“Mi Niñera de la KGB” (Lumen, 252 páginas), da escritora e pesquisadora argentina Laura Ramos, é, acima de tudo, uma reportagem do balacobaco. Ao mesmo tempo, é um livro de história sobre o século 20.

A obra conta a história da espiã África de La Heras (1909-1988), coronel do KGB¹ que lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e colaborou na montagem do esquema para Ramón Mercader assassinar o ucraniano Liev Trótski no México, em 1940. Depois, mudou-se, a serviço dos soviéticos, para Montevidéu com o objetivo de espionar a política da América Latina e dos Estados Unidos. Era uma gigante de 1,63m.

África de las Heras usava vários codinomes: María Luisa (adotado no Uruguai e na França), Znoy, Patria, María de la Sierra (no México), Ivonne (na Ucrânia), Luisita. Seu marido uruguaio, o excelente escritor Felisberto Hernández, a chamava de “La Espanhola” (nasceu em Ceuta). Para alguns amigos, era “La Gallega”. Trata-se de uma das agentes mais condecoradas pelo governo da União Soviética.

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“Minha Babá do KGB” é um título ligeiramente enganoso. Porque Maria Luisa, como era conhecida no Uruguai, não era babá, e sim uma espiã de primeira linha. Para disfarçar suas atividades, se apresentou como modista — costurava muito mal — e tratava bem os filhos dos “amigos” e “aliados”. Daí o “niñera”. Crianças e adolescentes a adoravam.

Em 2018, Víctor Ramos (ajudou na pesquisa para o livro) disse à irmã Laura Ramos — filhos dos trotskistas argentinos Faby Carvallo e Jorge Abelardo Ramos — que María Luisa, mais do que a “babá” afável e inteligente que todos imaginavam, era uma espiã internacional.

Mas já em 1994, Pavel Anatolievich Sudoplatov — o dirigente do KGB que organizou o assassinato de Trótski —, no livro ““Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” (Publicações Europa-América, 543 páginas, 1994), havia revelado sobre María Luisa: “Nossa melhor agente”.

Com alma de repórter, Laura Ramos, Sam Spade e Philip Marlowe da vida real, decidiu sair à caça de informações objetivas sobre a vida misteriosa de África-María Luisa.

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Pavel Sudoplatov: o diretor do KGB que montou a estrutura para assassinar Liev Trótski, no México, em 1940. Era o chefe de África de las Heras | Foto: Reprodução

Com o apoio da tradutora Tasya, Laura pesquisou “os papeis do KGB”, no Churchill Archives Centre, em Londres. O primeiro informe havia sido fornecido pelo agente do KGB Vasili Mitrokhin.

O Arquivo Mitrokhin “mencionava” La Espanhola “como agente ilegal — uma espiã sem cobertura diplomática [secretíssima, portanto] — com os nomes de María Luisa de Hernández Darbat, María Luisa Marchete, Znoy, Patria e África.

Laura Ramos buscou conhecer a família de María Luisa em Ceuta, na Espanha. Na cidade, África de las Heras Martínez, sobrinha-neta de María Luisa, contou a história — oficial, por assim dizer — da parente.

Aos 19 anos, África de las Heras casou-se com o capitão espanhol Francisco Javier Arbat Gil. Teve um filho, Francisco Javier Manuel (Julián), que morreu, de meningite, bebê.

Francisco Javier queria uma dona de casa obediente. Lutando por sua independência, África de las Heras saiu de casa e nem deu notícias ao marido.

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África de las Heras: bonita, durona e implacável | Foto: Reprodução

Em Madri, África de la Heras, trabalhando numa fábrica, descobriu a militância sindical e política ao conhecer o bancário Luis Pérez García Lago, da Unión General de los Trabajadores. Logo filiou-se à Agrupación Socialista de Madri.

Seu caráter libertário se acentuou ao conhecer a crítica de arte Margarita Nelken, autora do ensaio “A Condição Social da Mulher”, um libelo feminista.

Em 1934, pouco antes da instalação da República socialista, África de las Heras se tornou miliciana e repassava armas para grupos que, em greve geral, resistiam nas ruas.

África de las Heras era uma militante ativa e bonita. “O efeito que causava nos homens era fulminante”, registra Laura Ramos. O chefe do KGB a chamou de “a Vênus vermelha latina”. Tornou-se uma “deusa” em Barcelona. “A” revolucionária.

