Fiquei surpreso ao comer uma lasanha com macarrão verde e cenoura (dei a metade para uma mulher em situação de rua) na pizzaria Kentucky — na Avenida Corrientes, em Buenos Aires — e o garçom, ao saber que sou brasileiro, começar a falar de Pelé, Zico, Falcão, Sócrates, Ronaldo (o Fenômeno), Rivaldo e Romário. “Neymar é craque, mas vive machucado, talvez por que está fora de forma”, sugeriu.

Perguntei por que sabia tanto sobre o futebol brasileiro, ao menos sobre nomes emblemáticos. “Em parte por causa dos jogos da Libertadores, quando é possível ver os craques brasileiros nos gramados argentinos. Mas sobretudo porque vejo, há muitos anos, os jogos dos campeonatos espanhol, o meu preferido, italiano, inglês e francês. Este mais porque Messi jogava no Paris Saint-Germain (PSG). “Muitos brasileiros jogaram e jogam na Europa. Ronaldo era um atacante extraordinário, de uma arrancada fulminante.”

O garçom namorou uma brasileira de Santa Catarina, quando mais jovem. “Paixão à primeira vista. Mas ela não quis se mudar para Buenos Aires e eu não quis morar em Floripa. Aprendi um pouco de português devido ao nosso amor.” De fato, fala português razoavelmente bem. “Dá para o gasto”, brinca. Depois, avisa que está casado e que sua mulher é ciumenta. “Não me complica, caro periodista”, disse, rindo.

O funcionário da pizzaria desconcertou-me ainda mais ao perguntar sobre “Galvón” Bueno. “É verdade que deixou a TV Globo e foi contratado por outra emissora de televisão? Vi e ouvi jogos narrados por ‘Galvón’, em Floripa e Camboriú, e ele me pareceu mui bueno”, assinalou, brincando com o nome do narrador esportivo e com a palavra “bueno”, que significa “bom” em espanhol.

Para minha surpresa, ele sabia até que Galvão Bueno narrava corridas de Fórmula 1. “Galvón é o melhor narrador do Brasil, não é?”, inquiriu, de maneira afirmativa.

Expliquei que Galvão Bueno é o mais conhecido narrador (e até comentarista) do Brasil. Mesmo tendo saído da TV Globo, não perdeu prestígio e continua na ativa.

Galvão Bueno vai narrar a Copa do Mundo de futebol de 2026 no SBT. Os jogos por si atraem público. Mas Galvão Bueno vai ser um atrativo a mais.

Mesmo criticado, talvez por ser muito enfático — um narrador-torcedor, notadamente em jogos da seleção brasileira —, Galvão Bueno, devo concordar com o “expert” argentino, é mesmo muito bom. Tão bom quando Waldir Amaral e Jorge Curi.

De alguma maneira, Galvão Bueno agrega — galvaniza — o público. Até agora, a Globo não conseguiu um narrador emblemático para substitui-lo.

Há bons narradores na rede da família Marinho, mas nenhum que empolgue e mobilize tanto o público, o telespectador, quanto Galvão Bueno.

Não vejo todos mas vejo muitos jogos da Copa e em 2026 não será diferente. Vou assistir alguns jogos no SBT só para ver se “Galvón” ainda está em forma, com aquele vozeirão — quase de Orlando Silva e Francisco Alves — que chama a atenção e é facilmente identificável.

Não consigo identificar a voz de nenhum narrador da Globo ou de outra emissora. Mas a de Galvão Bueno identifico de longe. E nem escuto tão bem.

De alguma maneira, Galvão Bueno tem carisma e é uma espécie, digamos de Lula da Silva na narração esportiva.

Ao final da conversa, tentei ensinar como se fala Galvão ao argentino. Ele “torcia” a língua, tentando adotar o “acento” brasileiro, mas não saía nada diferente de “Galvón”. Então, combinamos, que fique mesmo sendo “Galvón”.