“Esperando Godot” (Companhia das Letras, 192 páginas, tradução de Fábio de Souza Andrade), obra-prima de Samuel Beckett, é uma das peças mais importantes da história do teatro. Mesmo quem não leu ou viu o drama sabe quem é Godot. O escritor, dramaturgo e poeta irlandês talvez seja menos conhecido, apesar do Nobel de Literatura (1969). Jornais e revistas chegam a usá-lo para títulos de reportagens e artigos.

Beckett tinha apreço por coisas e pessoas, digamos assim, “estranhas”. O distinto — o infamiliar (das Unheimliche) do qual falava Freud — chamava-lhe atenção. Por isso, ficou mesmerizado ao saber que um prisioneiro alemão — verdadeiro mala sem alça — havia traduzido, do francês, e encenado “Esperando Godot” numa penitenciária da Alemanha.

A excelente biografia “Samuel Beckett — El Último Modernista” (La Uña Rota, 652 páginas, tradução de Miguel Martínez-Lage), de Anthony Cronin, menciona, nas páginas 455 e 456, a história da adaptação mas não cita o nome de seu autor.

A igualmente ótima e exaustiva “Falhar Melhor — A Vida de Samuel Beckett” (Empilhadora, 830 páginas, tradução de Fernando Villas-Boas), de James Knowlson, cita o tradutor e “diretor” de teatro alemão nas páginas 468 e 469. “Espero ir à Renânia, mais precisamente à penitenciária de Lüttringhausen, para ver a última apresentação desta porra desta peça, feita por e para os presos, se lhes for possível obter autorização para montá-la novamente”, disse numa carta a Con Leventhal.

“Seria uma boa ideia, eu gostava de fazê-la. Escrever uma peça só para ele [Lembke], e oferecer-lha. E dizer: aqui tem, não precisa de se preocupar com os direitos”, disse Beckett. (O Jornal Opção mantém o texto original da tradução de Fernando Villas-Boas. Soa estranho para nós, brasileiros, a frase “eu gostava de fazê-la”.]

“Samuel Beckett — A Biography” (Simon & Schuster, 760 páginas), escrita por Deirdre Bair, arrola o personagem.

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Esperando Godot, de Samuel Beckett, é uma das peças de teatro mais importantes da história | Foto: Jornal Opção

Intrigada e desafiada, a tradutora e escritora alemã Erika Tophoven decidiu investigar — isto mesmo: investigar — o personagem da realidade, que parece ficcional, que traduziu e adaptou “Esperando Godot” com atores presos na Alemanha.

O resultado do trabalho detetivesco de Erika Tophoven é o magnífico livro “Godot Entre Rejas — Historia de um Estafador” (Hurtado & Ortega, 173 páginas, tradução de Juan de Sola). Não há tradução no Brasil e em Portugal. O título pode ser vertido, literalmente, assim: “Godot Entre Grades — História de um Vigarista”. Ela retira o marginal alemão do rodapé da história.

Evangélico patrocinou adaptação de peça

Em 1956, Beckett escreveu a peça radiofônica “All That” para a BBC de Londres e Elmar Tophoven, convidado a traduzi-la do inglês para o alemão, ao esbarrar com as primeiras dificuldades, repassou o trabalho para Erika Tophoven, sua mulher.

Então, Elmar Tophoven falou de Karl Franz Lembke para Erika Tophoven. Explicou que era “o homem que traduziu ‘Godot’ no xilindró”.

Ao traduzir a peça, a partir do francês, Lembke estava na penitenciária de Lüttringhausen, na Alemanha. Elmar Tophoven acrescentou que a vida do “tradutor” era um “mistério”.

Samuel Beckett
Samuel Beckett: prosador, dramaturgo e poeta irlandês | Foto: Reprodução

Ao mostrar duas cartas de Lembke para Beckett, Elmar Tophoven aguçou a curiosidade de Erika Tophoven. “Da prisão, na Renânia, o prisioneiro alemão enviou uma carta, num francês fluente, de duas páginas para Beckett, que morava em Paris.”

Em vez de assinar o nome, Lembke escreveu “um prisioneiro”. “Uma história realmente fascinante”, assinala Erika Tophoven.