Em 1936, ao aderir às Juventudes Socialistas Unificadas, África de las Heras se tornou pró-soviética, quer dizer, pró-Stálin.

Laura Ramos escritora e pesquisadora argentina
Laura Ramos: a escritora e pesquisadora que investigou a vida de África de las Heras | Foto: Infobase

Quando se deu a tentativa de golpe, naquele ano, África de las Heras e García Largo se alinharam aos defensores da República.

Durante a rebelião de direita, África de las Heras conheceu Caridad Mercader — mãe de Ramón Mercader — e se tornaram amigas.

Nas ruas, a corajosa África de las Heras entregava fuzis para os defensores do governo republicano e incorporou-se às Milícias Antifascistas da Catalunha. Laura Ramos conta que a revolucionária “se separou de García Lago e começou a sua vida como mulher independente”.

A partir de 1937, África de la Heras começou a trabalhar para o KGB, na Espanha. Estreitou os laços com Caridad Mercader, “la Pasionaria catalã”, que se apresentava como “a primeira amazona espanhola”.

A mãe de Ramón Mercader era uma operadora do serviço secreto soviético. No KGB era conhecida como Alícia ou a Madre. “É possível que tenha sido” Caridad Mercader “quem cooptou África de las Heras” para o governo de Ióssif Stálin.

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Caridad Mercader, espanhola e mãe de Ramón Mercader, pode ter recrutado África de las Heras para o KGB, na Espanha, na década de 1930 | Foto: Reprodução

O principal assessor soviético do governo republicano, Alexander Orlov, preparou África de las Heras para a espionagem.

Uma das missões de Orlov, para o qual teve o apoio de Caridad Mercador, era a aniquilação do Poum, que era liderado por Andrés Nin. “O extermínio da liderança do Poum foi o preâmbulo da morte de Trótski”, assinala Laura Ramos.

Trótski no radar do KGB de Stálin

“María Luisa foi incorporada ao serviço de inteligência pouco antes da mudança de Trótski para o México”, informa Laura Ramos.

A pesquisadora relata que “um agente stalinista infiltrado no secretariado” de Trótski “recomendou a contratação de uma tradutora espanhola chamada María de la Sierra, que resultou ser” África de la Sierra, a María Luisa.

O rival de Stálin estava no radar de María de la Sierra, seu nome de guerra. Tanto que Sudoplatov a enviou para o México, em 1937, e logo ela ganhou espaço no secretariado de Trótski como tradutora. “Se infiltrou com a ordem de fazer tarefas de espionagem e reconhecimento do terreno.”

Ióssif Stálin e Liev Trótski: os dois travaram uma forte batalha ideológica. O primeiro mandou matar o segundo, no México, em 1940. Usou os pistoleiros do KGB | Foto: Reprodução

De acordo com o diplomata soviético Yuri Paporov, María de la Sierra trabalhou meses na Casa Azul, onde morava Trótski, no México.

“Sua missão foi tomar notas sobre a rotina, os horários e os cômodos da casa. Sudoplatov detalhou: ‘[María Luisa] fez uma descrição dos guarda-costas de Trótski e uma análise detalhada das pessoas que compunham seu secretariado.” Como desenhava bem, teria feito um relato preciso da estrutura interna da casa — a Casa Azul ou a casa da Rua Viena.

Porém, ressalva Laura Ramos, “um agente aposentado do KGB informou que María Luisa só se infiltrou no grupo dos pintores [como David Alfaro Siqueiros] e escritores que visitavam a Casa Azul relacionados com Frida Kahlo e Diego Rivera, e afirmou que é provável que ela nem sequer tenha conhecido Trótski”.

Laura Ramos diz que, independentemente de ter ou não conhecido Trótski, “foi a primeira agente que se infiltrou no secretariado mexicano”.

Irmã de Frida, Cristina Kahlo pôs lenha na fogueira: “María estava [na casa] e se metia nas coisas. Trótski dizia: ‘Por que se mete, por que se mete?’”

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Ramón Mercader, o assassino de Trótski, em dois tempos: jovem e idoso | Fotos: Reproduções

A pesquisa de Laura Ramos conclui que María Luisa “também interferiu na infraestrutura da operação”. O ex-agente do KGB Vladimir Stanchenko disse que a espanhola deu informações precisas de como obter documentos falsos para os espiões no México.

