5 livros que circulam na Argentina e merecem tradução no Brasil
08 novembro 2025 às 21h00

COMPARTILHAR
1
Vida y Época de Iliá Ehrenburg — Joshua Rubenstein

O título completo do livro é “Lealtades Enmarañadas — Vida y Época de Iliá Ehrenburg” (SigloXXI, 527 páginas, tradução de Esther Gómez Parro), de Joshua Rubenstein, membro do Davis Center For Russian Studies da Universidade Harvard.
Mais que mera biografia do escritor e jornalista Ehrenburg (1891-1967), é um estudo da política e da cultura na União Soviética, sobretudo, e na Europa do século 20. O indivíduo conta a história coletiva e vice-versa.
De cara, Rubenstein admite que Ehrenburg é um escritor enigmático, tendo participado de episódios não de todo esclarecidos tanto na Rússia quanto na Espanha (no tempo da Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939).
Ehrenburg estava por “dentro” das purgas do Grande Terror de Ióssif Stálin, na década de 1930. Era amigo de Nicolai Bukhárin e parça literário — “íntimo”, diz Rubenstein — de Óssip Mandelstam e Isaac Bábel. Os três foram vítimas do stalinismo. Ehrenburg sobreviveu.
Depois da Guerra Civil Espanhola, Ehrenburg voltou para Moscou e se tornou persona non grata. A imprensa Soviética quase não acolhia mais seus textos.
Porém, quando a Alemanha nazista de Adolf Hitler invadiu a União Soviética, em 1941, a pena de Ehrenburg foi convocada para atacá-la. Ele começou a escrever no periódico “Krásnaya Zvezdá” (“Estrela Vermelha”). “Pôde reassumir sua luta contra o fascismo, que havia começado na Espanha.”
Por que Ehrenburg sobreviveu e tantos foram perseguidos, presos ou assassinados por Stálin e sua corte? Diz-se que era “obediente” ao ditador. Rubenstein esclarece que, ao contrário do que se relatou, o escritor não denunciou seus amigos. “Não há nada de verdadeiro nas acusações” de que tenha sido cúmplice. Talvez omisso? É provável — para sobreviver. O que poderia fazer um escritor contra o deus laico da União Soviética?
Ehrenburg foi bastante usado por Stálin para atacar seus adversários políticos na Europa. Mas não seguiu o ditador nos ataques aos judeus. Judeu, Ehrenburg era um combatente do antissemitismo.
A viúva de Óssip Mandelstam, Nadezhda Mandelstam, tinha apreço por Ehrenburg. O escritor não se escondia dela; ao contrário, a acolhia.
Joshua Rubenstein esclarece bem o relacionamento de Ehrenburg com o escritor e jornalista Vasili Grossman (autor de “Vida e Destino”), também perseguido pelo stalinismo.
Depois da morte de Stálin, em 1953, Ehrenburg se tornou “a voz independente mais reconhecida da União Soviética, dedicando sua energia reputação a fomentar a reforma cultural e a liberdade de expressão”.
Depois de sua morte, Ehrenburg caiu em “desgraça” e seus livros mais importantes, como “Gentes, Anos, Vida” e “As Aventuras de Julio Jurenito e Seus Discípulos”, “não foram reeditados durante muitos anos”. O stalinismo redivivo, na era Brejnev, “proibiu a menção às suas memórias na estritamente controlada imprensa soviética”.
“O papel de Ehrenburg na preparação das bases do movimento soviético pelos direitos humanos” tem sido pouco reconhecida, assinala Rubenstein. “Com sua insistência na necessidade de reeditar as obras de escritores proibidos como Isaac Bábel, Óssip Mandelstam e Marina Tsvetáeva, estava oferecendo um modelo para a nova geração de ativistas.”
Ehrenburg morreu desgostoso pelo fato de Brejnev revogar mudanças substantivas de Nikita Kruchev.
2
Ulises — Claves de Lectura — Carlos Gamerro

