Euler de França Belém
Euler de França Belém

Antônio Ermírio de Moraes: educação pode salvar o indivíduo e empresário tem missão social¹

O empresário que dirigiu o Votorantim, maior grupo industrial do país, afirma que seus pares não devem se preocupar apenas com o lucro e devem incentivar a educação dos pobres

Um empresário que comanda um grupo, o Votorantim, com 96 empresas industriais e 60 mil trabalhadores, além de dirigir a Beneficência Portuguesa, não tem tempo para mais nada. Nada mais falso. Antônio Ermírio de Moraes, 85 anos, depois de bem-sucedido no campo empresarial, tornando-se uma referência internacional no campo da metalurgia, decidiu que seria um sub-Shakespeare dos alegres trópicos. A história deste criador de empresas, filantropo que não aprecia divulgar suas ações, é muito bem contada no livro “Antônio Ermírio de Moraes — Memórias de um Diário Confidencial” (Planeta, 350 páginas), do sociólogo José Pastore, Ph.D pela Universidade de Wisconsin e professor da Universidade de São Paulo (USP). Não se trata de uma biografia detalhada — a construção e consolidação do império da família Ermírio de Moraes não são examinadas com o devido rigor e, apesar do esforço para incorporar críticas, há um certo ar condescendente —, mas, mesmo assim, é um livro dos melhores, sobretudo num país que percebe seus empresários não como bravos batalhadores, e sim como “bandidos”; como se o lucro, no capitalismo, fosse um pecado. A crítica da esquerda ao lucro é, de algum modo, um repeteco da crítica da Igreja Católica à usura, em tempos medievais. As bases para um trabalho mais alentado e crítico estão lançadas. O historiador Jorge Caldeira, que já escreveu sobre o Grupo Votorantim, certamente é o pesquisador qualificado para a tarefa hercúlea. A seguir, trataremos do Antônio Ermírio dramaturgo.

Ao fundo, um satisfeito Antônio Ermírio de Moraes e o ator Marcos Caruso, com o elenco da peça “S. O. S. Brasil”. Na primeira fila, Irene Ravache, uma de suas atrizes preferidas | Foto: Lenise Pinheiro

Leitor infatigável de Shakespeare (duvida que seja o autor de todas as suas obras), Machado de Assis — discute horas sobre o suposto adultério de Capitu, personagem de “Dom Casmurro” (dizia: Machado de Assis “é malvado e doce a mesmo tempo. É um autor muito penetrante. Não consigo interromper a leitura”) —, Hemingway e Tennessee Williams, que leu em inglês, Antônio Ermírio, depois de ter sido candidato a governador de São Paulo e perceber que a política é um grande teatro, decidiu que seria dramaturgo. Seu objetivo era usar o teatro para denunciar mazelas brasileiras, como o preconceito contra o empresário produtivo, o atendimento deficiente na área de saúde e a necessidade de se investir mais e racionalmente em educação. Seus dramas, pode-se dizer, têm praticamente a mesma ambição da dramaturgia de Bertolt Brecht — guardadas as diferenças de formação e de ideologia (um é liberal, o outro é de esquerda), pois o autor alemão era mais refinado e tinha conhecimento amplo das sutilezas do teatro. Antônio Ermírio é, como teatrólogo, acima de tudo pedagógico.