Na carta para Beckett, Lembke conta que foi difícil conseguir “o pequeno volume da primeira edição” de “Esperando Godot”. Leu. Releu. “Até que deixei de ser prisioneiro da administração penitenciária e me tornei preso de sua obra, mais ainda: de Godot”, escreveu.

Em seguida, com atores presos, adaptou e dirigiu a peça. Nenhum deles havia subido num palco. A estreia se deu em 29 de novembro de 1953. Quatrocentos detentos assistiram a complexa e moderna criação de Beckett.

“Seu Godot foi um triunfo, uma loucura. Seu Godot foi ‘nosso Godot’”, relatou Lembke. Até a diretoria do cárcere aplaudiu a iniciativa.

Erika Tophoven capa de Godot entre rejas

Lembke declarou a Beckett, numa das cartas, que, mais do que interpretar, “viveu” a peça “Esperando Godot”.

Ao investigar a história, Erika Tophoven descobriu que a peça pôde ser encenada graças a um pastor protestante, Ludwig Manker, e uma artista plástica húngara, Flora Klee-Paly (sobrevivente do campo de concentração de Theresienstadt).

O pastor Manker “autorizou a apresentação da peça na igreja da prisão”. Lembke interpretou Vladimir/Didi.

Beckett ficou impressionado com Lembke

As cartas de Lembke para Beckett podem ter sido levadas para Paris por Flora Klee-Palyi. As duas chegaram às mãos do escritor irlandês por meio de Jérôme Lindon, editor de Les Éditions de Minuit.

Beckett acusou o recebimento rápida e entusiasticamente. “São comoventes e as responderei o mais rápido possível”, escreveu para Jérôme Lindon.

Um rascunho da carta de Beckett para Lembke está no arquivo do Trinity College de Dublin. O prosador, dramaturgo e poeta (bardo de primeira) mostra-se emocionado. Afirma que, “em toda sua carreira como escritor, nunca lhe havia acontecido nada parecido”.

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Samuel Beckett, Erika Tophoven e Elmar Tophoven: o escritor e os tradutores | Foto: Reprodução

De cara, Beckett percebeu que a tradução e a adaptação de “Esperando Godot” numa prisão era um fenômeno, por assim dizer, beckettiano. Daí seu entusiasmo. Sua arte, de alguma maneira, havia se tornado “realidade”.

“Esperando Godot”, escrita (em francês) entre 1948 e 1949, foi publicada em 1952. O drama estreou em Paris em 1953 e, inicialmente, não agradou tanto o público. Possivelmente, os “cortes” modernos da peça, seus fragmentos aparentemente desconexos — na verdade, de uma lógica vital e visceral —, não foram compreendidos de imediato.

Elmar Tophoven, pelo contrário, entusiasmou-se e decidiu fazer, de imediato, a tradução para o alemão.

A peça foi adaptada na Alemanha, com título errado: “Esperamos a Godot” (“Wir Warten auf Godot”). Em francês o título é “En Attendant Godot”.

Lembke traduziu o título como “Se espera a Godot” (“Man Wartel auf Godot”).

Beckett disse, numa carta para o amigo A. J. Leventhal, que planejava ir à Renânia para assistir à adaptação feita por Lembke. Acabou não indo. Mas decidiu liberar os direitos autorais.

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Fotos policiais de Karl Franz Lembke do ano de 1948 | Foto: Acervo de Erika Tophoven

À editora Fischer, Beckett enviou uma carta solicitando a liberação da peça para a encenação de Lembke. O dramaturgo disse que tinha “muito interesse” no trabalho.

Ao inglês Patrick Bowles, tradutor do romance “Molloy”, Beckett comentou sobre a iminente libertação de Lembke.

O alemão planejava, havia informado a Beckett, apresentar “Esperando Godot” em pequenas cidades do país. Lembke relatou que havia fundado uma campanhia ambulante, a Spielschar der Landstraße.

Beckett estava tão entusiasmado com Lembke que solicitou Max Niedermayer, editor da Limes, que repassasse alguns de seus poemas (os mais “simples”, frisou) para o ex-detento traduzir para o alemão.

