Talvez a vida dos Irmãos Grimm — Jacob e Wilhelm — seja uma espécie de conto de fadas ou, digamos, fados. Talvez.

Jacob Ludwig Karl Grimm viveu 78 anos, entre 1785 e 1863. Entre dois séculos, mais no 19 do que no 18.

Wilhelm Karl Grimm viveu 73 anos, entre 1786 e 1859. Os hermanos eram homens de dois séculos e nenhum viveu até a unificação da Alemanha, em 1871. Ou seja, não viram a Alemanha nascer como país.

Os irmãos Grimm foram parceiros de pesquisa e escrita durante toda a vida. De tão identificados, parecem gêmeos, e é difícil distinguir um do outro. São um, por assim dizer, em dois.

Ann Schmiesing capa de Os Irmãos Grimm 450

É muito difícil, senão impossível, encontrar um leitor de livros — um bom leitor ou um leitor mediano — que não tenha lido ao menos um dos contos de fadas recolhidos e sistematizados pelos Irmãos Grimm. Por sinal, a palavra “Irmãos” deve, para ser preciso, ser escrita com “i” maiúsculo. Porque, de alguma maneira, se tornou um nome, uma espécie de prenome da dupla.

Dada sua importância e capacidade de reverberar, a coletânea de relatos foi traduzida para cerca de 170 línguas. Por isso os contos de fada se tornaram tão universais quanto alemães. A recepção dos leitores globais é, por certo, responsável por isto.

No Brasil, há várias traduções (e até adaptações feitas por Monteiro Lobato) dos contos reunidos pelos Irmãos Grimm. A Editora 34 (com ótima tradução de Christine Röhrig), a L&PM, a Rocco e Iluminuras, entre outras, publicaram histórias dos Grimm em português. Há uma coletânea em quadrinhos: “Na Floresta: Contos de Fadas dos Irmãos Grimm”.

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Ann Schmiesing: autora da biografia dos Irmãos Grimm | Foto: Divulgação

Por que sabemos tanto sobre “A Bela Adormecida”, “Branca de Neve”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Cinderela”, “João e Maria”, “O Pequeno Polegar” e “Rapunzel”? Porque somos “filhos” dos Irmãos Grimm.

(Quando eu era menino, e morava em Porangatu, li a história de Rapunzel num livro cujas histórias foram adaptadas por Monteiro Lobato. Fiquei mesmerizado com a personagem que, prisioneira de um castelo, tinha cabelos tão longos que uma pessoa poderia usá-los como corda-escada. Intrigado, aos 8 anos, perguntei para o barbeiro João Gualberto: “O sr. conhece alguém que tenha os cabelos tão longos quanto os de Rapunzel?” Homem alto, olhou-me de soslaio e deu-me um chá de realidade: “Menino, larga de ser besta. Não tem nenhuma mulher com o cabelo do tamanho do de Rapunzel. A história é uma lenda”. Lembro-me que fiquei chateado, não pelo banho de realidade, e sim pelo esclarecimento do cabelereiro, que não me convenceu, sobretudo não me agradou.)

Irmãos Grimm capa de contos 450

Os Irmãos Grimm, pesquisadores rematados, tiveram uma vida venturosa ou insossa? É o que Ann Schmiesing responde no livro “Irmãos Grimm — Uma Biografia” (Amarilys, 400 páginas, tradução de Rodrigo Botelho). O livro, que já pode ser encomendado nos sites da Livraria Martins Fontes e da Livraria da Vila, custa 148 reais. Apesar do preço, já entrou para a minha lista penelopiana de leituras — furando a longa fila.

Ao recolher as histórias, dando-lhe um corpus mais preciso e luminoso, o que pretendiam os Irmãos Grimm? O objetivo dos alemães era preservar e firmar a identidade cultural alemã. De alguma maneira, tornaram os contos de fadas tão universais quanto a história de Fausto contada ou recontada por Marlowe, Goethe e, quem sabe, Thomas Mann.

Os Irmãos Grimm souberam, com perspicácia, preservar (ou até ampliar) a imaginação dos populares contos de fada.

Dotados para a pesquisa, escritores natos, os Irmãos Grimm foram mitógrafos (deveríamos inventar uma ou duas variantes: fadológrafos ou lendógrafos), linguistas, bibliotecários e funcionários públicos.