Antônio Ermírio de Moraes, com Marcos Caruso | Foto: Reprodução

O nascimento do Antônio Ermírio dramaturgo tem a ver com o fato de que seus artigos, publicados na “Folha de S. Paulo”, e entrevistas, embora muito lidos, não tinham o impacto social que julgava necessário. Queria influenciar mais, levar as pessoas, sobretudo empresários, a fazer alguma coisa para a sociedade — não apenas gerar empregos. O chefão do Votorantim é da estirpe dos liberais que acreditam que as pessoas devem ser incorporadas ao mercado pelo trabalho, mas avalia que, sem oportunidades adequadas, isto não ocorrerá. Por isso, costuma dizer que só a “educação salva”. Liberal de matiz social, avalia que os muito ricos têm o dever de criar mecanismos que possam ajudar os pobres em várias áreas, sobretudo saúde e educação. A cultura está inserta em educação. Não basta dar aos pobres alimentação, por intermédio de programas sociais. É preciso incentivá-los a “consumir” bens culturais, com o objetivo de elevar seu espírito. Sabe-se que viver de acordo o que se diz é uma tarefa quase impossível. O indivíduo é sempre dois, ou às vezes três: aquele que é, aquele que diz que é e aquele que as pessoas avaliam que é. A missão de unir o que se diz com o que se faz é complexa, talvez impossível inteiramente. Mas Antônio Ermírio, apesar dos percalços, procurou fazer, na medida do possível, aquilo que prega. A rede hospitalar da Beneficência Portuguesa, que atende pobres e ricos, foi dirigida durante anos pelo empresário. Nunca recebeu um centavo para fazê-lo. Pelo contrário, pôs dinheiro do próprio bolso na instituição, sem fazer alarde algum, para comprar aparelhos necessários a uma medicina de ponta. Ele financiou reforma de teatros, bancou peças, ajudou a criar uma orquestra filarmônica na favela de Heliópolis, construiu escolas — quase tudo anonimamente e, segundo Pastore, sem abater nos impostos. Ao contrário dos ricos e da classe média, não tem medo dos pobres, de meninos de rua. Conversa com os garotos, faz perguntas, e uma vez pegou dois, pôs na escola e um deles, formado numa unidade técnica, trabalha numa das empresas do grupo.

Antônio Ermírio de Moraes fotografado nos bastidores da peça teatral “S. O. S. Brasil”, em São Paulo, em 1999: o empresário sugeria que a arte, permeada pela educação, pode ser a redenção dos indivíduos | Foto: Lenise Pinheiro

Ciranda financeira

A primeira peça de Antônio Ermírio, “Brasil S/A”, mostra os “malefícios” da ciranda financeira. O empresário, que foi dono do Banco Votorantim — o livro sublinha que não queria o envolvimento do grupo nesta área, mas foi voto vencido —, pretende mostrar os malefícios da especulação financeira para a economia real (note-se o caso recente do empresário Eike Batista, que, envolvido pela barafunda de “papeis” que pôs no mercado, sem a necessária substância física, perdeu bilhões e será “amparado” pelo BNDES).

Ao começar a pôr as ideias no papel, com o auxílio de Pastore, Antônio Ermírio descobriu que escrever para teatro não é uma tarefa fácil. “O maior problema é que lhe vinham à mente muitas ideias ao mesmo tempo”, frisa o sociólogo. “Antônio escrevia os diálogos à mão, depois do jantar ou durante a madrugada, quando perdia o sono.” Digitado o texto, fazia acréscimos, praticamente criando outra história. Na crise do governo de Fernando Collor, que congelou o dinheiro das pessoas nos bancos, Antônio Ermírio deu um tempo na peça, retomando-a apenas em 1991.

Antônio Ermírio de Moraes quis ser governador de São Paulo, mas perdeu para Orestes Quércia. O hábito de dizer a verdade o prejudicou eleitoralmente | Foto: Reprodução

Aos poucos, com leituras adicionais, Antônio Ermírio e seu Sancho Pança, Pastore, descobriram que, em termos de dramaturgia, “não se devem explicar as coisas, mas sim fazê-las acontecer, pois teatro é ação”. Ao contrário dos profissionais, que cortam mais do que acrescentam, o empresário queria sempre incluir novas ideias. “O texto ficou quilométrico. E pior: não agradava nem a ele nem a mim”, escreve Pastore.

Em 1993, Antônio Ermírio e Pastore decidiram consultar Miguel Falabella. O ator e diretor leu a peça e concluiu que seu didatismo a engessaria se levada ao teatro. Falabella saiu de cena e entrou o ator Marcos Caruso.

“O texto tem boas ideias, mas não é uma peça de teatro. Tem vários defeitos”, disse Marcos Caruso. “Mas acho que posso ajudar.” Aos poucos, o texto rígido, repleto de ideias mas não as que fazem o teatro funcionar, foi sendo reconstruído, às vezes com a discordância do autor. O curioso é que, no processo em que se envolveu com o teatro, Antônio Ermírio se tornou outro homem. O teatro quebrou “a rigidez do empresário durão”. O empresário tornou-se “espirituoso e bem-humorado”.