Os brasileiros têm a sorte de contar com o guia de Caetano Galindo para ler o romance “Ulisses”, de James Joyce. Os argentinos não ficam atrás. “Ulises — Claves de Lectura” (Interzona, 409 páginas), de Carlos Gamerro, é excelente e detalhado.
“Apesar do que afirma, entre outros, Harold Bloom, não estou tão seguro de que a essência do fato literário radique na leitura silenciosa, no encontro do leitor solitário com o livro. Alguns livros foram feitos para serem lidos em grupo, inclusive em voz alta, e compartilhados. ‘Ulisses’ é, sem dúvida, um deles”, assinala Carlos Gamerro.
O livro resultou, com modificações, de um curso sobre “Ulisses” dado no Malba, o museu onde está o quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral.
O autor diz que o propósito do livro “é ajudar o leitor comum a acercar-se de ‘Ulisses’”.
A pergunta que comumente se faz não é “leu ‘Ulisses’, de Joyce?”, e sim “leu-o todo?”
Meio de gozação, Jorge Luis Borges dizia que não acreditava que alguém havido lido todo o romance Joyce. Ainda assim, o mais celebrado escritor argentino — que, claro, leu todo o romance, apesar da pilhéria — deu uma pista sobre a leitura adequada: só se poder conhecer uma cidade se se percorrer suas ruas. Então, todas as páginas, da primeira à última, de “Ulisses” precisam ser lidas… para a obra, no todo, ser compreendida.
Carlos Gamerro diz que, de alguma maneira, Jorge Luis Borges apresentou um método: “O ‘Ulisses’ efetivamente deve ser lido como se caminha numa cidade, inventando roteiros, passando algumas vezes pelas mesmas ruas, ignorando outras por completo”.
O autor do livro sugere que é possível ler “Ulisses” inteiro e a “missão” pode ser prazerosa. O leitor pode perder-se “em seu labirinto”, mas encontrará “ao final a saída”.
Mas leitura não é mesmo fácil, daí a necessidade de guias, como os de Galindo e Gamerra — curiosamente, os sobrenomes começam com a consoante “g”, têm sete letras e terminam com vogais. “É um romance complexo em sua escritura e também em seu intrincado sistema de alusões e referências, as histórias por exemplo.” Joyce passa a impressão de que todos seus leitores “conhecem muito bem a história da Irlanda”, o que não ocorre.
“Outra dificuldade de ‘Ulisses’ são as inumeráveis alusões e citações literárias, muitas delas não reveladas.” Há referências, não explicitadas, ao menos não claramente, a Aristóteles, Dante, William Blake, entre outros.
Dois livros são cruciais para entender as referências, diretas e indiretas, usadas por Joyce: “Allusions in Ulysses”, de Weldon Thornton, e “Ulysses Annotated”, de Don Gifford. Além de “Penguin Annotated Edition”, com notas de Declan Kiberd.
“Uma terceira dificuldade é a rede de relações e citações internas que se estabelecem no interior do próprio texto. Joyce supõe um leitor ideal com uma memória total”, postula Carlos Gamerro. Admito que compreendi (se compreendi) “Ulisses” depois da biografia clássica de Richard Ellmann, “Joyce” (publicada no Brasil, de maneira absurda, sem índice de nomes), e do livro “Homem Comum Enfim”, de Anthony Burgess. Caetano Galindo é, por assim dizer, o Ulisses, o de Homero, dos leitores brasileiros quando se trata de explicar o romance. Um guia confiável.
3
Borges y la Traducción — Sergio Waisman

Pensei que Sergio Waisman era argentino, mas, na verdade, é americano do Norte, ou seja, de Nova York. Tem 57 anos e é professor de literatura latino-americana na Universidade George Washington. É doutor pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Traduziu para o inglês livros dos argentinos Ricardo Piglia e Juana Manuela Gorriti e do boliviano Nataniel Aguirre. É também escritor.
O livro, diz Sergio Waisman na introdução, “estuda a importância da tradução na obra de Jorge Luis Borges, a importância de Borges para a teoria da tradução e a fecundidade altamente produtiva que pode resultar do cruzamento entre ambos os campos. Pode-se afirmar que no século 20 argentino não há outro escritor ou escritora para quem a tradução seja parte tão integral de sua obra. De um modo ou outro, Borges foi, em toda a sua vida, um tradutor ativo”.
Sergio Waisman assinala que as teorias de tradução de Borges são “inseparáveis das de leitura e escritura. Nos textos de borgianos traduzir e escrever são práticas quase inseparáveis de criação, de indagação hermenêutica e de reflexão estética e ética”.
“Traduzir não é só transpor um texto de um sistema linguístico a outro; também é, no mínimo, reescrever em outro sistema literário, no contexto da língua de destino”, anota o autor do livro sobre Borges tradutor e, sim, escritor.
Borges duvidava da história de que as traduções são “inferiores” aos originais. Ele “desestabiliza o conceito de texto definitivo”.
“Borges y la Traducción”, belo livro, saiu na Argentina pela Adriana Hidalgo Editora, tem 319 páginas e a tradução é de Marcelo Cohen.
4
Normandía 1944 — James Holland