Niedermayer disse a Beckett que escolhesse, com Elmar Tophoven (o tradutor dos poemas mais complexos), quais poemas deveriam ser traduzidos por Lembke.

Em julho de 1956, num café de Wiesbaden, Top Tophoven e Lembke se encontraram e conversaram sobre as traduções dos poemas (por sinal, há uma ótima edição do poemário de Beckett em português: “Poesia Completa”, Editora Relicário, 296 páginas, tradução de Marcos Siscar e Gabriela Vescovi).

Com autorização de Beckett, “Se Espera Godot” (ou “À Espera de Godot”) foi apresentada, nas Jornadas da Igreja Evangélica, em Frankfurt, dez vezes. Sob direção de Lembke.

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Carta de Karl Franz Lembke a Samuel Beckett | Foto: Reprodução

Na revista “Der Rufer”, Johann Christoph Hampe começa a mostrar quem é, de fato, Lembke.

Ao comentar a encenação de “Esperando Godot” na Alemanha, Hampe diz que, na França, Lembke, passando-se por professor de Medicina, tentou enganar algumas pessoas. O que também fez na Alemanha. Por isso foi condenado a 16 anos de prisão. Ele ficou ao menos quatro anos na cadeia.

Depois das apresentações, Lembke escreveu mais uma carta para Beckett, num francês muito bom, em agosto de 1956. Assina a carta como K. Effel.

Na carta, Lembke avisa que irá a Paris, nem que seja para viver como mendigo, e agradece a Beckett: “Nunca esquecerei sua amizade e a ajuda que me tem prestado”.

Nos Campos Elísios, em Paris, Lembke encontrou-se com Elmar Tophoven e disse que queria se encontrar com Beckett urgentemente. O tradutor sugeriu que fosse ver Roger Blin, diretor de “Esperando Godot” e amigo íntimo do escritor.

Roger Blin acolheu Lembke em sua casa e avisou Beckett, que não quis se encontrar com o alemão.

De acordo com Erika Tophoven, Beckett “não temia por sua segurança, mas não se sentia em condições de apresentar-se ante o homem em pessoa”. O escritor pediu a Roger Blin que desse dinheiro a Lembke e lhe informasse que estava viajando.

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Carta do pastor Ludwig Manker para Samuel Beckett | Foto: Reprodução

A prisão do ás do estelionato

De repente, Lembke desapareceu do mapa, em Paris. Erika Tophoven continuou seguindo suas pistas, em 2012. Sempre intrigada: “Por que sabia tanto francês?”

Na sua caçada, esteve em Lüttringhausen. Mas, sessenta anos depois, nada restava sobre a apresentação de “Esperando Godot” pelos prisioneiros, que havia ocorrido em 1953.

No arquivo regional havia um registro: Lembke é apresentado como “camareiro, desempregado, sem domicílio fixo, nascido em 9 de março de 1903 em Wangerooge”. Foi preso em 17 de novembro de 1951, sob acusação de aplicar golpes. Era um vigarista. Um estelionatário.

Numa peregrinação pela Alemanha, Erika Tophoven descobriu que Lembke era filho de Annchen Frieda Emilie e Carl Christian Johann Lembke. O casal teve outros filhos, Ernst Fritz Johann Lembke e Elfriede Carla Auguste. Eram gente de bem.

Lembke, revela a pesquisa de Erika Tophoven, “era um estudante superdotado e concluiu o bacharelado aos 17 anos”, em 1920. A família morava em Eutin, “a cidade das rosas”.

Zelig alemão, homem de “mil” faces e nomes, Lembke começou a mudar suas identificações, para dificultar as investigações da polícia. Seu primeiro pseudônimo é Peter/Pierre Holstenkamp.

A respeito de Lembke, quando as informações são dele, é muito difícil saber o que é verdadeiro e o que é falso. Porque não era duplo nem triplo. Era múltiplos. Um vigarista de primeira linha, que enganou várias pessoas.