Antônio Ermírio de Moraes foi um dos melhores alunos da escola de metalurgia no Colorado, nos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Atores começaram a ler a peça e a conviver com Antônio Ermírio, que, embora rígido devido aos anos como executivo de um grupo empresarial poderoso, se tornou mais malemolente e “parou de ter pressa”. Levado para visitar o Teatro Maria Della Costa, que estava em ruína, bancou a reforma e não quis agradecimentos. “Eu é que agradeço a vocês, artistas, que mantêm viva a chama da cultura e agora estão me aceitando em seu meio”, disse.

História relatada por Pastore: “Certa noite, depois de um jantar, Irene Ravache pôs sorrateiramente um vidro de ketchup no bolso do paletó de Antônio. Após um tempo, apontou para o paletó e perguntou em voz alta:

“— Antônio, o que é isto aqui? Você anda armado?

“Surpreso, ele retirou o vidro do bolso. Ele se espantou, o que fez Irene continuar com a brincadeira, em tom de censura:

“— Antônio, mas o que é isso… Você, um empresário rico, surrupiando vidro de Ketchup de restaurante…! Inacreditável!

“Todos os que ouviram — e foram muitos — caíram na gargalhada. Quem mais riu foi o próprio Antônio.”

O empresário que recomendava que os pares e executivos comessem sanduíche, em vez de partilharem almoços demorados e improdutivos, gostou de verificar que o “tempo” dos atores era outro. Acordavam tarde, faziam brincadeiras e riam de tudo. “O teatro abriu para meu amigo as portas de um novo mundo, o mundo das emoções”, conta Pastore.

Com a intervenção de Caruso, a peça ficou pronta e foi levada ao teatro, inicialmente com Irene Ravache, Rogério Fróes, Mayara Magri, Suzy Rêgo, Luiz Guilherme, Jandir Ferrari, Rogério Márcico e Eugênia de Domênico. Antes, o ator Juca de Oliveira sugeriu ajustes, emprestou vários livros sobre técnicas de preparação de roteiros a Antônio Ermírio (que leu todos e fez anotações à margem). Mudanças foram feitas, a fórceps. “O texto final de ‘Brasil S/A’ passou a contar o drama de um empresário nacionalista e trabalhador que vende uma fazenda que tanto amava para comprar um laboratório farmacêutico.” Mas, escorchado pelos bancos, teve de vender a empresa. Antônio Ermírio é um capitalista crítico do capitalismo mais voraz — o financeiro. Não seria uma contradição? Pode ser. Deve ser. Mas ele é assim — um “personagem” que tenta escapar das garras do capital financeiro, uma missão, decerto, praticamente impossível. O ex-chefão do Votorantim, acamado devido ao Alzheimer, é um crítico do que chama de “capital sem trabalho”.

Curioso e exigente, Antônio Ermírio participou dos ensaios e sempre sugeria mudanças. Caruso e os atores diziam: “Autor bom é autor morto”. Quando os atores passaram a “recitar” a peça de cor, o empresário chorou. “Quando me emociono, choro mesmo.”

Em seis meses, “Brasil S/A” foi vista por 70 mil pessoas — um número considerado bom. As críticas não foram todas favoráveis. Barbara Heliodora, de “O Globo”, apontada como a mais importante crítica de teatro do país, depois de realçar os problemas, escreveu: “No quadro da dramaturgia brasileira, ‘Brasil S/A’ se mantém razoavelmente ao nível da média das comédias de costumes, com um grande mérito: apesar de seu autor proclamar no texto suas mais caras convicções de amor ao Brasil, ele resiste galhardamente às facilidades do happy end da salvação de última hora, e respeita cuidadosamente a tradição brasileira de impunidade”.

Saúde e educação

A saúde é um dos problemas crônicos do Brasil e uma das principais preocupações de Antônio Ermírio. Quando sadio, dedicava algumas horas por dia à Beneficência Portuguesa. Conhecia bem o assunto e, por isso, decidiu escrever a peça “S.O.S. Brasil” (ele era inteiramente a favor da CPMF). A peça contou com o apoio de Pastore e, sobretudo, Caruso. “A peça narra o drama de um doente pobre que precisa de atendimento hospitalar, mas não o encontra em sua cidade natal, e é então obrigado a ir para São Paulo.”

