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Galimberti — Marcelo Larraquy e Roberto Caballero

Há livros que contam histórias que, de tão impressionantes, parecem ficcionais. É o caso de “Galimberti — de Perón a Susana, de Montoneros a la CIA” (Sudamericana, 694 páginas), de Marcelo Larraquy e Roberto Caballero.

Rodolfo Galimberti é real, não é inventado. Mas, se dissessem que é personagem de literatura, eu não duvidaria. Trata-se de um indivíduo múltiplo, daqueles que são, diria Mário de Andrade, trezentos e cincoenta.

Ligado a Domingo Juan Perón, Galimberti “liderou a Juventude Peronista, mobilizou as massas, se converteu em chefe montonero [organização guerrilheira de esquerda], sequestrou os irmãos Born”.

Galimberti “ficou dezesseis anos na clandestinidade, combateu para a OLP em Beirute, e se tornou amigo dos torturadores da Esma [da Marinha], seduziu a oligarquia, se associou com Born, com a estrela de televisão Susana Giménez e com agentes da CIA”.

Galimberti Foto Euler de França Belém 2025

A Editora afirma que Galimberti é um personagem “inverossímil”. O “camaleão”, de alguma maneira, “condensa em uma vida todos os paradoxos de duas épocas aparentemente irreconciliáveis: o ideal socialista dos 1970 com o neoliberalismo dos 1990”.

O historiador Marcelo Larraquy e o jornalista Roberto Caballero contam, a partir da romanesca mas lógica vida de Galimberti, a história da Argentina e sua conexão com o mundo, ao menos de quatro décadas.

“Homem de ação, carismático e paranoico. Adorado e reprovado por seus companheiros, seus inimigos temiam e admiravam seu arrojo. Entre o heroísmo e a infâmia, El Loco, como o chamavam com fascinação, foi um dos agentes mais audazes e temerários” do período narrado pelos pesquisadores.

“Sua vida extrema e absolutamente singular, com suas contradições, suas virtudes e suas misérias, é uma ferramenta única para compreender o salto das ilusões revolucionárias ao pragmatismo capitalista”, afirma a editora.

A biografia é tratada na Argentina como “exemplar” e “monumental”. Comprei por indicação do livreiro-chefe da Librería e Editorial Losada, com o qual converso, por longo tempo, sempre que visito Buenos Aires.

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Mi Niñera de la KGB — Laura Ramos

Atenção: a história que se vai contar a seguir, de maneira sintética, é 100% verdadeira. Mas vai parecer ficção — de tão rocambolesca e surreal que é.

A escritora e pesquisadora portenha Laura Ramos conta a história incrível da espanhola África de las Heras, que, em 1937, foi cooptada pelos serviços secretos da União Soviética de Ióssif Stálin.

África de las Heras pertenceu ao esquadrão de elite do KGB. Era uma agente internacional. (Apesar do título em espanhol, que diz a KGB, optei por, no meu texto, usar “o KGB”. Por que o “K” significa Comitê, portanto clama pelo artigo “o”.)

Ativíssima, África de las Heras atirou-se de paraquedas na retaguarda das forças armadas da Alemanha nazista na Ucrânia.

Laura Ramos capa de Mi Niñera de la KGB Foto Euler de França Belém 2025

No México, em 1940, participou do assassinato de Liev Trótski, como colaboradora de outro espanhol, Ramón Mercader.

Para instalar um centro do KGB em Montevidéu, com uma estação de rádio, África de Las Heras casou-se com o escritor uruguaio Felisberto Hernández. Não havia nada de romantismo. A espiã queria apenas obter a cidadania uruguaia.

Filha de intelectuais e políticos trotskistas argentinos, a menina Laura Ramos morava com os pais em Montevidéu.

Na época, África de la Heras se apresentava como a modista María Luisa de las Heras. Era uma mulher afável e generosa. Sem pedir nada em troca, cuidava dos meninos da família Ramos. Era uma espécie de babá informal.

A casa caiu quando, em 1994, um dos homens do KGB, Pável Sudoplátov abriu o bico sobre “a espanhola mais condecorada pelo Politburo”. Era amiga de Ramón Mercador, o assassino de Trótski. Talvez sua amante.

Ao descobrir a identidade de sua “babá”, Laura Ramos inicia uma pesquisa em vários lugares, como África, Ceuta, Barcelona, México, Havana (onde morou Ramón Mercader), Cambridge e Montevidéu.

No Uruguai, Laura Ramos encontrou a família que África de las Heras cooptou para os comunistas soviéticos. Como se diz em Hollywood, é uma história de cinema. Tão surreal que parece fictícia. Nem mesmo John Le Carré conseguiria inventá-la.

