2025, está inteiramente consolidado.

5 O Centro Cultural Oscar Niemeyer está em pleno funcionamento.