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Artigo publicado sobre a peça no “Theater und Zeit” | Foto: Reprodução

Ao juiz, Lembke disse que “foi expulso da Universidade de Kiel por motivos políticos, razão pela qual se pôs a serviço da Schwarze Reichswhr, forças paramilitares”. Relatou que “havia participado, em 1921, do combate à revolta polonesa na Alta Silésia”.

De subtenente, nas forças paramilitares, Lembke foi rebaixado a sargento. Por isso fugiu “e foi condenado a oito meses de prisão por deserção, deslealdade, falsificação de documentos, malversação e vigarice”.

As primeiras condenações de Lembke se deram entre 1924 e 1932. As penas foram de arresto e multas. O alemão era picareta dos maiores.

Casado em 1925, Lembke se separou em 1928. Dando continuidade à pesquisa, Erika Tophoven descobriu “n” mutretas do vigarista.

“Em Frankfurt, Colônia, Kiel e Essen, foi condenado, várias vezes, por falsificação de documentos, porte ilegal de armas, desfalque e roubo. Cumpriu parte das penas na prisão até 11 de abril de 1933, o resto do tempo passa em liberdade condicional, até 30 de junho de 1936”, relata a autora do livro.

“Parece” que Lembke “passou alguns meses no campo de concentração de Oraniemburgo e que foi libertado no Natal de 1933”, anota Erika Tophoven. Sob a ditadura nazista de Adolf Hitler, ele saiu da Alemanha.

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Centro penitenciário de Lüttringhausen, onde esteve preso o tradutor de Beckett | Foto: Reprodução

Os vários nomes e golpes de Lembke

Espécie de Félix Krull, para despistar investigadores da polícia, o vigarista abandona o nome de Lembke e passa a se chamar Peter, ou Pierre Holstenkamp.

Pouco mais tarde, adotou o nome de Pierre André Martin. Já não era mais alemão, e sim francês. Casou-se com a francesa Francine S. e teria servido como militar nas forças armadas da terra de Flaubert e Camus. Teria trabalhado como intérprete. Esteve na Inglaterra e, em seguida, voltou à França. Há outra versão: teria se colocado a serviço do governo de Vichy (pró-nazista).

Em janeiro de 1948, a polícia da Holanda prende Lembke, ou melhor, Pierre Martin. Procedia da Bélgica e tentava entrar na Alemanha pela fronteira holandesa.

Não portava documento de identidade. Ao investigar, a polícia holandesa descobriu que seu nome era Karl Franz Lembke. Ele fugiu em março de 1948 e retornou à Alemanha.

Em Dortmund engana Erna B, colaboradora da Cruz Vermelha. Depois de usufruir de sua companhia, vai para Heeren-Werve, onde iria procurar a família de um companheiro que havia sido preso em Nimes. A família H. recebe bem o “ginecologista” dr. Peter Holstenkamp.

A família H. deu-lhe um chapéu e 100 marcos. Dinheiro que jamais foi devolvido. Numa carta para a família, Karl H. informa que não conhece ninguém com o nome de Peter Holstenkamp. Por isso Wilhelm H., irmão de Karl, denuncia Lembke por furto.

Depois Karl H. admite que, sim, havia conhecido Lembke, na prisão, e disse que era “íntegro”. Por certo, na prisão, não havia o que roubar.

Lembke volta à casa de Erna B., que o recebeu de “braços abertos”. Estava apaixonada. Seu nome agora é Peter Lensky, professor e doutor em Filosofia pela Universidade de Greifswald.

Em 19 de agosto de 1948, escafedeu-se da casa de Erna B., depois de comer do bom e do melhor, e sem pagar aluguel. A mulher demorou algum tempo para perceber que havia sido enganada pelo golpista. Ele não apareceu para o casório no prazo marcado.

Numa estação de trem, Lembke estabeleceu relacionamento com o representante comercial Hans Br. Agora o nome de Lembke é Ansorge, um professor. O malandro engana Hans Br. e lhe toma dinheiro, que não paga, e, claro, desaparece.

Outro enganado por Lembke é o dr. Gerhard K., um veterinário, que foi lesado em 500 marcos. Mais uma vez, ele havia mudado de nome. Agora era o professor Niedermeier. Enganado, Friedrich P. registrou uma ocorrência policial.

