Autor do livro A Cabeça do Brasileiro diz que Lula “é favorito para perder”
14 março 2026 às 21h00

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O cientista político e sociólogo Alberto Carlos Almeida é autor de um clássico, “A Cabeça do Brasileiro — Vinte Anos Depois: O Que Mudou” (Difel, 560 páginas). A edição atualizada e ampliada conta com a colaboração de nove experts. Portanto, ganhou em diversidade e temáticas.
No livro “A Mão e a Luva — O Que Elege um Presidente” (Record, 336 páginas), Alberto Carlos Almeida e Tiago Garrido ressaltam que resultados econômicos positivos são cruciais para os gestores serem bem avaliados. Trata-se do caminho da reeleição.
Numa entrevista a Thiago Prado, na newsletter Jogo Político, de “O Globo”, Alberto Carlos Almeida postula que o escândalo do Banco Master-Daniel Vorcaro — que envolve magistrados, o PT da Bahia, o Centro e parte da direita — vai prejudicar mais o presidente Lula da Silva.
“O Caso Master atinge o sistema como um todo e quem simboliza tudo isso é o presidente, e não Jair Bolsonaro e seu filho”, Flávio Bolsonaro — pré-candidato do PL a presidente da República.

O cientista político frisa que o escândalo do INSS vai “pelo mesmo caminho, é tudo ruim para o governo”.
A corrupção vai ser “o grande tema da eleição”? Alberto Carlos Almeida frisa que “ainda não é possível dizer” isto. Penso o oposto. As eleições serão disputadas daqui a seis meses e o caso Banco Master e o caso INSS vão ficar na mídia por um bom tempo. Por isso vão “respingar” na campanha. Só não se sabe a intensidade.
O que pode reduzir o uso das denúncias e acusações nos debates e nas campanhas é que, nos dois casos, a lama, compartilhada, pega setores tanto do PT quanto da direita.
O presidente do PT, Edinho Silva, pontua que Flávio Bolsonaro é a “essência do fascismo”. Isto funciona?
“É bobagem essa estratégia de chamar Flávio dessas coisas. Ele é um candidato mais difícil de ser batido do que o Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo). Tarcísio teria que ficar fazendo sinais para a direita o tempo todo para se mostrar confiável e isso teria impacto na rejeição. Flávio não precisa de nada disso, pode passar o ano inteiro se vendendo como moderado e sinalizando ao centro desde já. Lula versus Flávio será uma disputa para dentro do sistema também. Lembrar que ele é político, que é senador, que os aliados deles estão envolvidos no Caso Master, lembrar a rachadinha. É por aí, e não falando de fascismo”, analisa Alberto Carlos Almeida.

A pauta fascismo pode empolgar um eleitorado que já apoia o presidente Lula da Silva e não assusta nem conecta aqueles que ainda estão indecisos. A pauta identitarista também pode afastar eleitores que estão mais preocupados com sua qualidade de vida.
Flávio Bolsonaro é o candidato fraco do bolsonarismo forte? Talvez seja isto. O fato é, para além do jogo de palavras, o postulante do PL está avançando e as pesquisas o mostram empatado com Lula da Silva. Há pesquisas que o apresentam em primeiro lugar no segundo turno.
Carestia é pedra “na urna” de Lula da Silva
De acordo com Alberto Carlos Almeida, “neste momento, Lula é o favorito para perder. Há anos, utilizo o dado de avaliação do governo em ótimo ou bom como régua. Lula fechou o ano na casa de 30% neste quesito em várias pesquisas, mas os últimos levantamentos nas mãos do governo estão indicando o presidente na casa de 25% e 26%. Pelo histórico brasileiro de eleições, ele precisa ter mais de 35% de ótimo ou bom se quiser vencer”.

Por que a imagem de Lula da Silva, de seu governo, não melhora? “O ponto é que, passados quatro anos, o eleitor brasileiro continua achando que o governo não o atende, que não está fazendo diferença na sua vida. Falamos muito da queda da inflação nos últimos meses, mas há um elemento que talvez tenhamos que prestar mais atenção: a carestia. A verdade é que as coisas continuam muito caras para a população.”
“As pessoas não conseguiram aumentar a quantidade de coisas que compram, o salário deixou de dar conta. A isenção do Imposto de Renda não está significando percepção de melhoria de vida das pessoas”, assinala o pesquisador.
O desfile da Acadêmicos de Niterói prejudicou a imagem de Lula da Silva entre os evangélicos? “Lula já é pior avaliado entre os evangélicos desde sempre, o desfile não alterou esse quadro.”
A dita pauta identitária — que, segundo o sociólogo americano do Norte Mark Lilla, prejudica a esquerda — não é, a rigor, de Lula da Silva. Mas é de parte substancial da esquerda e mesmo de setores do governo federal.