O excelente livro se tornou best-seller, rapidamente, e é comercializado em todas as livrarias de Buenos Aires e Rosario. Uma livreira da El Ateneo de Rosario, quando comprei “Las Senhoritas — História de las Maestras Estadounidenses que Sarmiento Trajo a la Argentina em el Siglo XIX” (Lumen, 381 páginas), recomendou-me vivamente “Mi Niñera de la KGB”. “É muito bom e está vendendo bem.”

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El Jardín de Rosas — Maeve Brennan

A escritora e jornalista irlandesa Maeve Brennan (1917-1993) não tem nenhum livro publicado no Brasil. Até há algum tempo, era praticamente desconhecida inclusive na Irlanda. Nos Estados Unidos, é lida — e objeto de culto literário. Na Argentina, circulam pelo menos três livros de sua autoria, com apresentação adequada.

“El Jardín de Rosas” (Eterna Cadencia, 380 páginas, tradução de Jorge Fondebrider) saiu em setembro deste ano em Buenos Aires.

Maeve Brennan escreveu a coluna “The Talk of the Town” (Fondebrider traduz: “O que se anda dizendo”) na “New Yorker”. A revista também publicou alguns de seus contos — “de matizes autobiográficos, ambientados na Dublin de sua infância, na classe alta nova-iorquina ou em uma casa de praia em East Hampton, seguindo as peripécias de sua cachorra e seus gatos”, assinala Fondebrider, no instrutivo prólogo.

Maeve Brennan capa de livro El Jardín de Rosas

O pai de Maeve Brennan era político e foi embaixador da Irlanda nos Estados Unidos. Sua biógrafa, Angela Bourke, sublinha que a vida em Dublin deixou uma marca profunda na futura escritora.

“As descrições meticulosamente detalhadas da vida cotidiana na casa e no jardim de Ranelagh na obra de Brennan representam seu constante distanciamento dos problemas políticos e públicos que dominaram sua infância [seu pai era militante político e às vezes precisava se esconder para não ser preso]. Junto com contos ambientados no Wexford rural e urbano, oferecem retratos únicos dos interiores e da vida doméstica da classe média irlandesa. No entanto, sua obra vai muito além do local para evocar a textura e os detalhes das relações íntimas insatisfatórias, e mostra mulheres e homens solitários que negociam o espaço privado e público”, diz Bourke.

O chefão William Shawn convidou Maeve Brenan para escrever na “New Yorker”. O conto “The holy terror” (“O terror sagrado”) conquistou a redação da revista. O editor William Maxwell passou a publicar seus contos regularmente.

Heather Ingman escreveu: “No exílio [voluntário], Brennan, como Joyce, recriou sem cessar as mesquinhas limitações sociais e o descontentamento espiritual da Dublin dos anos 1920 em que havia crescido”.

Kathleen Hill assinalou: “Exilada cuja imaginação nunca abandonou sua terra natal, Maeve Brennan se encontrava em trânsito perpétuo. Não elegeu imigrar, mas, com o tempo, o fez. Não teria abandonado a Irlanda aos 17 anos se os pais lhes tivessem dado opção. Porém, na idade adulta, não regressou”.

No livro “The Visitor”, Maeve Brennan escreveu: “O lar [talvez a pátria, o lugar do nascimento] é um lugar na mente. Quando está vazio, inquieta. Inquieta com a recordação, os rostos, lugares e tempos passados. Desobedientes, surgem as imagens queridas e refletem o vazio”.

John Updike publicou na revista “The Atlantic” sobre Maeve Brennan: “Está constantemente alerta, com o olhar penetrante de um pardal, de olho nas migalhas deixadas pelos humanos, o ouvido, o vislumbrado e o adivinhado, que constituem a diversão mais econômica do solitário habitante da cidade”.

O dramaturgo Edward Albee comparou Maeve Brennan com Flaubert e Tchékhov. Mavis Gallant, Alice Munro e Edna O’Brien figuram entre os admiradores da prosa da irlandesa.

O primeiro volume de contos da escritora, “In and Out Never Land”, inclui vinte textos. “Christmas Eve” contém treze contos. Os textos publicados na “New Yorker” saíram no livro “The Long-Winded Lady: Notes From The New Yorker”.

Em castellano podem ser encontrados: “De Visita” (uma novela, ou romance curto), “Crónicas de Nueva York” e “Las Fuentes del Afecto: Cuentos Dublineses”.

“De Dublín a Nueva York” inclui os contos dos dois últimos títulos citados acima.

“El Jardín de Rosas” reúne “os contos publicados em 1969 e novos materiais posteriormente encontrados”, diz Jorge Fondebrider. O tradutor adverte o leitor: “Nenhum dos livros de Brennan foi organicamente estruturado por ela, e sim por seus vários editores”.

Maeve Brennan se tornou alcoólatra e morreu pobre num asilo.

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