Leonencio Nossa publica biografia de Guimarães Rosa em março pela Nova Fronteira/Topbooks
17 janeiro 2026 às 21h00

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João Guimarães Rosa (1908-1967 — viveu 59 anos) é um dos quatros maiores escritores brasileiros — ao lado de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector.
Apesar de ter escrito obras-primas, como “Sagarana”, contos, e “Grande Sertão: Veredas”, romance, Guimarães Rosa não ganhou biografias alentadas e mesmo não alentadas.
O tio Vicente Guimarães escreveu o belo “Joãozito”, sobre a infância de Guimarães Rosa. O goiano Alaor Barbosa arriscou-se a escrever uma biografia de Guimarães Rosa e foi criticado duramente por Vilma Guimarães Rosa, filha do escritor. Alaor Barbosa a processou e recebeu indenização.

“Sinfonia Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa” (LGE Editora, tomo 1, 388 páginas), de Alaor Barbosa, era para ter mais um volume. Porém, com o conflito judicial com uma das filhas de Guimarães Rosa, o escritor, crítico e pesquisador parece ter desistido de publicá-lo.
O professor da UnB Gustavo Castro lançará uma biografia, pela Editora Companhia das Letras, em maio (junto com a edição comemorativa de “Grande Sertão: Veredas”). Ele pesquisa a vida e a obra do escritor há vários anos. Já escreveu uma biografia — original — da poeta Orides Fontela.
Em março, de acordo com Walter Porto, repórter da “Folha de S. Paulo”, o experimentado Leonencio Nossa vai publicar, por um consórcio entre as editoras Nova Fronteira e Topbooks, uma biografia de Guimarães Rosa. Terá 736 páginas.

Leonencio Nossa disse à “Folha” que teve de cortar muito e, mesmo assim, a biografia será um cartapácio.
A pesquisa de Leonencio Nossa começou em 2006, há quase 20 anos. Ele obteve material inédito. Segundo Porto, a obra será, na avaliação do jornalista-pesquisador (autor da melhor biografia de Roberto Marinho), “a maior referência documental sobre a vida do escritor no mesmo ano em que sua obra-prima, ‘Grande Sertão: Veredas’, completa 70 anos”.
Leonencio Nossa disse a Porto que “a biografia moderna é um trabalho muito jornalístico, e o jornalismo não entrou na obra do Rosa tanto quanto a academia”.

Do ponto de vista acadêmico (e não só), a obra, mais do que a vida, ganhou livros de interpretação formidáveis de Antonio Candido, Benedito Nunes, Francis Utéza, Heitor Martins, J. H. Dacanal, Kathrin Holzermayr Rosenfield, João Adolfo Hansen, Leonardo Arroyo, Luiz Roncari, M. Cavalcanti Proença, Mary L. Daniel, Nilce Sant’Anna Martins (autora do seminal “O Léxico de Guimarães Rosa”), Paulo Rónai, Silviano Santiago, Tania Rivera, Walnice Nogueira Galvão e Willi Bolle.
“Para fazer todo o livro, um escritor monta uma biblioteca. No caso dele, o desafio não era esse, porque sua obra é muito pesquisada, mas reunir um acervo documental com manuscritos, cartas, contatos”, assinala Leonencio Nossa.
A “Folha” informa que Leonencio Nossa obteve “acesso a depoimentos inéditos e acervos privados, de familiares e colecionadores, para reconstruir tanto a vida particular do mineiro quanto sua carreira como escritor e diplomata”

Leonencio Nossa pesquisou mais de 2 mil cartas escritas por Guimarães Rosa. Ele diz que a pesquisa no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo foi importante para a confecção de seu livro.
Há livros muito bons sobre as cartas do autor de “Miguilim”: “João Guimarães Rosa — Correspondência Com Seu Tradutor Italiano” (Nova Fronteira/UFMG), de Edoardo Bizzarri, e “João Guimarães Rosa — Correspondência Com Seu Tradutor Alemão” (Nova Fronteira/UFMG), de Curt Meyer-Clason.
Para Leonencio Nossa, Guimarães Rosa é o escritor “que define os rumos que a literatura brasileira vai tomar. Enquanto muitos envelheceram, a atualidade dele é incrível”. Portanto, o mineiro de Cordisburgo vive — e como! A biografia é uma celebração de sua vitalidade literária.

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Amigo goiano de Guimarães Rosa era de Morrinhos
Alaor Barbosa (página 132) relata, citando Ismael de Faria, “que a frase ‘as pessoas não morrem, ficam encantadas’, que Guimarães Rosa proferiu ao encerrar o seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 16 de novembro de 1967, foi pronunciada por ele 37 anos (Ismael errou na conta: foram 41) antes, no velório de um colega de faculdade, Oséas Antônio da Costa Filho, morto de febre-amarela em 1926”.
“Oséas Antônio da Costa Filho era meu conterrâneo, de Morrinhos. Uma das irmãs dele, Maria Amélia Costa, foi minha professora no Exame de Admissão.) (…) Primeiro ele se reporta ao registro dessa morte feito por Pedro Nava em suas memórias — no livro ‘Beira-Mar’”, conta Alaor Barbosa.

No velório de Óseas Antônio da Costa Filho, registra Ismael de Faria, “João Rosa, extremamente comovido, exclama quase um angustiado murmúrio: ‘As pessoas não morrem… Ficam encantadas”.
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Romance de ficção científica de Guimarães Rosa
Alaor Barbosa relata, na página 56: “Um dia Guimarães Rosa se declarou impressionado com a falta de misticismo dos goianos: ‘Vocês goianos são diferentes de nós mineiros nesse ponto. Já notei isso. Outro dia eu tive uma longa conversa com o Isócrates de Oliveira. Uma conversa de caráter quase psicanalítico. E observei como vocês goianos não são místicos”.

“Isócrates de Oliveira era goiano de Pirenópolis. Tornara-se diplomata, em 1954, depois de abandonar a batina de padre da Igreja Católica”, diz Alaor Barbosa.
Sobre sua técnica literária, Guimarães Rosa disse a Alaor Barbosa (página 57): “Vou te contar um segredo que nunca revelei a ninguém. Quando estou escrevendo, paro, às vezes, e me ponho a anotar, a lápis, com a ponta bem fina, todas as palavras que me vêm à cabeça. Num papel à parte. Vou escrevendo as palavras, numa associação livre de ideias. Os resultados são ótimos. Quando volto a escrever, já tenho muita coisa na tona da consciência”.

Guimarães Rosa disse a Alaor Barbosa: “Tenho dificuldade para escrever. Custo a começar. Enquanto eu não ocupo o papel, é tudo difícil. Depois que eu ocupo o papel em branco, aí então começo a melhorar o que escrevi”.
Alaor Barbosa conta que Guimarães Rosa planejava escrever um romance de ficção científica.
O relato do mineiro para o goiano (página 59): “A água começou a secar progressivamente no planeta. Foi secando até que só numa determinada cidade existia água. Imagine isso. A descrição do fenômeno. A preocupação, no começo. Depois o desespero das populações obrigadas a emigrar à procura de água. Os problemas da concentração humana em um só lugar. Só lá havia água, e diminuindo… O racionamento. Calcularam: haverá água para tantos dias. Os problemas de habitação, alimentação, organização. Tanta gente, de repente. E pouco a pouco a água acabando…”.
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