24 de fevereiro: dia de inverter o disco e ouvir a flauta antifascista
24 fevereiro 2026 às 17h06

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Faltam 310 dias para acabar o ano. Devo confessar uma coisa para você: meu final de ano de 2025 foi um delírio de coisas do outro mundo. Mais precisamente de um tal “mundo invertido”. O nosso mundo, só que diferente, distorcido, manipulado, ainda mais distópico que o nosso. Sei, sei. A culpa foi minha.
Em 2016 fui abduzido por uma série de televisão sobre uns meninos que jogavam RPG, andavam de bicicleta e se tornaram amigos de uma garotinha encontrada na floresta, dona de poderes maneiros e de um discreto filete de sangue escorrendo pela narina esquerda sempre que os usava. Sim, Stranger Things.
Pois então, depois de quase dez anos, resolveram encerrar a série e mostrar os confrontos finais com os seres que queriam dominar tudo, justamente no Natal e na virada do ano. Lógico que acompanhei, um olho na tela e outro no pernil. No fim, o mal perdeu. A humanidade foi salva, com drama, sacrifício e boas doses de Role-Playing Game.
E você sabe qual é o dia nacional do RPG? 24 de fevereiro. Um jogo de escolhas onde cada pessoa decide como seu personagem pensa, fala e age, sem roteiro fechado. A história é coletiva e se constrói a partir dessas decisões. Parece legal, não é? Poder escolher onde encontrar os amigos, tomar uma cervejinha e fundar um partido, por exemplo.
Foi exatamente isso que o Adolfinho fez em 24 de fevereiro de 1920. Chamou uns manos, foram para uma cervejaria em Munique, na Alemanha, e fundaram o Partido Nazista. “Heil!”, ensaiaram depois de uns goles, a saudação que o mundo aprenderia a temer. “Ah, mas isso foi há mais de cem anos, o mundo e as pessoas melhoraram”, alguém pode dizer. Melhoraram? Só se for no mundo invertido de Hawkins, a cidade onde se passa a série que assisti.
Corra os olhos pelo mundo, ouça o que as pessoas comentam sem mais pudor. O cenário não é tranquilizador. Descontentamento popular, desinformação em escala industrial, ataque às instituições democráticas, negacionismo científico, racismo, xenofobia, nacionalismo extremo e um retorno aos velhos ideais fascistas.
Não tem RPG que dê conta. E pensar que foi num 24 de fevereiro que as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar, com a promulgação do Código Eleitoral de 1932. Tardiamente, diga-se de passagem. Não foi um presente. Foi sim uma conquista arrancada de um sistema onde a política era um território “naturalmente” masculino.
A filósofa, teórica e escritora estadunidense Judith Butler, que também nasceu num 24 de fevereiro, viveu a vida inteira explicando isso: as regras não são naturais, são construídas; os papéis não são destino, são repetição forçada. O voto feminino, naquele momento, foi uma reescrita do roteiro. Uma prova de que o jogo muda quando alguém se recusa a jogar o papel que lhe foi imposto.
Talvez por isso faça tanto sentido lembrar que Wilhelm Grimm, o mais novo dos irmãos Grimm, também nasceu num 24 de fevereiro. As histórias populares coletadas e divulgadas por eles ainda reverberam e alertam para questões não superadas e que, hoje mais do que nunca, parecem saltar aos nossos olhos.
Senão vejamos. Branca de Neve, onde a beleza vira valor social e quem ameaça o padrão deve desaparecer. Cinderela, que apresenta o casamento como salvação e mobilidade social. Ou Chapeuzinho Vermelho, em que a desobediência, a sexualidade velada e o desvio do caminho esperado têm um custo alto.
Por fim, e não menos perturbadora, há a história do Flautista de Hamelin. Uma cidade infestada de ratos contrata um sujeito para pôr fim à praga. Ele toca sua flauta e resolve o problema, mas, na hora do pagamento, o acordo não é cumprido. Irado, volta a tocar, agora encantando as crianças, que o seguem e desaparecem. A cidade se livra dos ratos, mas perde o futuro.
Aí é que está a questão: é preciso muito cuidado com quem domina a flauta no tom exato que certos ouvidos querem escutar. Quem estava tocando a flauta naquela cervejaria em Munique? Muitos são os flautistas do caos espalhados pelo mundo hoje. Eles próprios se tornaram a praga, encantando crianças que amanhã nos caçarão como ratos, convencidas de que apenas seguiram as regras do jogo.

