Jornalista pode e deve usar inteligência artificial na redação, formulação e correção de textos
14 fevereiro 2026 às 21h00

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A ombudsman da “Folha de S. Paulo”, Alexandra Moraes, apontou que a colunista do jornal Natalia Beauty (Natália Martins), de 41 anos, usa inteligência artificial para estruturar seus textos.
A influenciadora e empresária Natalia Beuaty admite que se utiliza de IA, mas as ideias dos artigos são suas. Ela está errada ou certa? Não há problema ético nenhum na questão. Portanto, está correta. Mas deveria avisar o leitor do uso de inteligência artificial. Eu alertaria.
O jornalista e escritor Paulo Markun, de 73 anos, escreveu, na “Folha”, um artigo ponderado a respeito do assunto, com o título de “A escrita entre algoritmos e fantasmas”. (Ele é autor do importante livro “Meu Querido Vlado — A História de Vladimir Herzog e do Sonho de uma Geração”.)

“A recente tempestade em copo d’água nesta ‘Folha’ — com leitores em polvorosa e a ombudsman auditando os ‘sentimentos’ da colunista Natalia Beauty — revela uma curiosa nostalgia pelo esforço manual. Natalia admitiu o óbvio: usa inteligência artificial para estruturar o que pensa”.
(Curiosamente, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diz que a retomada dos trabalhos manuais pode se configurar um modo de resistir à “sociedade do cansaço” e à “digitalização excessiva da vida”. O trabalho manual, sugere o pensador radicado na Alemanha, pode gestar felicidade e maior conexão com a realidade. O ambiente virtual, ao menos em certa medida, afasta o indivíduo da realidade, do vívido.)
“O que existe nos artigos de Natalia — ou nos meus — não é a inteligência artificial substituindo a consciência humana. É a evolução do ofício. Onde antes havia um jornalista e seu teclado mecânico, hoje há um código binário. A adoção de recursos que sistematizam e facilitam o fluxo criativo não é um atalho ético; e, antes de tudo, uma libertação do intelecto para o que realmente importa: a ideia”, assinala, com razão, Paulo Markun.

O jornalista frisa que, ao escrever e publicar um texto — seja uma reportagem ou um artigo —, “quem coloca a assinatura e o pescoço a prêmio diante do leitor continua sendo o autor. Se o auxílio de terceiros era aceitável para salvar o tempo de um senador em 1979 [Paulo Markun foi ghost-writer de Orestes Quércia], por que o suporte digital é pecado em 2026?”
Mas e quando o jornalista começa a deixar de pensar, ao se fiar exclusivamente na inteligência artificial, o que pode acontecer? É uma questão a discutir. “Trocar” o próprio cérebro pela IA pode não ser positivo.
Entretanto, o uso de inteligência artificial é incontornável. E, se for para melhorar a qualidade do texto, em termos de redação, formulação e revisão, nenhum diretor de redação deve se posicionar contra.
Fica o registro de que o “New York Times” processou a OpenAI, porque sua inteligência artificial, longe de pesquisar em vários arquivos — para produzir, digamos, uma síntese —, estava vasculhando a produção do jornal. A OpenAI perdeu a ação.
De repente, se não tiver cuidado, a produção de textos, com uso de IA, pode se configurar como plágio.

