Os empresários do agronegócio vivem uma contradição. Os comunistas da China são seus melhores clientes. Como precisam deles, não discutem ideologias, e sim negócios. O capitalismo brasileiro sobrevive, em certa medida, graças ao oxigênio da terra do presidente Xi Jinping.

Mesmo precisando existencialmente da China, os produtores rurais — na verdade, grandes empresários — são, em geral, de direita, o que, a rigor, não é nenhum demérito. Mas o paradoxo é este: capitalistas sobrevivendo graças aos dólares de comunistas.

Politicamente, a China é comunista. Porém, mesmo com uma economia dirigida, o país mescla socialismo e capitalismo. A nação asiática adota práticas terrivelmente capitalistas. Karl Marx se assustaria com a extração da mais valia absoluta num país de esquerda.

O sistema, híbrido, funciona. Tanto que a China, que está se aproximando dos Estados Unidos, já é a segunda maior economia mundial. A ressalva é que, em termos de desenvolvimento, fica bem atrás de outras nações, como as europeias e, na Ásia, o Japão e a Coreia do Sul.

O repórter Marcelo Ninio, de “O Globo”, ouviu o historiador britânico Adam Tooze. O professor da Universidade Columbia, nos Estados Unido,s fala num mundo “policrise”. Quer dizer, vive-se uma multiplicidade de problemas que, de uma hora para a outra, se tornam globais.

A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã está potencializando crises, de matizes parecidos, em todo o mundo. Uma de suas consequências é o aumento no preço do petróleo — que está produzindo inflação em várias nações, inclusive no país governado pelo bélico Donald Trump.

Adam Tooze, de acordo com Marcelo Ninio, “é um entusiasta do modelo de desenvolvimento chinês, focado em inovação tecnológica e transição energética”. Por meio dos veículos elétricos, a China está reconfigurando a si e também o mundo. Parte da frota de vários países, como o Brasil, depende cada vez menos de petróleo.

54516811563_6da67d8258_k
Lula da Silva e Xi Jinping: aliança econômica e estratégica | Foto: Presidência da República

Brasil tem relação equilibrada com a China

Marcelo Ninio diz, aparentemente ecoando Adam Tooze, que “a parceria com a China representa oportunidades valiosas. A questão é como escapar da dependência excessiva”. O agro brasileiro hoje depende muito da China.

Por isso há quem postule que há risco de uma relação neocolonialista, uma vez que “as exportações do Brasil para a China” são “dominadas por matérias-primas”. Por outro lado, o país dirigido por Lula da Silva compra produtos manufaturados.

Porém, Adam Tooze pensa diferente. “A economia brasileira é grande demais para ser colônia de outro país.”

Segundo o historiador, “estudos indicam que, em termos comparativos, o Brasil é um dos países que melhor conseguem uma relação razoavelmente equilibrada com a China, emplacando superávit comercial e atração de investimentos”. (Os textos entre aspas são de Marcelo Ninio mas reproduzem as ideias do pesquisador.)

Há quem critique o Brasil por sua especialização na produção de commodities. Mas Adam Tooze não percebe aí nenhum problema de maior gravidade.

“O fato de ser um produtor de commodities ‘poderoso’ coloca o Brasil numa posição macroeconômica confortável, situação que a maioria dos países desconhece. Existe uma expectativa de que o Brasil é capaz de navegar entre os grandes blocos políticos sem se subordinar. ‘Nos círculos progressistas dos Estados Unidos há muita atenção voltada para o Brasil’.”

Adam Tooze enfatiza que “a China quer o G2 [Estados Unidos e China]. Ou seja, um novo modelo de relações entre grandes potências com os EUA. Mas talvez agora os chineses fiquem mais receosos, porque ninguém quer ficar numa sala com um governo que perdeu a cabeça”. O historiador está criticando a gestão do presidente Donald Trump.