Quando Alexander Orlov asilou-se nos Estados Unidos, o KGB deu ordens para África de las Heras sair de imediato do México. “Orlov a conhecia e os soviéticos receavam que a delatasse.”

De fato, Orlov escreveu uma carta para Trótski e o alertou para “que não confiasse em ninguém que o visitasse ‘procedente da Espanha’”. Era uma referência a África de las Heras. Caridad e Ramón Mercader ainda não estavam no México.

Por isso, a participação de África de las Heras não foi maior — decisiva — no assassinato de Trótski, em 1940.

De volta à Espanha, onde as tropas fascistas de Francisco Franco avançavam, África de las Heras concentrou suas atividades, sob orientação soviética, “na retaguarda republicana, liberando prisioneiros e conduzindo refugiados pelos Pirineus até o território francês”.

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Alexander Orlov: ex-agente do KGB alertou Trótski sobre grupo procedente da Espanha | Foto: Reprodução

África de las Heras acabou num campo de refugiados nos Pirineus orientais. Como Orlov acabou por não denunciá-la, ela voltou ao México.

Em março de 1939, Stálin orientou Sudoplatov: “No movimento trotskista não há figuras políticas importantes, exceto o próprio Trótski. Eliminado Trótski, a ameaça desaparece”.

Operador-chefe do assassinato de Trótski, Sudoplatov “recebeu um cheque em branco e todo o suporte que necessitava para recrutar camaradas espanhóis”. O KGB recrutou dezenas de seus melhores agentes — espanhóis, russos, italianos e argentinos. África de la Heras entre eles.

O KGB organizou dois grupos. Um era liderado por Ióssif Grigulévich, com o apoio do pintor Siqueiros. O segundo contava com Caridad e Ramón Mercader. María Luisa participou possivelmente desta facção stalinista.

Na casa da Rua Viena, onde morava Trótski, África de las Heras aproximou-se de Carmen Palma, a cozinheira, e de Belén Estrada, a faxineira.

Em outubro de 1939, com o nome falso de Frank Jacson, Ramón Mercader chegou ao México. Como falava francês com fluência, apresentou-se como belga e obteve acesso a Trótski ao namorar uma trotskista que trabalhava como tradutora para o bolchevique.

No dia 21 de agosto de 1940, Ramón Mercader matou Trótski com uma picareta de montanhismo e acabou preso. Caridad Mercader e um dirigente do KGB, seu amante Leonid Eitingon, que estavam nas proximidades da casa de Trótski, fugiram. Suspeita-se que África de las Heras estava no automóvel. Trótski tinha 60 anos.

Partisan contra tropas nazistas

Cumprida sua missão no México, África de las Heras foi enviada pelo KGB para Paris “para incorporar-se à luta da Resistência” contra o nazismo da Alemanha de Adolf Hitler.

Africa de las Heras quase um século a serviço do KGB
África de las Heras: quase um século a serviço do KGB | Foto: Reprodução

Na França ocupada pelos nazistas, África de las Heras “infiltrou-se na chefatura da Gestapo parisiense como trabalhadora da limpeza”. Seu codinome agora era Znoy.

De Paris, a agente foi para Moscou. Em 1941, rompendo um acordo, Hitler atacou a União Soviética. Recrutada por Sudoplatov, das Operações Especiais da KGB, passou a operar contra os nazistas. Era partisan.

África de las Heras tinha vários relacionamentos, mas não era adicta do “amor romântico”. Ainda assim, acabou apaixonando-se pelo piloto bielorrusso Vladimir. Mas ele morreu bombardeado pelos alemães.

Mais tarde, África de las Heras integrou-se às unidades guerrilheiros do KGB infiltradas na retaguarda do exército alemão. Chegou a pular de paraquedas. Sua unidade, Os Vencedores, contava com 70 partisans — quinze espanhóis — e apenas uma mulher. Tornou-se expert em “transmissão e codificação de mensagens cifradas”.

Entre os soviéticos, a partisan — tão bela quanto corajosa — era conhecida como Ivonne Sánchez, Mariuska, Masha, María Pavlova, Marúsia e Ibona.