A peça fez sucesso de público — foi assistida por 62 mil pessoas, de 11 de agosto de 1999 a 27 de fevereiro de 2000. Perguntado por Antônio Abujamra: “Antônio, como explicar que, entre seus familiares, só você foi para o teatro?”. A resposta: “Eles tiveram mais juízo do que eu”.

A terceira e última peça, “Acorda Brasil!”, tem como foco a educação, um dos temas mais caros a Antônio Ermírio. Ele dizia: “Existem vários exemplos de países que, sem recursos naturais, mas com educação, superaram as dificuldades e tornaram-se prósperos”. A “educação salva”, costumava destacar. “A peça descrevia um projeto real, que Antônio ajudou a construir: a formação da Orquestra Sinfônica Heliópolis do Instituto Baccarelli.” Com o auxílio de Juca de Oliveira e Newton Cannito, Antônio Ermírio, mesmo já adoentado, concluiu a peça, finalmente dirigida por José Possi Neto. “Acorda Brasil!”, que misturou atores profissionais com garotos da favela de Heliópolis, fez sucesso. Os meninos agradeceram: “Obrigado, doutor Antônio, o senhor nos ensinou a pescar”. Um dos jovens da favela, Adriano Costa Chaves, foi para Tel Aviv, onde se formou na Academia da Orquestra Filarmônica de Israel. “Vejam”, frisava Antônio Ermírio, “é só dar oportunidade que os talentos desabrocham. É o milagre da educação. Espero que outros empresários entendam a mensagem de ‘Acorda Brasil!’ e contribuam para educar outros brasileiros. Escrevi a peça para despertá-los”.

O curioso é que, ao menos num ponto, liberais e esquerdistas são parecidos. Aqueles dizem que no máximo o Estado deve dar (ou emprestar) a vara de pescar — numa evidente condenação aos programas sociais assistencialistas, que, claro, são necessários (ainda que não solucionem o problema). A esquerda, sobretudo quando está fora do poder, afirma que os programas assistenciais não levam à mudança social estrutural e contribuem para a produção de um curral eleitoral. Liberais e esquerdistas estão certos em parte, mas seus raciocínios levam à inação. Os liberais erram porque as pessoas não pescam sozinhas, por isso precisam mesmo de um “empurrão” do Estado e, quando possível, da iniciativa privada. A esquerda equivoca-se quando sugere que as mudanças só podem ocorrer a longo prazo e só valem se forem estruturais. No poder, felizmente, Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff entenderam que os problemas das pessoas, sobretudo os mais urgentes — a fome — devem ser resolvidos agora, e não no futuro. A ressalva é que, como sugere a ação de Antônio Ermírio, governos e empresários devem ir além de programas de combate à fome, porque a miséria em si é um problema mais amplo. Como disse um artista, o povo precisa também de diversão e arte — não apenas de pão.

Pastore faz um relato curioso sobre como a comunidade de Heliópolis viu a peça. Adultos e jovens assistiram “Acorda Brasil!” como se estivessem em transe e não riram nem mesmo das partes cômicas. Quando terminou a encenação, os aplausos foram estrondosos. O maestro Edílson Venturel perguntou a um grupo de pais o que havia acontecido. Recolheu uma síntese perfeita: “Porque o que é gozado para vocês é a realidade de nossa vida na favela”. Noutras palavras, gostaram da peça, mas a perceberam como “materialização” artística do que viviam como favelados e, por isso, não riram. Antônio Ermírio queria exatamente isto: retratar um fato concreto e mostrar que, com educação, o mundo pode mudar. A educação, acredita, é revolucionária — mais que as ideias de liberais e esquerdistas para mudar o mundo.

Uma repórter da TV Globo perguntou por que, se não gostava de carnaval, aceitou a adaptação da peça “Acorda Brasil!” para o desfile da Vai-Vai, em São Paulo. Antônio Ermírio respondeu: “Para que o Brasil inteiro fique sabendo que a educação salva, e que isso é de responsabilidade de todos nós, em especial dos empresários que não podem se limitar a pagar impostos. Temos de salvar a juventude, porque são esses jovens que vão tocar o Brasil dos próximos 30 ou 40 anos. Quero que a Vai-Vai dê um grito de guerra, uma voz de comando, para que todos percebam que a hora é agora”.

A produtora Gullane Filmes adaptou “Acorda Brasil!”. O objetivo do filme, segundo Pastore, é enaltecer a educação.

