20 de março e as cartas abertas ao futuro
20 março 2026 às 08h00

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Faltam 286 dias para acabar o ano. 20 de março é o Dia do Contador de Histórias. E ele próprio tem muita história para contar. Não é um dia qualquer no calendário. Tem mais memória que horas. Um dia rico em acontecimentos, sempre mandando mensagens para o futuro. Coisas que guarda na memória, fatos de outros tempos, lembranças que insistem em não ficar quietas.
Contar histórias é também um jeito de sobreviver ao tempo e, quem sabe, ser feliz. Não por acaso, 20 de março é também o Dia Internacional da Felicidade, segundo a Organização das Nações Unidas. A origem dessa ideia é curiosa. Foi proposta pelo Butão, um pequeno país do sul da Ásia, que ficou conhecido por adotar o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB). A ideia é medir o sucesso de um país não apenas pelo dinheiro que circula, mas pela vida que se vive.

Mas todos são felizes no Butão? Não sei dizer. Ao menos as árvores parecem que são. Dizem que lá existe uma lei determinando que no mínimo 60% do território deve permanecer coberto por florestas. Árvores como patrimônio nacional. Madeireiros e garimpeiros que são felizes aqui, lá provavelmente não seriam. A felicidade do tamanduá não é a mesma da formiga. Nem a da floresta e seus habitantes é a mesma do mercado. Viu como o conceito de felicidade é relativo?
Relatividade, Einstein, 20 de março. Foi nesse dia, em 1915, que Albert Einstein publicou a sua Teoria da Relatividade Geral. Um dia feliz para a ciência. Não vou tentar explicar aqui essa teoria. Ela é demais para mim. O espaço-tempo se dobra sob o peso da minha ignorância.
Dias felizes existem. Quer saber de um desses dias para a cidade de São Paulo e as artes? O dia em que inauguraram o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, na Avenida Paulista. Foi uma festança, com direito à presença da Rainha Elizabeth II do Reino Unido, que estava em visita ao Brasil. Sentiu o peso? O MASP entrou nessa nossa história e a responsável pelo projeto icônico do museu suspenso no ar foi a arquiteta Lina Bo Bardi, que morreu num dia 20 de março.

A inauguração do museu foi em 1968, em plena ditadura civil-militar. Como sabemos, o golpe de Estado que derrubou João Goulart se consumou no dia 31 de março de 1964. Mas as coisas não acontecem do nada, assim, por encantamento. Golpes não brotam da noite para o dia. São longamente preparados, discursados, ensaiados. Lembra do 8 de janeiro de 2023? Aquilo não foi combustão espontânea, não é mesmo? Em 1964 foi tal e qual.
No dia 20 de março, onze dias antes do golpe e uma semana depois do grandioso Comício da Central do Brasil, o presidente estadunidense Lyndon Johnson autorizou a formação de uma força naval para intervir na crise brasileira, “caso isso viesse a parecer necessário.” Está lá, documentado, em A Ditadura Envergonhada de Hélio Gaspari. Tudo já estava em marcha, mesmo que ainda não fosse visível para todos.
Você deve estar me achando chato, falando coisas que talvez você já saiba, mas é que fico empolgado com essas conexões aleatórias. Ao longo dessas décadas todas, quantas manifestações o MASP viu passar diante de sua porta? O museu transformou-se, com o tempo, em um dos endereços simbólicos da democracia brasileira, na sua ânsia permanente de se fazer concreta. Toda manifestação que passa pela Avenida Paulista passa pelo museu, como se ali fosse despachar uma carta aberta, para que todos tomem conhecimento do que se defende, ou do que se ataca.
Carta aberta, aliás, é um gênero textual muito usado quando se quer tornar pública uma opinião, individual ou coletiva. Costuma carregar um sentimento de protesto, denúncia ou questionamento. É uma carta despachada para toda a sociedade, ou para parte dela, e que, a rigor, não espera resposta privada. Muitas ficaram famosas. O que dizer de “Eu acuso”, publicada por Émile Zola em 1898, denunciando a injustiça cometida contra Alfred Dreyfus? Ou a Carta-testamento de Getúlio Vargas (1954), dirigida ao povo brasileiro e lida após seu suicídio? E como não lembrar da “Carta ao Povo Brasileiro” (2002), que, segundo alguns analistas, ajudou a garantir a eleição de Lula? Era endereçada ao povo, mas dialogava claramente com o mercado financeiro e setores conservadores da sociedade.
Foi-se o tempo em que a expressão “despachar uma carta” era facilmente compreendida. Temo que muitos adolescentes de hoje não façam ideia de como era falar com outra pessoa, de outra cidade, quando telefones individuais ainda não eram uma possibilidade. Falava-se por carta, como não? Escrevia-se à mão – alguns recorriam a máquinas de datilografia -, colocava-se o papel no envelope, despachava-se e esperava-se a resposta. A espera fazia parte da conversa. Para isso existia o Departamento de Correios e Telégrafos, uma espécie de WhatsApp da época. Em 20 de março de 1969, ele foi substituído pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Os Correios, como os conhecemos.
Todas as histórias que esse dia conta dariam um filme. Afinal, cinema também é uma forma de contar histórias. De imediato me ocorre indicar um diretor, nascido em um 20 de março, para dirigir esse filme. Alguém que construiu sua carreira no cinema independente e nunca se esquivou do conflito. Se ele topar a nossa proposta (já é nossa, tá vendo?), vai mostrar ao mundo que as datas não são neutras, que carregam lembranças, cicatrizes, disputas e até bons momentos de felicidade. Acredito que esse cineasta saberá nos lembrar que, mais do que contar histórias, é fundamental saber de que lado da história estamos. Que diretor é esse? Spike Lee.
Quem estiver de acordo com a escolha, permaneça como está.