Em novembro de 1948, Lembke apresenta-se numa escola de datilografia, em Altona, e consegue uma máquina emprestada. O estelionatário agora diz que é alto funcionário da Unesco em Genebra. P. acredita no malandro, que leva marcos e um livro ilustrado de Wilhelm Busch. P. nunca volta a ver o agradável sujeito que fala e engana bem.

Com vários pseudônimos, Lembke por onde passa toma, sem agressões, dinheiro de pessoas ingênuas e, algumas, até cultas. Em geral, não retirava muito dinheiro, mas, como as pessoas eram pobres ou de classe média, significava muito para elas.

Entre as vítimas de Lembke está o camareiro, Hans F. Mentindo, como sempre, retira dinheiro do homem. Mas, desconfiado, Hans F. o denunciou à polícia.

Lembke era salafrário e não maluco

Detido, em dezembro de 1948, em Karlsruhe, Pierre Martin informa à polícia que é cidadão francês. Lembke mentiu que havia nascido perto de Estrasburgo.

O esperto Lembke é acusado dos seguintes delitos: uso de documento de identidade falso, falsificação de documentação e tentativa de golpes. Sua prisão preventiva é decretada.

Chamado para examinar Lembke, o homem de múltiplas faces, o psiquiatra Zwilling, entendeu, de cara, que se tratava de um malandro refinado, e não de um maluco dotado de “várias” personalidades. “O suposto sr. Martin está perfeitamente orientado. Compreende bem as coisas e depressa. (…) O sr. Lembke conserva intactas as faculdades mentais, o discernimento. Tampouco há transtornos de memória.”

O dr. Zwilling percebeu que Lembke mentia deliberadamente de “maneira consciente”. “O sr. Martin é um farsante, responsável por seus atos e perfeitamente imputável.”

Interrogado na Justiça, negou, de maneira veemente, que seu nome era Lembke e insistiu que era Pierre Martin. Mas chegaram à polícia denúncias, de várias partes da Alemanha, contra Lembke, ou melhor, contra Peter Lensky, Peter Holstenkamp, Niedermeier e Pierre Martin.

Depois de seis meses preso, Lembke continuou insistindo que era Pierre Martin. A Justiça concluiu que o alemão é “um ator rematado e um farsante talentoso” e, por isso, é considerado culpado.

Erna B. ajuda a polícia a confirmar que, na verdade, Pierre Martin, Peter Lensky e Lembke são a mesma pessoa. Wilhelm H. confirma que o malasartes é Peter Holstenkamp, ou seja, Lembke.

O dr. K. assegura que o dr. Niedermeier é, na realidade, Lembke. O veterinário apresentou uma descrição do “estafador”: “Tem uns 45 anos de idade e cerca de 1,76m de altura, de compleição delgada, cara redonda, ovalada, alargada, tez de um moreno pálido, cabelos grisalhos e penteados para trás, sem barba. Falava um alemão impecável”. E era dotado de uma lábia extraordinária.

Uma acusação formal é formulada contra Lembke em 18 de março de 1949. Depois de haver negado que cometera vários crimes, admite que aplicava golpes nas pessoas. Mas insiste que seu nome não é Lembke.

Em 25 de agosto de 1949, a Justiça condenou Lembke “por delito continuado de golpe (vigarice), furto, abuso de documento de identidade e falsificação documental indireta a um ano e dois meses de prisão”. O estelionatário é levado para o centro penitenciário regional de Bruchsal.

Lembke deixa o presídio de Bruchsal em 22 de julho de 1950.

Lembke: um personagem beckettiano

Naquele ano, Lembke reapareceu em Frankfurt e começou a trabalhar na sorveteria W., da senhorita M. Falando com sobriedade sobre investimentos para expandir a empresa, com a aquisição de maquinário novo, ele engana a pequena empresária, arrancando-lhe 600 marcos. Com o dinheiro no bolso, desaparece.

Reapareceu como Peter Holstenkamp e arranja um documento da Cruz Vermelha, em Bonn. Dizendo-se ser procedente de um campo de prisioneiros, consegue documento e 10 marcos.

