Acabou a lua de mel dos jornalistas com o Washington Post
07 fevereiro 2026 às 21h00

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Pouco depois da compra do jornal “Washington Post” por Jeff Bezos, criador da Amazon, o jornalista Bob Woodward, de 82 anos — e na ativa, escrevendo reportagens e livros —, disse que o empresário estava ampliando o investimento na melhoria do jornalismo.
Agora, Bob Woodward diria o mesmo? Talvez não. Em 1974, com seu parça Carl Bernstein, o repórter escreveu uma série de matérias que acabaram levando o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à renúncia. Com Jeff Bezos no comando, o jornal americano do norte faria o mesmo hoje? Talvez sim. Mais provável que não.
Jeff Bezos é um grande empresário, mas não é do ramo jornalístico — quase sempre deficitário. No momento, disse à redação que o “Post” deve voltar a ser lucrativo — talvez se esquecendo que jornais não são similares a empreendimentos como Google, Facebook, X, Instagram, TikTok. São muitos diferentes e jamais vão ser tão lucrativos — exceto se, em vez de serem jornais, se transformem em redes sociais ou sites de busca, o que parece impossível.

Desde a falecida publisher do “Post” Katharine Graham, com o lendário editor Ben Bradlee, o jornal tinha a fama de praticar jornalismo independente e crítico, com reportagens contundentes sobre indivíduos poderosos do meio político e do ramo de negócios.
(A rigor, eu excluiria a palavra “independente”, porque não há jornais independentes nem imparciais. Os melhores não enganam seus leitores e assumem posições, inclusive partidárias, mas apresentam um jornalismo objetivo, com versões dissonantes.)
Passaralho na redação do Post
Na quarta-feira, 4, o passaralho do “Post” tomou o emprego de um terço de seus funcionários. Fala-se em centenas de demissões.
Glenn Kessler, que era checador de fatos da redação, criticou: “Bezos não está tentando salvar o ‘The Washington Post’. Ele está tentando sobreviver a Donald Trump”.

(A base de meu texto é a reportagem “‘Washington Post’, jornal de Jeff Bezos, demite quase um terço da equipe”, dos repórteres Brian Stelter e Liam Reilly, da CNN.)
O editor-executivo do “Post”, Matt Murray, escreveu, num memorando, que as “mudanças incluem reduções substanciais nas redações, afetando quase todas as editorias”.
De acordo com a CNN, “os impactos incluem redução drástica da seção de notícias locais, o fechamento de quase toda a seção de Esportes, o fechamento da seção de Livros e o cancelamento do podcast ‘Post Reports’”. A área de questões raciais e étnicas sofreu cortes.
Jornais americanos, os relevantes, não são provincianos e mantêm uma cobertura internacional de alto nível. O “Post” decidiu reduzir sua cobertura global.

A viúva de Ben Bradlee, Sally Quinn, colaboradora do jornal, disse que, no “Post”, “tem sido um funeral atrás do outro. É de partir o coração que ele [Jeff Bezos] não ache o jornal importante o suficiente para financiá-lo”. Seria uma vingança inconsciente do empresário do digital contra uma das grandes estrelas mundiais do impresso?
Aposentado desde 2021, Marty Baron, ex-editor-executivo do “Post”, criticou a direção do “Post” a respeito das demissões anunciadas na quarta: “Este é um dos dias mais sombrios da história de uma das maiores organizações de notícias do mundo”.
Lenda do jornalismo do “Post”, Marty Baron sustenta que os problemas do jornal “foram infinitamente agravados por decisões mal concebidas que vieram do topo da hierarquia”. A causa dos problemas está mais na cúpula da empresa do que na redação em si. Noutras palavras, o abacaxi pode ter sido criado pela turma de Jeff Bezos, e não pela redação.

Marty Baron afirma que é deplorável a submissão de Jeff Bezos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Entre as determinações de Jeff Bezos que desagradaram a redação e leitores está o controle da liberdade na seção de “Opinião” com exigência da defesa de ideais liberais. O editor de “Opinião”, David Shipley, pediu demissão não aceitar o dogmatismo jornalístico do empresário. Críticas ao mercado, por exemplo, não podem mais sair no espaço de opinião.
Marty Baron diz que, quando era chefe da redação, costumava ouvir de Bezos “que o sucesso do ‘Post’ estaria entre as maiores conquistas de sua vida. Gostaria de perceber o mesmo espírito hoje. Não há nenhum sinal dele”.

Que ninguém vá ao túmulo de Katharine Graham e Ben Bradlee. Se for, e se o encontrar mexidos, não estranhe. Os grandes do “Post” estão, em espírito, incomodados com a pequenez de Jeff Bezos, um personagem de Dickens ou Balzac — o das ilusões perdidas — que saltou para a realidade.
Concentrar energia e recursos em política
O editor do “Post”, Will Lewis, sublinhou que, de fato, o jornal precisa ser lucrativo. Para tanto, a direção cobra concentração de esforços e recursos na cobertura política e outras áreas de interesse do público (“assuntos nacionais, pessoas, poder e tendências; segurança nacional, forças que moldam o futuro, incluindo ciência, saúde, medicina, tecnologia, clima e negócios; jornalismo que capacita as pessoas a agir, desde conselhos até bem-estar; investigações reveladoras; e o que está chamando a atenção na cultura, online e na vida cotidiana”, assinala Matt Murray). Notícias do exterior e esportes sofreram cortes drásticos.
Curiosamente, no Brasil, costuma-se dizer que política tem um número reduzido de leitores. Nos Estados Unidos, pensa-se o contrário. Os americanos talvez estejam certos.

