Há três anos, o Brasil assistia a uma cena que jamais deveria ter entrado para sua história democrática. Em 8 de janeiro de 2023, uma multidão radicalizada invadiu e depredou o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Não foi protesto. Não foi excesso retórico. Foi tentativa de golpe de Estado.

Três anos depois, ainda há quem insista em chamar aquilo de “manifestação”, “ato político” ou “reação emocional”. Essa tentativa de suavizar o ocorrido não é ingenuidade, é estratégia. Porque golpes fracassados só sobrevivem quando são recontados como mal-entendidos.

Nada do que aconteceu naquele domingo foi espontâneo. Houve financiamento, logística, acampamentos, transporte organizado e uma narrativa construída ao longo de meses para desacreditar o processo eleitoral e as instituições. O 8 de janeiro foi o ponto de explosão de um discurso que vinha sendo alimentado diariamente, inclusive a partir do Palácio do Planalto, durante o governo de Jair Bolsonaro.

Não se invade a sede dos Três Poderes por impulso. Não se pede intervenção militar por acaso. Não se destrói patrimônio público em nome da democracia. Aquilo foi uma tentativa deliberada de romper a ordem constitucional porque o resultado das urnas não agradou.

Ainda assim, três anos depois, o Brasil segue dividido entre quem entende a gravidade do episódio e quem tenta reduzi-lo a uma nota de rodapé da história. A narrativa da “vovó com Bíblia”, do “cidadão comum enganado”, do “exagero do Judiciário” não surge do nada. Ela serve para um propósito claro: criar terreno político e moral para a impunidade.

E aqui está o ponto central que muitos evitam enfrentar: não há democracia possível quando a tentativa de destruí-la é tratada com condescendência.

Responsabilizar não é vingança. É prevenção. É sinalizar, para o presente e para o futuro, que a regra do jogo não muda quando alguém perde. Que inconformismo eleitoral não autoriza violência institucional. Que a Constituição não é descartável.

O debate sobre penas, dosimetria e individualização é legítimo no campo jurídico. O que não é aceitável é transformar esse debate em anistia disfarçada. Projetos e discursos que buscam “virar a página” sem justiça não defendem a democracia, apenas preparam o próximo ataque.

O 8 de janeiro também expôs algo ainda mais incômodo: uma parcela da sociedade disposta a abrir mão do regime democrático desde que o autoritarismo venha com a sua bandeira. Não é sobre direita ou esquerda. É sobre aceitar ou não as regras básicas da convivência democrática.

Três anos depois, o Brasil não pode cair na armadilha do esquecimento conveniente. Golpes não se repetem apenas pela força de quem tenta executá-los, mas pela tolerância de quem relativiza. A história mostra isso de forma cruel e recorrente.

O 8 de janeiro não foi um acidente, não foi um surto coletivo e não foi um detalhe. Foi um ataque direto à democracia. E democracias que não defendem a própria memória acabam abrindo espaço para que o passado volte, mais organizado, mais violento e menos improvisado.

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