Costumo brincar que Deus, um leitor de vidas e almas, teria dito: “Quando uma livraria fecha as portas uma estrela apaga no Céu”.

Livrarias são templos laicos e é lá que nós, os ímpios, rezamos… com prazer. Leitores verdadeiros são fanáticos. Adoram não apenas comprar livros, mas também flanar pelo interior das livrarias, vasculhando mesas e estantes, em busca do sabido e do não sabido.

Quem ama livros compra em livrarias virtuais e chega a vasculhar seus “catálogos”. Mas os fanáticos mesmo — como eu, Marcelo Franco, Reinaldo Barreto, Candice Marques de Lima, Italo Wolff, Salatiel Corrêa, Valdivino Braz, Carlos Willian — apreciam andar pelas “ruas” das livrarias físicas.

Nas visitas às livrarias nem sempre se sabe o que se vai adquirir. Mas, chegando lá, depois de olhar os livros, lendo trechos e até sentindo o cheiro das páginas, o leitor acaba comprando alguma obra, às vezes inesperada. Sou assim.

Langston Hughes capa de livro 2

Há algum tempo, em 2025, estive na Livraria Travessa de Brasília, no Casa Park, e dei de cara com o livro “O Negro Declara e Outros Poemas” (Pinard, 304 páginas, tradução de Léo Gonçalves, autor de ótima introdução), do poeta negro americano Langston Hughes. Li cinco poemas. Meu cérebro disse para minha boca: “Que poeta!” Quando levei o livro ao caixa, havia lido ao menos uns vinte poemas, talvez mais.

O livro de Langston Hughes valeu a ida à livraria, até a viagem — curta, mas cansativa para quem tem problemas de coluna.

Em novembro, estive em Buenos Aires e Rosario, na Argentina. Adquiri “Manuel Puig y la Mujer Araña” (Seix Barral, 414 páginas, tradução de Elvio E. Gandolfo), de Suzanne Jill-Levine. É uma biografia extraordinária. Custou 18 reais no sebo Dickens, na Avenida Corrientes. Se tivesse comprado apenas este livro, já teria valido a viagem. Gostei tanto do livro que comprei uma caderno de capa dura, com 96 páginas, e traduzi longos trechos — para deleite próprio.

Livros novos na Argentina são muito caros, sobretudo porque são importados na Espanha e, por isso, chegam com preços baseados no valor do euro.

Manuel Puig capa de biografia 500

Às vezes digo à Candice, minha companheira de jornada há quase 34 anos: “Vou lá só olhar os lançamentos”. Verifico e acabo comprando de um a dois livros. Felizmente, ela também aprecia livros. Nós moramos numa biblioteca com seis gatos (Filomena, Josephina, Serafim, Miguilim-El Tigre, Dolores e Byron Paiva di Edgar) e três cachorros (Sartoris, o decano de 16 anos e meio, João Fidelis, de 12 anos, e Eduarda, de 8 anos).

Na Livraria Palavrear, no Setor Leste Universitário, confiro os livros no térreo e na parte de cima. Vou à sua lanchonete, como uma salada apetitosa, e retomo a investigação dos livros. De tanto visitá-la, sei de cor e salteado onde ficam os livros dos mais variados “estilos”. Sei se há ou não lançamentos. Sou quase um livreiro.

Frequento também a Livraria Leitura, no Goiânia Shopping, e a Livraria da Vila, no Flamboyant Shopping Center. Na primeira, depois de olhar rapidamente alguns lançamentos na parte de baixo, corro logo para a parte de cima. Aí ficam livros de história, crítica literária, biografias, ensaios, jornalismo, filosofia, ciências sociais, economia, psicanálise, música e meio ambiente. É a alma da livraria. O acervo é bom. Falta, porém, destacar os lançamentos.