Quando se pensa que já se disse tudo sobre o Dia D, a luta na Normandia dos Aliados contra as forças da Alemanha nazista de Adolf Hitler, eis que surge um livro extraordinário, “Normandía 1944 — El Día D e la Batalla Por Francia” (Ático de los Libros, 918 páginas, tradução de Joan Eloi Roca), do historiador britânico James Holland (irmão de Tom Holland), de 55 anos.
Ao comentar o livro, a editora assinala: “Muitos relatos anteriores ignoraram a escala e complexidade do esforço bélico aliado, assim como as limitações táticas, operacionais e estratégicas das forças alemães”.
“A partir de arquivos e testemunhos inéditos — de soldados rasos até generais, passando por pilotos de bombardeiros, enfermeiros ou membros da Resistência, Holland nos brinda o relato épico da campanha que” representou “o princípio do fim da guerra na Europa”.
James Holland, que escreve muito bem — escritor que é —, não trata apenas do desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944. Apresenta também “os 76 dias de duríssimos combates na França” que se seguiram.
O pesquisador nota, citando o soldado da infantaria John “JJ” Wirtmeyer, que a “maioria dos jovens” soldados “sabia muito pouco sobre seu inimigo ou sobre o que acontecia ao seu redor”.
Um dos destaques da obra é o que James Holland chama de “mecânica da guerra, o tipo de análise que estuda como é que os grupos mantêm suas operações e seus objetivos globais — sua estratégia — e combater a um nível tático do modo mais conveniente aos seus objetivos bélicos”.
Ao contrário de outros historiadores, James Holland abre amplo espaço para a economia e a logística da guerra.
Os livros de Antony Beevor e Max Hastings sobre o Dia D continuam válidos, é claro. Mas a pesquisa de James Holland acrescenta muito à história do momento em que, depois da Batalha de Kursk, em 1943 — quando a União Soviética destruiu parte substancial dos tanques alemães —, a Alemanha de Hitler acabou desmoralizada pelos Aliados.
Os excelentes mapas e fotografias bem identificadas fazem a alegria dos que apreciam o assunto, como o segundoguerrófilo Marcelo Franco.
5 — Una Espía en los Archivos Soviéticos — Sheila Fitzpatrick

A australiana Sheila Fitzpatrick é uma das mais notáveis historiadoras tanto da história da Rússia quanto da União Soviética. Seu livro “Una Espía en los Archivos Soviéticos — Memorias de la Guerra Fria em Rusia” (Siglo Veintiuno, 326 páginas, tradução de Teresa Arijón).
Trata-se de um livro de história e de memórias. Sheila Fitzpatrick escreve muito bem e o leitor pensa — ao menos fico a pensar — que se trata de uma escritora.
“Eu estudava em Oxford (serei mais específica: estava escrevendo minha tese de doutorado sobre a história soviética) quando um periódico soviético me denunciou como espiã”, relata.
O jornal soviético sugeriu que, fingindo pesquisar, a historiadora estava na União Soviética — entre 1966 e 1968 — com o objetivo de colher informações e repassá-los para os serviços secretos ocidentais. Ela seria uma “sabotadora ideológica”, o que, claro, não era. Seu interesse era mostrar o país de maneira mais aberta, sem ranço ideológico.
“A única coisa que eu queria era seguir com minha pesquisa nos arquivos e, no futuro, voltar à União Soviética para retomá-la. A pesquisa me apaixonava e a URSS me fascinava, ainda que essa fascinação não implicasse necessariamente em admiração”, conta.
Quando a diatribe foi publicada, em 1968, Sheila Fitzpatrick não ficou sabendo de imediato sobre seu conteúdo. O autor da “denúncia” pensava que S. Fitzpatrick era homem. Tão mal informado era. Quem mandou publicar: o KGB? É provável. Mas ela nunca ficou sabendo.
Mais tarde, ao ser informada sobre a “crítica” soviética, Sheila Fitzpatrick ficou horrorizada, sobretudo porque não queria renunciar ao seu objeto de estudo. Não queria perder também o contato com seus amigos de Moscou. “Éramos como soldados em tempos de guerra — desesperados para voltar à frente.”
Para pesquisar sobre a União Soviética, para entender o cotidiano do povo, não apenas das autoridades, Sheila Fitzpatrick decidiu morar no país. Queria ter uma visão ampliada de um país complexo amiúde apresentando de maneira redutora e unidimensional.
Mais do que uma denúncia dos horrores do stalinismo e do pós-stalinismo — ou quase pós-stalinismo —, o livro da pesquisadora é um mergulho no cotidiano das pessoas e sobre como é pesquisar no país de Lênin, Stálin, Mandelstam, Anna Akhmátova, Kruchev e Brejnev.