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Felisberto Hernández, um dos mais importantes escritores uruguaios, foi marido de África de las Heras | Foto: Reprodução

José Gros disse que África de las Heras era a espiã que melhor fazia transmissões pelo rádio ao KGB. O guerrilheiro soviético Nikolái Kuznetsov “a considerava sua operadora favorita e não permitia que outro transmitisse suas mensagens”.

Em 1944, ao voltar para Moscou, saindo do teatro da guerra, África de las Heras recebeu a Ordem da Estrela Vermelha e três medalhas: Guerrilheira de Primeiro Grau, Defensora de Moscou e Vitória.

O espanhol Amaro del Rosal a denominou como “uma mulher de lenda e epopeia”.

África de las Heras despertava atenção pela beleza, coragem e segurança. Com sua “cintura fina”, era observada por todos, “dada à morenice de sua pele e ao mistério dos olhos. Quiçá o mistério não estava nos olhos, mas em toda a sua vida” ventureira, sugere Laura Ramos. Alguns russos a chamavam de “Ibona África, a Morena”.

O KGB, ao reconhecer a importância estratégica de África de las Heras, “lhe ofereceu sua máxima distinção — a cidadania russa e o grau de agente encoberta”. Em alusão à União Soviética, escolheu o codinome de Patria.

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Rafael Vidiella, José Gros e África de las Heras, na União Soviética: partisans | Foto: Reprodução

Uma espiã da União Soviética no Uruguai

Na década de 1940, em busca dos “segredos” do programa nuclear dos Estados Unidos, “Stálin decidiu instalar um centro de atividade ilegal na América do Sul”. A opção foi pelo Uruguai, então conhecido como “a Suíça da América”.

África de las Heras ressurge, aos 36 anos, como espiã em Montevidéu. “No ano de 1946”, frisa Laura Ramos, “sua aparência era muito atrativa”.

“Em 1947”, María Luisa viajou para Paris “com a missão de seduzir o escritor Felisberto Hernández [cujo “O Cavalo Perdido e Outras Histórias” foi traduzido e elogiado pelo crítico literário brasileiro Davi Arrigucci Jr.]  Seu objetivo era conseguir a cidadania uruguaia e instalar uma estação de rádio em Montevidéu. Seu nome de guerra era María Luisa de las Heras”.

Por ser anticomunista, Felisberto Hernández, sem suspeitar, ao menos no início, contribuiu para construir uma fachada para María Luisa de las Heras de Darbat, como se registrou em Montevidéu. Os dois se casaram.

Logo María Luisa começou a montar uma rede de “amigos” e a buscar informações, inclusive com embaixadores, militares e políticos locais. A empregada doméstica de um vizinho foi a primeira conquista. Depois, se aproximou do casal Esther Dosil de Ramírez e Arbelio Ramírez. A mãe de Laura Ramos, a trotskista Faby Carvallo, era, paradoxalmente, próxima da agente stalinista.

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África de las Heras: uma espiã que circulou pelo mundo a serviço do KGB | Foto: Reprodução

O disfarce de María Luisa era a profissão de modista. Desenhava e planejava bem, mas costurava mal, diziam. A agente do KGB fez um tailleur para o casamento da notável poeta Ida Vitale com o crítico literário e ensaísta Ángel Rama.

Ida Vitale escreveu que María Luisa era “andaluza, de pele lustrosa, expansiva e sem inibições”. Pragmática, e nada a firulas verbais, a espiã adquiriu um radiotransmissor e se pôs a trabalhar para o KGB.

Juan Carlos Onetti circulava com a turma de Felisberto Hernández. Na época, a viúva de Kandinsky, Nina Kandinsky, ameaçou, enciumada, suicidar-se por causa do escritor uruguaio.

Uruguaias de classe média “aprenderam” com María Luisa o que era ser uma mulher livre e moderna. Uma mulher podia escolher seus parceiros e deixá-los quando quisessem. Felisberto Hernández era bissexual (tinha um caso com o poeta Luis Caputi) e isto não a incomodava.

Instruídas por María Luisa, que não aceitava “comandos” masculinos, as uruguaias liam e discutiam livros de Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Alexandra Kollontai, Mary McCarthy e Betty Friedan. Independentemente de seu stalinismo, que era um fato, a espanhola representou um sopro de liberdade para as “amigas” de Montevidéu, como Elsa Methol e Faby Carvallo.