Livraria Palavrear, no Setor Leste Universitário, em Goiânia | Foto: Acervo pessoal

A Livraria da Vila tem um acervo não muito variado e amplo, pelo espaço que ocupa. Mas é bem frequentada. Em São Paulo, eu frequentava a unidade da Alameda Lorena, que fechou as portas, não por crise, e sim porque estão construindo (ou construíram) um edifício no lugar. Então, passei a ir à unidade da Vila Madalena, que fica numa bela e confortável casa.

A Livraria Leitura, desde a debacle da Livraria Cultura, se tornou a maior rede do país. Temo por seu futuro e torço para que não se torne a nova Livraria Cultura. Li, numa entrevista do dirigente do grupo, que sua política é cautelosa. Se a unidade não der lucro, não se autossustentar, é fechada. Posição de empresário, não de lunático romântico.

Quem visita Roma e não vai ao Coliseu e ao Vaticano, o “país” do papa, não foi exatamente a Roma, digamos. Pois há alguns anos quem ia a São Paulo, e não dava ao menos uma passadinha pelo Conjunto Nacional, onde ficava a Livraria Cultura, não podia dizer que havia visitado a terra da garoa.

mabel Mercer cantora
Mabel Mercer: grande cantora britânica-americana | Foto: Reprodução

Todas as vezes que eu e Candice íamos a São Paulo, hospedávamos-nos em hotéis nas proximidades do Conjunto Nacional. Por causa da Livraria Cultura.

Lá, nós dois passávamos horas e horas. Adquirimos, além de livros — vários deles editados em Portugal, notadamente de poesia (da Editora Assírio & Alvim) —, CDs de Mabel Mercer (com quem Frank Sinatra teria aprendido a cantar), Ivie Anderson, Mel Tormé e tantos outros, e DVDs (coleções de Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Samuel Fuller, John Ford, Alfred Hitchcock etc).

Os livros de arte eu não comprava, porque não é minha área de maior interesse, mas os folheava com atenção.

Assistimos um show da cantora Olivia Byington no teatro da livraria e o filme “Intocáveis” no cinema ao lado. No café, além do lanche, líamos trechos de livros e conversávamos.

A Livraria Cultura era uma civilização, nosso templo laico. Lá rezávamos, de maneira ímpia, com são Montaigne, são William Faulkner, são Thomas Mann, santa Emily Dickinson, são T. S. Eliot, santa Virginia Woolf, santa Adélia Prado, são James Joyce, são Ian McEwan, santa Toni Morrison, são Carlos Drummond de Andrade, são João Cabral de Melo Neto, santa Joyce Carol Oates, entre outros, muitos outros.

Pedro Herz com os pais Eva e Kurt Herz foto Arquivo da família
Pedro Herz (em pé) com os pais, Eva e Kurt Herz | Foto: Arquivo da família

A expansão dos negócios, em vários Estados, não fez nada bem à Livraria Cultura. A empresa acabou endividando-se (aluguéis de shoppings às vezes são impraticáveis). Foi desaparecendo aos poucos. O que me deixou triste. Porque a livraria parecia ter alma — o belo ambiente era meio mágico —, e não apenas corpo. Lá transpirava-se aquilo que seu nome revelava — Cultura.

Na semana passada, os jornais noticiaram que a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo confirmou a falência da Livraria Cultura, que tentava sobreviver com lojas menores. Sua dívida é de R$ 288,3 milhões. Quem lida com livro sabe que uma dívida desta envergadura é impagável. Livrarias e editoras podem dar lucros, mas não como bancos e outras atividades.

Os Herz começaram a lidar com livros, com a Cultura, em 1947. A empresa familiar completaria 80 anos em 2027. Resistiu muito num país instável como o Brasil, onde há poucos leitores.

Uma lágrima — infinda — pela Livraria Cultura e pelos admiráveis Eva Herz e Pedro Herz (sobre quem escrevi há alguns anos, ou melhor, sobre um livro de memórias de sua autoria: https://tinyurl.com/4xt4bjpj). Não tenho nenhum apreço pelos que pisoteiam os que caem.

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