O jornal argentino “La Nacion” publicou uma reportagem interessantíssima, “Shakespeare? Hemingway? Fitzgerald? IA escolhe melhor escritor da história, e resposta surpreende”. “O Globo” transcreveu o texto na íntegra.

O título não inclui Cervantes, Laurence Sterne, Flaubert, Proust, Virginia Woolf, James Joyce, Thomas Mann, Robert Musil, Beckett, William Faulkner, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges, Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

Mas a inteligência artificial não escolheu nenhum deles. Se fosse vivo, o crítico literário Harold Bloom —autor de canônes de qualidade mas excludentes (cânones são, necessariamente, excludentes) — certamente criticaria a escolha da IA.

John Cheever capa de 28 contos

Eis a resposta da IA: “John Cheever é a escolha que eu faria ao pensar no maior escritor da história. É uma aposta em uma grandeza narrativa menos ruidosa, profundamente sólida”.

Trata-se de uma resposta consistente? Na verdade, é vaga, abstrata, digamos. O que seria uma “narrativa menos ruidosa”? Não se fica sabendo, mas, se a escolha fosse por aí, mais adequado seria escolher a prosa de contenção — e silêncios — de Samuel Beckett, autor de “Esperando Godot”.

O que é uma prosa “profundamente sólida”? Não se sabe. Eu, pelo menos, não sei. Admito minha falta de sapiência.

John Cheever (1912-1982) é um escritor do segundo time? Talvez não. Tanto que há quem o chame de “o Tchékhov americano do norte”. De fato, alcança a excelência nos contos, e menos nos romances, que parecem contos espichados.

Há uma excelente coletânea dos contos de John Cheever em português: “28 Contos” (Companhia das Letras, 359 páginas), com seleção e prefácio de Mario Sergio Conti e excelente tradução de Jorio Dauster e Daniel Galera. O leitor poderá verificar, por si, a qualidade — real — da prosa do escritor. 

John Cheever capa de A crônica dos Wapshot

John Cheever seria um Shakespeare da classe média? Talvez sim. Mas maior do que Shakespeare, Flaubert, Tolstói, Proust, Mann e Joyce? Aí, mãe de Deus, não!

“La Nacion” colhe um elogio e tanto do jornalista argentino Rodrigo Fresan: “Em Cheever, convergem o melhor de Fitzgerald, Hemingway, Faulkner e Salinger. E ele supera a todos em seu uso da epifania”.

Rodrigo Fresan tem razão? Talvez até tenha. Mas não faz aquilo que é essencial: não apresenta as provas de que Cheever supera os quatro citados “em seu uso da epifania”.

A IA acrescenta: “Um dos principais motivos [de Cheever ser o “melhor”] é sua capacidade de transformar o cotidiano em algo perturbador”.

A frase mostra que a inteligência artificial está atenta. Há algo de verdadeiro aí. Entretanto, eu diria de modo diferente: o americano do norte —  alcoólatra e bissexual (casado com mulher, viviam às turras) — transforma o cotidiano em uma cousa mais luminosa, “esclarecida” pela prosa, do que perturbadora.

John Cheever capa de Bullet Park 1

A IA enfatiza que Cheever “mostrou como o ‘sonho americano’ pode ser frágil e contraditório, e o fez sem sensacionalismo, com uma sutileza que acaba sendo mais impactante do que qualquer drama exagerado”. É por aí mesmo.

Mas não é apenas o “sonho americano” que é frágil. O que dizer da Alemanha, o país-força que gestou Adolf Hilter, o nazista que levou o mundo a uma guerra brutal? Antes, o que falar da Inglaterra com suas atrocidades colonialistas?

Quem quiser conhecer o escritor precisa ler “Cheever: Uma Vida” (Duomo Perímetro, 885 páginas, tradução de Ramón de Espanã), de Blake Bailey, e, claro, sua obra (relativamente bem-editada no Brasil).

O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma biografia sensacional. John Cheever é exposto, com virtudes e defeitos, em toda sua inteireza. Sem contemplação. Sai menor ou maior? A grandeza permanece e a importância de sua literatura é firmada.

Mas maior de todos os tempos, cá entre nós, John Cheever não é mesmo. A IA equivocou-se. Talvez tenha pesquisado apenas em autores nascidos em 1912. Risos. Sim, risos. Muitos risos. Gargalhadas.