Morando em Munique, colocou um anúncio num jornal garantindo ser especialista em hotelaria. A restauradora F. decidiu contratá-lo como gerente de um cinema-restaurante.

F. paga os gastos da viagem de Lembke e o recebe em Murnau. Mentindo que perdeu a mulher e quatro filhos, ele comove F., que o contrata de imediato. A mulher empresta-lhe 300 marcos, depois mais 85 dólares. Em seguida, mais 700 marcos. O prejuízo de F. foi de 5 mil marcos.

Na estação central de Hamburgo, Lembke entabula conversações com a divorciada G., que o acolhe em sua casa, em Hamburgo. Holstenkamp, um homem fino e vivido, lhe propõe casamento. Ela entrega seu dinheiro ao golpista e acaba até por vender parte de seus móveis.

Como sempre, Lembke some depois de liquidar as finanças de G. A polícia de Hamburgo o detém em 15 de julho de 1951. Peter Martin pede para falar com o cônsul francês.

Impactado pelo “sofrimento” do “compatriota” — uma “vítima” da cruenta Segunda Guerra Mundial (1939-1945) —, o cônsul geral expede um passaporte para Lembke com o nome de Pierre André Martin. O alemão acaba se safando.

No Escritório de Proteção Jurídica do Ministério da Justiça da Alemanha, dizendo que havia sido prisioneiro num cativeiro russo, recebe 117 marcos. E desaparece de cena.

Em julho de 1951, apareceu numa unidade da Igreja Católica, em Mannheim, e repetiu a história de que havia escapado de um campo de prisioneiros na Rússia. O pároco V. comprou-lhe uma passagem de trem para Stuttgart e lhe repassou 2 marcos.

Pensando ter mais sorte, seguiu para a Innere Mission, dirigida pelo pastor L. Ganhou uma passagem de trem para Stuttgart, ou seja, 8,90 marcos.

Em Stuttgart, comparece ao Escritório de Proteção Jurídica da Obra Evangélica de Caridade. Ele conta ao Dr. A. uma história fantasiosa, e triste, e ganha 50 marcos e alojamento com café da manhã incluído.

A senhora A., cujo marido estava preso na Rússia, é outra vítima de Lembke. Ele pediu e ganhou roupas do homem que estava preso na terra de Stálin. Levou até relógio, máquina fotográfica e tapete.

O golpista agora tem outro nome — Pierre Dumartin. Pede ajuda à Cáritas, em Munique, e consegue 8 marcos, além de alojamento e alimentação.

O professor Dumartin conseguiu arrancar 50 marcos do professor R. Depois, ganha roupas e mais 25 marcos.

Em Dortmund, o talentoso Ripley da Alemanha chegou em 15 de novembro de 1951 como professor Bomartin. Ele enganou o sr. G. e obteve 25 marcos.

A polícia prendeu o professor Bomartin em 17 de novembro de 1951. Os dados são, porém, de Pierre André Martin, quer dizer, Lembke.

O Tribunal Regional de Essen condenou Lembke em 26 de junho de 1952. Pena: quatro anos de prisão no centro penitenciário de Lüttringhausen — onde o pelintra, tão inteligente quanto perceptivo, adaptou “Esperando Godot”.

Erika Tophoven diz que, em 1956, perdeu a pista de Lembke, que estava em Paris. Mas em princípios dos anos 1960 o sujeito reaparece na Costa Azul, torrando o dinheiro que Beckett havia lhe dado.

Na Côte d’Azur, Lembke levava uma vida modesta. “Em janeiro de 1962 foi condenado de novo a dois anos de cárcere por furto e estelionato, porém não conseguiram prendê-lo. Transcorridos cinco anos, prescreveu a pena.”

Não se sabe como e quando morreu o golpista Lembke. Pode ter sido em dezembro de 1978? Não se tem certeza. “O último mistério em torno de KFL segue sem ser resolvido”, pontua Erika Tophoven.

Fica-se a pensar: Beckett conseguiria criar um personagem tão absurdamente beckettiano quando Lembke? Talvez sim. Talvez não.