Euler de França Belém
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Geneton Moraes Neto entrevista espião que articulou assassinato de Trotski¹

Pavel Sudoplatov contou ao repórter brasileiro como Stálin autorizou pessoalmente o assassinato de seu rival, no México, em 1940

Geneton Moraes Neto, o stalinista Pavel Sudoplatov e a capa do livro Dossiê Moscou

Geneton Moraes Neto, o stalinista Pavel Sudoplatov e a capa do livro Dossiê Moscou

“Dossiê Moscou” (Geração Editorial, 234 páginas), de Geneton Moraes Neto, parece, à primeira vista, apenas mais um livro de reportagens. Não é. Trata-se, isto sim, de um excelente livro de história, de um pesquisador que é repórter, vazado num tom delicioso, nada acadêmico, mas fadado a contribuir com as pesquisas sobre a extinta União Soviética. Neste texto detenho-me não no núcleo do livro, mas numa história, digamos, periférica: Geneton Moraes Neto entrevistou o espião que articulou o assassinato de Trotski — o “stalinista renitente” Pavel Sudoplatov. A entrevista, por escrito, mesmo sem possibilidade de o jornalista retrucar e reposicionar uma questão, é de alta qualidade.

O primeiro contato de Geneton Moraes Neto foi com Anatoli Sudoplatov, filho de Pavel. “O filho do agente da KGB [prefiro do KGB — o “K” significa comitê] que armou o plano para matar o então dissidente Liev Trotski se irrita comigo porque insisto em perguntar se ele não ficava chocado ao saber do envolvimento do pai em assassinatos políticos. Não, não ficara. O filho do homem estranha meu espanto. Por que diabos ele ficaria chocado? Aquilo era uma guerra ideológica. Não havia lugar para sentimentalismos inocentes”, escreve Geneton Moraes Neto.

Sabe-se que o articulador principal da morte de Trotski foi Lavrenti Beria (o mesmo que deixou Stálin morrer como um porco, mas caiu em desgraça logo depois e foi executado), imediato do poderoso chefão Stálin. A fonte de Geneton Moraes Neto não é apenas a entrevista, muito curta, de Pavel Sudoplatov; ele cita a biografia de Trotski (inédita em português) escrita pelo historiador e general Dmitri Volkogonov (autor da biografia “Stálin — Triunfo e Tragédia”, publicada pela Nova Fronteira).

A informação relevante é que o dirigente do KGB “recebeu pessoalmente de Stálin a ordem para executar a Operação Trotski”. Isto mostra a importância de Pavel e que Stálin articulava os assassinatos em nível bem pessoal. Pavel foi levado a Stálin por Beria. “Se o fiel [Jaime Ramón] Mercader [del Rio Hernandez] foi a face visível de um dos mais famosos atentados políticos do século, Pavel Sudoplatov foi a mão invisível. O nome Sudoplatov ficou na sombra até a derrocada do regime comunista. Somente aí começou a ser citado em jornais de Moscou. O mistério começou a se desfazer quando o nome de Sudoplatov foi citado em dezenove páginas na biografia de Trotski escrita por Dmitri Volkogonov”, conta Geneton Moraes Neto.

Assessor direto de Lavrenti Pavlovich Beria, o chefe da política secreta da União Soviética, “Pavel Sudoplatov caiu em desgraça depois que Nikita Kruschev anunciou, no Congresso do Partido Comunista em 1956, os crimes stalinistas. Iniciou-se, então, um sangrento expurgo. Beria foi fuzilado. Pavel Sudoplatov amargou quinze anos na prisão. (…) A condenação de Pavel Sudoplatov nada teve a ver com o assassinato de Trotski. A pena de quinze anos lhe foi imposta como castigo por ‘traição’ ao Partido” (Comunista). O espião foi “reabilitado” em 1991. A informação de Geneton Moraes Neto é imprecisa: Beria foi fuzilado em 1953, portanto, antes da denúncia de Kruschev — o stalinista “arrependido”.

África no Brasil

Na conversa com Anatoli, Geneton Moraes Neto fica sabendo os detalhes do assassinato de Trotski. O plano foi batizado de “Operação Pato” (utka, em russo). “Pato era uma espécie de gíria usada para se referir à desinformação”, esclarece Geneton. “Tomei conhecimento do assassinato de Trotski” — que era apresentado pela mídia soviética como um dos principais, senão o principal, inimigos do socialismo — “como um ato heroico, pelo qual meu pai foi condecorado, assim como Mercader. (…) O assassinato de Trotski foi parte do processo de estabelecimento do grande papel da URSS no mundo. É o lado trágico da história da criação de uma superpotência. O ponto central era garantir o domínio de Stálin sobre o movimento comunista internacional — algo importante para o fortalecimento da URSS”, explica-se Anatoli. “Ramón Mercader era um grande amigo de minha família. Sempre nos encontrávamos — e sempre o via como um super-herói.” Pavel dizia ao filho Anatoli: “Trotski se opunha à União Soviética. Pedia a dissolução do país, baseado em suas desavenças com Stálin. Então, Trotski era inimigo do Estado soviético”.

Geneton Moraes Neto pergunta sobre as “palavras que Stálin usou para recomendar a morte de Trotski” e Pavel responde: “Stálin não usava palavras como ‘liquidação’ ou ‘assassinato’. Eu me lembro de que ele disse: ‘Confia-se ao senhor a realização da operação de guerra contra o trotsquismo no México’. Stálin falava devagar, tranquilamente, sem qualquer emoção”. Lembrança mais marcante do encontro, segundo Pavel: “O que me impressionava em Stálin era a concentração que ele demonstrava em relação ao assunto que se discutia, assim como a liberdade de que ele dispunha para tomar qualquer decisão alternativa sobre a questão em pauta”. (Trata-se da liberdade que só os ditadores, verdadeiros deuses, têm.)

Geneton Moraes Neto inquire Pavel sobre sua responsabilidade na operação que levou ao assassinato de Trotski. “Stálin confiou a mim, pessoalmente, toda a responsabilidade pela realização da Operação contra Trotski no México. Quando relatei a Stálin, em sua dacha, o fracasso da ação realizada em maio de 1940, ele ficou tranquilo como sempre. Não expressou falta de confiança depois do fracasso de um atentado a bala contra Trotski, executada com a participação do fanático pintor mexicano David Siqueiros. Stálin não nos acusou, mas pedia para reforçar o conflito entre Diego Rivera e Trotski [nota: suspeita-se que Trotski tenha tido um caso amoroso com Frida Kahlo, mulher do pintor mexicano e comunista Diego Rivera — que o hospedou no México]. Neste caso, quem nos ajudou muito foi a secretária de Trotski, ‘África’ — que na verdade era nossa agente. Durante os anos cinquenta, ela viveu na Argentina e no Brasil”, conta Pavel. A história de “África”, nome de guerra certamente, merece um registro à parte, que Geneton Moraes Neto certamente nos dará, noutro livro ou numa reportagem.

Uma curiosidade: a entrevista de Pavel foi traduzida do russo por Zoia Prestes, filha de Prestes e irmã de Ermelina Prestes, que mora em Goiânia.

Nota

A resenha saiu no Jornal Opção há mais de dez anos e é republicada sem alterações.

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