Faltam 301 dias para acabar o ano. Lá pelos meus onze ou doze anos (1969/70), consegui uma ocupação para ganhar uns trocados e poder pagar um cineminha no final de semana. Tornei-me vendedor de jornal em Goiás Velho, de rua em rua, de porta em porta. Valia a pena cansar as pernas. As matinês do cinema eram bem animadas nesse tempo. Tinha a Cruz do Anhanguera na frente do cinema e na porta um monte de garotos e garotas esperando a hora de entrar. Alguns trocavam figurinhas e gibis, outros apenas domavam a ansiedade conversando alto. Um bando de maritacas.

O Cinco de Março era um dos que eu vendia. Um de seus fundadores foi Batista Custódio, que assim o nomeou para marcar a data em que o governador José Feliciano Ferreira mandou a Polícia Militar reprimir uma passeata estudantil na Praça do Bandeirantes. O jornal circulou até 1980. O dia 5 de março traz também outro fato importante para a imprensa goiana. Nesse dia, em 1830, circulou o primeiro exemplar do Jornal Matutina Meiapontense, em Meia Ponte, antigo nome de Pirenópolis, inaugurando o jornalismo impresso no Centro-Oeste. A palavra tem poder e o poder faz uso dela com muita propriedade.

O poder tem bastante familiaridade com o dia 5 de março. Grandes líderes nasceram e morreram nesse dia. Ele marca o nascimento, em 1871, de Rosa Luxemburgo, economista e filósofa polonesa-alemã. Rosa foi militante socialista e incomodou tanto a direita, o que é um tanto óbvio, como setores mais autoritários da esquerda. Ela editou e contribuiu com importantes jornais, sendo o último deles o jornal da Liga Espartaquista. Acreditava na imprensa como espaço de disputa ideológica e educação política na construção de futuros possíveis. A tintura da esperança nas engrenagens das rotativas.

Dois líderes carismáticos morreram num dia 5 de março. Joseph Stalin e Hugo Chavez. O Presidente venezuelano morreu em 2013 e, ainda hoje, polariza as atenções. Nos seus 14 anos de poder transformou a comunicação em força legitimadora de um projeto político – convenhamos que isso é regra básica de todo projeto dominante. Stalin morreu numa quinta-feira, no final do inverno moscovita em 1953. Foi diretor do Pravda, jornal do Partido Bolchevique que se tornaria um dos principais veículos de propaganda política do movimento comunista russo.

A imprensa tem poder. Alguns afirmam ser ela o poder em si ou, no mínimo, o quarto poder. Em sendo assim, as narrativas vão sendo construídas de acordo com vontades políticas de todas as cores. É parte do jogo.

Mas nem só de política e jornais vive o 5 de março. Nesse dia, em 1909, chegou poeta ao mundo Patativa do Assaré, no interior do Ceará. Uma época em que, principalmente no sertão, a palavra ainda precisava ser dita em voz alta para existir. Na força da oralidade, mostrou o poder de uma obra poética emplumada na experiência direta do povo nordestino. Com uma nova/velha estética que voou para além do sertão e chegou aos círculos acadêmicos.

Patativa é também nome de um pequeno pássaro do sertão, assim como uirapuru é outra ave, amazônica, cercada de lendas e mistérios. Patativa é poesia, uirapuru é música. Foi Heitor Villa-Lobos quem transformou o canto do Uirapuru em partitura. Ele, também nascido em 5 de março, fez desse canto um poema sinfônico. A lenda do índio transformado em pássaro convertida em um poderoso discurso sonoro.

Quem escreve o passado, quem narra o presente, constrói o futuro. Que discurso estará nos jornais digitais de amanhã? Já não há garotos levando notícias de porta em porta. Agora são garotos-algoritmos. O 5 de março continuará produzindo manchetes enquanto contarmos o tempo. Líderes nascerão e morrerão. Ainda assim, a poesia do canto dos pássaros seguirá voando contra a corrente, inspirando novas viradas de página.