O apresentador Ratinho proferiu falas transfóbicas durante seu programa em uma emissora de televisão aberta do Brasil. Uma TV que garantiu espaços na grade de programação para pessoas transsexuais, transformistas, drag queens e comunidade LGBTQIAP+. As meninas de Silvio Santos eram frequentes nos programas de auditório do dono do Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT.

A transgeneridade na televisão aberta foi liderada pelo apresentador Silvio Santos a partir dos anos de 1980 e “essas figuras tidas por exóticas confundiam os telespectadores…com suas performances
e corpos que já existiam na transgeneridade” (SOUSA NETO, 2023, p. 264). Doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Neto aponta que essas mulheres, ou mesmo as transformistas, “estão na marginalização abjeta, até que possa ser útil ao entretenimento”, o que acaba por gerar um ilusório teor completo de representatividade ou equidade.

O SBT projetou no palco do Show de Calouros luxuosas travestis, transformistas e transexuais, ainda que não fossem novidade.

As gerações a partir de 1996 viam, pelo Show de Calouros, já na grade de atrações da emissora, as transformistas. Por óbvio, tendo em vista o contexto social do auge dos anos 90, a imprensa e, consequentemente, a televisão retratavam essas pessoas “numa espécie de separação das identidades”.

O comentário ofensivo disparado contra a deputada federal Érika Hilton refletido pelo apresentador do Programa do Ratinho, no entanto, retrata o comportamento histórico da mídia espelhado aos vislumbres e expectativas da sociedade conservadora brasileira. No ano de 1953, segundo Sousa Neto, a Revista Manchete trouxe nas legendas de duas fotos duas travestis, mas sendo apresentados no gênero masculino. Bem como fez Silvio Santos ao longo de anos de carreira, mas não vou me alongar.

As performances na televisão aberta deram espaço para serem inqueridas e para defender com astúcias as suas vivências e identidades, embora também tenham legitimado o interesse da emissora no espetáculo. “Quando as subalternas falam ao microfone de Silvio Santos, elas buscam suprir demandas representativas para além da exposição midiática, pois, quer sofram impossibilidades de serem ouvidas ou lidas sem a mediação reguladora (SPIVAK, 2014, p. 160), ou captadas por receptores mais sensíveis no sentido político (MOMBAÇA, 2015), elas reverberaram contra o silenciamento.

É legítimo, portanto, o espaço ocupado no comando da Comissão das Mulheres da Câmara dos Deputados por Érika Hilton. Vejam: o estado brasileiro reconhece a transexualidade por meio de normas e políticas públicas na área da saúde. Em 1997, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou, por meio da Resolução nº 1.482/1997, a realização de cirurgias de redesignação sexual em caráter experimental no Brasil.

Embora o Brasil ainda não possua uma lei específica de identidade de gênero (como ocorre na Argentina ou no Uruguai), o sistema jurídico brasileiro passou a reconhecer a identidade de gênero como direito fundamental.

Portanto, o que se pode concluir é que os episódios de transfobia da mídia revela não apenas conflitos culturais, mas também a transformação das estruturas sociais brasileiras.

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