Quem pode suceder Bolsonaro quando a herança política virou um fardo?
06 janeiro 2026 às 19h24

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A escolha de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência em 2026 não é um gesto de força. É um atestado de esgotamento. O bolsonarismo, que se apresentou como movimento antissistema, termina sua primeira grande experiência de poder exatamente como aquilo que dizia combater: uma dinastia familiar sem quadros, sem projeto e sem sucessão real.
Com Jair Bolsonaro preso e politicamente neutralizado, a pergunta deixou de ser “quem lidera a direita” e passou a ser mais constrangedora: há alguém minimamente preparado dentro do próprio clã Bolsonaro para ocupar esse espaço? A resposta, olhando os fatos, é dura. O bolsonarismo apostou tudo na família — e perdeu.
Os filhos como espelho do fracasso
Eduardo Bolsonaro, que por anos foi tratado como “embaixador informal” do movimento, encerrou a carreira parlamentar de forma vexatória: mandato cassado por excesso de faltas, atuação política feita do exterior e agora a condição de réu no Supremo Tribunal Federal, com risco real de inelegibilidade. Não é perseguição. É consequência. Um deputado que tenta exercer o mandato à distância, ignorando regras básicas do Parlamento, não foi vítima do sistema — foi engolido pela própria irresponsabilidade.
Carlos Bolsonaro simboliza outro problema: o da política reduzida a intriga permanente. Incapaz de construir pontes, de dialogar ou de liderar qualquer coisa além de conflitos digitais, Carlos transformou a comunicação do bolsonarismo em um campo minado. Nem mesmo naquilo que supostamente dominava — as redes sociais — conseguiu entregar estabilidade. Criou crises, queimou aliados e ajudou a isolar o próprio pai. Estratégia, ali, nunca existiu; só reação e ressentimento.
Jair Renan Bolsonaro é o retrato mais evidente da aposta no sobrenome em vez da substância. Sua eleição municipal não resolveu o principal problema: a ausência de densidade política, clareza programática e capacidade de articulação. A política exige mais do que presença em palanque — exige formulação, discurso consistente e liderança reconhecida fora do círculo familiar. Até agora, isso não apareceu.
Flávio: o herdeiro por eliminação
Sobra, então, Flávio Bolsonaro. Não por virtude extraordinária, mas por exclusão. Flávio é o menos explosivo, o menos caótico, o menos conflituoso — e isso, dentro do bolsonarismo, já virou qualidade. Mas ser “o menos problemático” não equivale a ser líder nacional.
Flávio não empolga, não mobiliza além da base fiel e não constrói maioria. Seus números eleitorais mostram desempenho restrito e dificuldade de diálogo com o centro político, com o mercado e até com aliados tradicionais da direita. A reação fria do Centrão e do setor econômico à sua candidatura não é ideológica; é pragmática. Eles não veem ali alguém capaz de vencer ou governar.
O silêncio que diz tudo
Enquanto isso, Michelle Bolsonaro flutua como alternativa informal, sustentada por apelo religioso e popularidade episódica. Mas sem partido sólido, sem base parlamentar e sem experiência executiva, sua presença apenas reforça a impressão de improviso permanente.
É impossível ignorar o simbolismo de um movimento que sempre exaltou força, virilidade e autoridade terminar sem espaço para mulheres — inclusive depois de episódios públicos em que o próprio Jair Bolsonaro tratou o nascimento da filha Laura de forma depreciativa. O bolsonarismo colhe, hoje, o que plantou: um projeto fechado, personalista e incapaz de se renovar.
O bolsonarismo sem Bolsonaro
A insistência numa sucessão familiar não é apenas um erro político; é uma confissão de fracasso. Jair Bolsonaro não formou sucessores, não construiu um partido forte, não deixou um programa claro. Deixou filhos dependentes do sobrenome e um movimento refém do passado.
Em 2026, a direita brasileira enfrenta uma escolha incômoda: continuar orbitando uma família politicamente esgotada ou aceitar que o bolsonarismo, como projeto de poder, não sobrevive sem Bolsonaro no centro.
Sobrará o slogan, o ressentimento e a nostalgia — mas isso já não vence eleição nacional.