É provável que Brecht, mesmo sendo marxista, se interessaria pelo teatro de Antônio Ermírio.

Alzheimer tira Antônio Ermírio do comando do Grupo Votorantim

José Pastore, o biógrafo, e Antônio Ermírio de Moraes | Foto: Acervo do economista

O empresário Antônio Ermírio de Moraes, 85 anos em junho, responsável pelo crescimento e consolidação do Grupo Votorantim, principal indústria produtiva do país, está com Alzheimer e não sai mais de casa. A história está relatada no excelente livro “Antônio Ermírio de Moraes — Memórias de um Diário Confidencial” (Planeta, 350 páginas), de José Pastore, Ph.D em sociologia pela Universidade de Wisconsin e professor da Universidade de São Paulo (USP). É mais um depoimento — muito bem feito — do que uma biografia.

Workaholic assumido, Antônio Ermírio trabalhava nas várias empresas do grupo e, sem receber um centavo, dava expediente diário na Beneficência Portuguesa, um dos melhores hospitais do país. Aos poucos, embora o homem permanecesse decidido, seu organismo foi cedendo a uma série de doenças. Em 1998, diagnosticada “uma fraqueza em seu coração”, teve de colocar marca-passo. “Estou me sentindo como um garoto, vou já para o escritório”, disse. Tinha 70 anos. Mas, conta Pastore, “ficou frustrado ao saber que o marca-passo o impediria de visitar as salas-forno da fábrica de alumínio devido à presença de alta voltagem e muita magnetização. Não gostou dessa restrição, pois fazia parte de sua rotina fazer verificações pessoais de todos os equipamentos da CBA”.

Em 2004, aos 76 anos, foi operado de um tumor maligno no intestino pelos médicos Angelita Habr e Joaquim Gama Rodrigues. “Mas houve graves sequelas que decorreram de um pós-operatório complicado e marcado por inúmeros episódios de hipertensão. Vi que os médicos estavam aflitos. Não conseguiam baixar a pressão. Temiam um derrame cerebral a qualquer momento.”

Antônio Ermírio era muito resistente e sempre surpreendia os mais jovens, que não conseguiam acompanhar seu pique. Porém, depois da cirurgia, Pastore diz que passou a perceber no empresário “nítidos sinais de cansaço”. O dirigente do Votorantim “passou a se deitar durante o expediente de trabalho — coisa inédita. Já não conseguia esconder seu estado de prostração. O quadro foi se agravando. Junto com isso, acentuaram-se os lapsos de memória que já eu vinha observando havia muito tempo. havia muito tempo. Preocupei-me com o novo quadro, porque o esquecimento foi se acentuando dia a dia”, relata Pastore.

Os médicos descobriram que havia dois males: hidrocefalia (excesso de líquido na caixa craniana) e Alzheimer. Em 2006, médicos de Cleveland, nos Estados Unidos, implantaram uma válvula no crânio de Antônio Ermírio “para drenar o excesso de líquido”.

No entanto, o quadro só melhorou nas primeiras semanas. “Apesar de vários ajustes na válvula, os resultados continuaram decepcionantes. Foi tudo muito triste. Antônio foi perdendo os movimentos das pernas. O problema se agravou com espantosa rapidez. A hidrocefalia lhe tirou a capacidade de caminhar, levando-o à cama, e o Alzheimer tirou-lhe a capacidade de acompanhar o cotidiano.”

Antônio Ermírio está vivo², mas não é, claro, o mesmo homem de antes — aquele que, no auge de sua energia, dizia que queria morrer trabalhando. Pastore registra: “Foi um destino cruel. Duas doenças se irmanaram para aniquilar o dinamismo e a criatividade de um homem inteligente, permanentemente animado e que sempre pediu a Deus para que o mantivesse trabalhando até os últimos dias de sua vida”.

Uma das qualidades do empresário era sua excelente memória, mas o Alzheimer a devorou. “Hoje”, conta Pastore, Antônio Ermírio “pouco reage”.

Notas

¹ O texto foi publicado pelo Jornal Opção antes da morte do industrial e engenheiro Antônio Ermírio de Moraes, em 24 de agosto de 2014, aos 86 anos.

² Vivo, claro, quando o texto foi escrito.

 

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