Lula da Silva é de esquerda, mas de uma esquerda um pouco mais conservadora, inclusive na pauta de comportamento. Mas o petista-chefe é avaliado pelas posições de seus aliados e, mesmo, auxiliares.
No conflito entre Érika Hilton e o apresentador de televisão Ratinho Sênior, pai de Ratinho Júnior, a deputada está certa. Faltou, para dizer o mínimo, respeito à diferença (a brutalidade com que tratam Érika Hilton é inominável). Porém, do ponto de vista político, quem sai perdendo é a esquerda — que afugenta um eleitorado que não aprova as posições e ideias de Érika Hilton. Empurra-se tais eleitores ainda mais para a direita.
Então, quem pensa que está ganhando, no caso Érika Hilton — e alinho-me com a deputada, que tem o direito de se defender e processar Ratinho Sênior — pode acabar perdendo.
Entretanto, tais assuntos identitários são abordados apenas episodicamente por Alberto Carlos Almeida. “A cartilha que o” PT “segue é insana. Dizer que pardo é preto? Dizer que mulher é dona de seu corpo na questão do aborto? Ser contra privatizações, sendo que o brasileiro a apoia se o serviço melhorar? É tudo uma loucura na esquerda”.

O pesquisador sugere que Lula da Silva e líderes do PT não são bons ouvintes. Preferem, quem sabe, aplausos — a velha e prejudicial bajulação.
Lula da Silva precisa agir como populista?
O repórter de “O Globo” inquire se, para vencer, Lula da Silva precisa “ser populista”.
O pesquisador responde que “sim”. O presidente “vai precisar gastar mais, baixar os juros. Não basta falar que é defensor do fim da pauta 6×1 — que pode vir a acontecer um dia. Vai precisar de medidas na área econômica para que a população perceba efeitos agora. E, de preferência, medidas que não precisem da autorização do Congresso”.
É possível comparar os dois primeiros mandatos de Lula da Silva com o atual? (Lembrando que, além de reeleito, fez a sucessora, Dilma Rousseff.)

“Há duas diferenças cruciais. A primeira, econômica. Lula não fez os movimentos dos outros mandatos que é o de começar contendo gastos e fazendo ajustes para chegar no fim do governo expandindo. Ele deixou a Presidência em 2010 crescendo 7%. Desta vez, os dois primeiros anos terão crescimento superior aos dois finais”, sublinha Alberto Carlos Almeida.
O sociólogo assinala que “a segunda coisa é que” Lula da Silva “não pegou um grande partido do centro e transformou em um grande aliado como foi o MDB lá atrás. Eram outros tempos, mas trazer Geraldo Alckmin para vice e dar ministérios para o Centrão foi insuficiente. Acabou sendo um governo que ampliou pouco e que ficou muito vinculado à esquerda”.
Acrescente-se que, no momento, o MDB não está querendo compor com Lula da Silva, notadamente por causa das eleições estaduais.
O pré-candidato do MDB a governador de Goiás, Daniel Vilela, entregou uma carta ao presidente do partido, deputado federal Baleia Rossi, deixando patente sua rejeição a uma aliança eleitoral com o petista-chefe.
Por outro lado, os grupos de Renan Calheiros, de Alagoas, e dos Barbalhos, do Pará, estão vinculados ao presidente. Também são do MDB.
Alberto Carlos Almeida diz que “não adiantou ter escondido Janja um pouco mais nos últimos meses, a cara do Lula 3 ainda continuou sendo essa: a de ser um governo muito petista e bastante exclusivista”.
(Sobre Janja, eis uma história: na semana passada, uma autoridade pública contou a dois repórteres do Jornal Opção que, numa reunião com várias pessoas no Palácio do Planalto, a primeira-dama mandou retirar um copo com água que estava perto de Lula da Silva, alegando que alguém poderia “envenenar” o presidente. Foi constrangedor, inclusive para auxiliares do petista-chefe. Um deles chegou a falar “em falta de diplomacia”.)

