Dado seu poderio econômico, o que resulta tanto em importador de primeira linha quanto em investidor em vários países, a China é tratada com luvas de pelica por estadistas democráticos. Mas o país é uma ditadura.

Há um socialismo de mercado ou um capitalismo de Estado? A China é comunista, com um modelo não muito distante do stalinista, nos tempos da União Soviética, mas mantém uma economia relativamente aberta.

O Estado comunista mantém a sociedade sobre pressão. Os indivíduos são vigiados por um governo onipresente. Podem ser presos a qualquer momento, sem nenhum mandado judicial.

Espiona-se a vida das pessoas, notadamente daquelas com algum potencial, por assim dizer, subversivo. O governo “mapeia” os cidadãos da China. Suas vidas são escrutinadas no dia a dia.

Com os novos recursos tecnológicos, o sistema de vigilância e monitoramento ficou ainda mais azeitado, eficiente e menos perceptível.

Mesmo com uma ditadura rigorosa, há grupos criminosos (autônomos) na China no mundo digital? Há, por certo. Mas o governo da vigilância não tem nenhum controle disso? Não dá para imaginar que uma ditadura, como a dirigida por Xi Jinping, não saiba quais são os agentes-cérebros da espionagem digital.

A espionagem digital serve apenas aos criminosos, não-agentes do Estado, ou serve também ao governo comunista? É o que deveria ter inquirido e discutido o repórter Pedro S. Teixeira, da “Folha de S. Paulo”, quando escreveu a reportagem “Grupo baseado na China espionou empresa no Brasil por sete anos, diz Google”.

“Os ataques”, enfatiza a “Folha”, “miraram operadoras para monitorar alvos e extrair integração das planilhas e agiram desde 2018”.

Na quarta-feira, 25, o Google informou que conseguiu desmantelar “uma campanha de espionagem iniciada em 2018 por um grupo de cibercriminosos baseado na China que atingiu empresas no Brasil”, de acordo com a “Folha”.

Quer dizer que o Google só conseguiu desmantelar a rede sete anos depois do início da operação? Como o Google fez o monitoramento e conteve a espionagem? O leitor não fica sabendo.

Google admite falhas de segurança | Foto: Divulgação

O Google era “usado” pelos espiões chineses. Os criminosos acessaram “os sistemas de grandes empresas de telecomunicações por meio de um recurso das planilhas do Google”.

A “Folha” apurou “que mais de uma empresa brasileira esteve entre as vítimas”. Há 53 vítimas de 42 países. Na verdade, sabe-se pouco a respeito do assunto, considerando que a única fonte da informação é o Google.

O jornal informa: “O gigante das buscas afirma que a intrusão não ocorreu por falha [grifo do Jornal Opção] de sua tecnologia — os criminosos abusaram de uma integração legítima para enganar as vítimas”.

Porém, em seguida, a “Folha” acrescenta: “Após descobrir a falha [grifo do Jornal Opção], o Google encerrou todos os projetos e contas controladas pelos invasores e derrubou servidores ligação à ação”.

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Polícia Federal precisa entrar no circuito e investigar espionagem chinesa | Foto: Reprodução

Quer dizer, houve uma falha do Google que, usada pelos cibercriminosos, pode ter causado prejuízos para empresas. Além da violação de privacidade em si, há, possivelmente, furto de informações cruciais.

Segundo a “Folha”, “para viabilizar a ação de espionagem, os invasores instalaram um malware chamado Gridtide, configurado para persistir nos sistemas mesmo após o encerramento da sessão. Em seguida, implantaram uma VPN (redes virtuais privadas, que podem mascarar a localização do acesso) criptografada que usam para se comunicar com servidores externos desde julho de 2018”.

Instalado em servidores das operadoras, o Gridtide permitiu aos criminosos acessarem informações sobre pessoas e empresas. Os chineses obtiveram informações pessoais dos espionados.

“O código analisado indica capacidade de extrair nome, telefone, CPF, endereço e título de eleitor”, registra a “Folha”.

Parlamentares, jornalistas, executivos e engenheiros (que atuam em projetos de alta tecnologia) foram espionados pelos chineses. No seu comunicado, o Google informa que entre os alvos mais visados estão as redes de telecomunicações.

A reportagem da “Folha”, baseada unicamente nas informações do Google, tem seu valor. Mas é lacunar. Não procurou, por exemplo, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal para verificar se providências vão ser tomadas a respeito da espionagem chinesa no Brasil e sobre a fragilidade do Google e de telefônicas.

Inquéritos serão registrados e o Google deverá apresentar mais dados às autoridades brasileiras?

Quais são as empresas espionadas? Como o Google não revelou, a “Folha” nada publicou.