Felisberto Hernández sabia que sua mulher era espiã da KGB? Parece que sim. Pois sua mãe, Calita, contou para Amalia Nieto, segunda mulher do escritor, que ela era espiã.

O casamento de María Luisa e Felisberto Hernández era uma espécie de ficção. Por isso se separaram.

Ao se casar com Felisberto Hernández, o objetivo de María Luisa era obter a cidadania uruguaia, o que conseguiu em setembro de 1952. O KGB repassou-lhe fundos financeiros e um aparato de rádio.

Marido morto: infarto ou envenenamento

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Giovanni Antonio Bertoni: o marido de África de las Heras que supostamente foi envenenado | Foto: Reprodução

Entre os agentes do KGB que circulavam pelo Uruguai estavam, além da confiável María Luisa, os soviéticos Vladimir Grinchenko e Mikhail Filonenko. O primeiro disse que a espanhola era “responsável pelos ilegais na Europa e na América Latina”. Mas o chefe dos agentes era mesmo Filonenko.

Esther Dosil colaborou, de 1949 a 1967, com as ações de espionagem de María Luisa. Arbelio Ramirez apoiou o trabalho das duas mulheres. Pouco depois, foi assassinado. Não se sabe o motivo exato. Mas o uruguaio estava tentando se afastar de María Luisa, quer dizer, do KGB.

Desde o Uruguai, María Luisa controlava o espião Pedro Ruzak, o Grek, que operava em Buenos Aires.

O KGB instruiu María Luisa a buscar informações sobre a ajuda dos Estados Unidos ao exército dos chineses anticomunistas. A espiã buscou também informações a respeito da Coreia, na época da guerra.

Em busca de informações exclusivas e úteis, a pragmática María Luisa teve um caso com um coronel — casado e de direita. Ele repassou informações, de maneira espontânea — sem saber que lidava com uma espiã — sobre o exército uruguaio e suas relações com o Departamento de Estado dos americanos do norte.

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Ida Vitale, poeta, teve roupa de casamento costurada por África de la Heras, a María Luisa | Foto: Divulgação

O diplomata uruguaio Mario Fernández — que chegou a trabalhar nos Estados Unidos e no Brasil (em Brasília) — e sua mulher, Chichí, eram amigos de María Luisa, que se aproveitava disso para extrair informações.

A morte de Stálin levou vários de seus aliados, como Sudoplatov, à prisão. María Luisa escapou possivelmente por ser uma heroína de guerra.

Em 1956, o ano chave da desestalinização — o “degelo” —, o italiano Giovanni Antonio Bertoni, Marko, assumiu a chefia da espionagem na América do Sul. “Sob sua direção, a cidade [Montevidéu] atuaria como estação receptora de toda a América Latina e, às vezes, como centro de transmissão para Moscou”, escreve Laura Ramos.

O KGB orientou Valentino Marchetti Santi — o novo nome de Bertoni — a se casar com María Luisa, em 1956. Ela tinha 44 anos e ele 47 anos. Eduardo Lezama — jornalista e político importante, homem de confiança do presidente da República — foi padrinho do casamento.

Valentino abriu uma loja de antiguidades, na qual se encontravam agentes do KGB — os locais e os de passagem, em missão. Lá escondiam documentos que, em seguida, eram enviados para Moscou.

Nos anos finais do governo de Nikita Khruschov — o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética caiu em outubro de 1964 —, Valentino começou a criticar o regime do país de Boris Pasternak e a defender “as posições independentistas do marechal Tito, da Iugoslávia”.

Stalinista empedernida, María Luisa o criticou duramente e disse: “Você acredita que, por ter sido secretário de Palmiro Togliatti, tem razão” — sugerindo que estava errado. Passou a acusá-lo de “titoísta”. O que era considerado “grave”. Pós-Khruschov, o stalinismo voltou ao poder na União Soviética, com Leonid Bréjnev.

A cúpula do KGB, informada das posições de Valentino, decidiu que María Luisa deveria assumir o comando da espionagem no Uruguai.

Pouco depois, Valentino morreu, supostamente de infarto, aos 58 anos. María Luisa não chorou, não ficou comovida. O agente italiano teria sido envenenado. Ela disse à amiga Esther Dosil: “Eu não fiz por minha conta”. Teria recebido ordens para resolver o “problema”.

Uma carta de María Luisa ao KGB, publicada por Vladimir Antonov, “permite suspeitar”, anota Laura Ramos, “que o assassinato não foi encomendado pelo Kremlin”.

A coronel e instrutora de espiões no KGB

De repente, em 1967, María Luisa desapareceu de Montevidéu e retornou à União Soviética. Não se despediu formalmente dos amigos e aliados. Esfumaçou-se. Voltou duas vezes ao Uruguai, incógnita.

María Luisa tentou reconquistar Esther Dosil para a espionagem. Mas a uruguaia não quis e, para dissuadi-la, disse que apoiava o movimento guerrilheiro Tupamaros. Realista, a espiã retrucou: “Estão equivocados, vão perder e morrer. Vão morrer muitos e vão perder tudo”.

Alguém realmente conhecia María Luisa, a espiã em tempo integral? “Nem os soviéticos, ou sua família, a conheceram em sua totalidade. Sua bala de prata, ante todos, seria o silêncio”, pontua Laura Ramos.

A pesquisadora ressalta que, “durante os quase 20 anos que operou no Uruguai, o trabalho de María Luisa foi impecável. Nenhum serviço de inteligência, local ou estrangeiro, pôde descobri-la”.

Laura Ramos conta que María Luisa “detectou a invasão dos Estados Unidos na Bahía dos Porcos, em abril de 1961, por meio de seus informantes, e reportou à União Soviética”.

Aos 62 anos, entre 1971 e 1972, María Luisa, Patriya, “foi enviada a Israel com a missão de contactar agentes existentes e recrutar novos espiões”. Ela conquistou a embaixadora do México em Israel, a escritora e jornalista Rosario Castellanos.

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África de la Heras: idosa e altamente condecorada | Foto: Reprodução

O célebre Arquivo Mitrokhin revelou que dois diplomatas uruguaios teriam colaborado, direta ou indiretamente, com a União Soviética — Yamandú Laguarda e Mario Fernández, o Gor. Laura Ramos sugere que Mario Fernández era um “informante involuntário”, portanto não recrutado por María Luisa. Eram “amigos”.

Ao deixar Israel, María Luisa voltou para a União Soviética, que considerava sua verdadeira pátria. Era comunista de carteirinha. “Em março de 1976 lhe deram a ordem de Lênin, a máxima condecoração que outorgava a União Soviética. Desde 1973 trabalhou como instrutora de agentes de inteligência destinados ao estrangeiro nos escritórios moscovitas do KGB e em uma academia nas proximidades da Bielorrúsia”.

Em Moscou, María Luisa se encontrava com Ramón Mercader (Laura Ramos suspeita que foram amantes, nos tempos do México). “Em 1985, aos 76 anos, se retirou do serviço ativo do KGB com a patente de coronel. Recebeu a mais alta distinção do serviço secreto, Colaboradora Honorária do Comitê para a Segurança do Estado. Só os grandes espiões a conquistaram. Suas condecorações superaram as recebidas por qualquer outro espanhol” — homem ou mulher.

Africa de Las Heras homenageada com selo na Rússia
Selo em homenagem à condecorada espiã da KGB África de las Heras | Foto: Divulgação

María Luisa morreu em Moscou, em 8 de março (Dia da Mulher) de 1988, aos 78 anos. “Foi enterrada com honras militares no cemitério moscovita de Jovaánkoye. Trinta e dois anos depois de sua morte, a Rússia dedicou-lhe um selo postal em reconhecimento ao seu trabalho”. Ela serviu ao KGB por 45 anos. No seu túmulo está escrito: Coronel África de las Heras, 1909-1988. Em seguida, o codinome Patria.

Africa de las Heras enterrada em Moscou com seu nome e o codinome Pátria
África de las Heras enterrada em Moscou com seu nome e o codinome Patria | Foto: Reprodução

África de las Heras, María Luisa, era uma mulher — espiã do KGB — que não recuava e não se deixava dominar por nenhum homem. Era tão brutal quanto Ramón Mercader, mas mesmerizava os interlocutores, fossem homens ou mulheres. Porém, como sugere Laura Ramos, enganou seus aliados e mui amigos do Uruguai. Sua causa era o comunismo — não a amizade.

Nota sobre “o KGB” ou “a KGB”

O K de KGB significa comitê. Por isso, a opção pelo uso de “o KGB”, e não pela forma mais usual, “a KGB”.

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