O incômodo não é a opinião dos jovens, é o fato de eles terem voz
10 fevereiro 2026 às 12h37

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Basta um jovem se posicionar politicamente para que o roteiro se repita: alguém mais velho afirma que ele ainda não entende, que lhe falta vivência e que um dia irá mudar de ideia. O debate termina ali, não por falta de argumentos, mas por hierarquia etária.
A idade passa a funcionar como uma espécie de carimbo: invalida, encerra, silencia. Não importa o conteúdo da fala, a reflexão apresentada ou a coerência do posicionamento. Quando vem de alguém jovem, a opinião é tratada como provisória, impulsiva ou mal informada, mesmo quando não é.
Esse fenômeno nem sempre precisa de bandeira partidária ou discurso explícito. Em 2025, o cantor americano Zach Bryan, aos 29 anos, foi alvo de críticas ao inserir em sua música e em teasers de novo material críticas à política anti-imigração dos Estados Unidos, especialmente à atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Embora sua mensagem fosse direta e pessoal, parte de seus seguidores e comentaristas reagiu com rejeição, chegando a interpretar sua postura como “inadequada” para um artista de seu gênero e posição no mercado.
Não se trata aqui de apoiar ou condenar qualquer ideia política em si mas de perceber que, quando alguém fora do circuito tradicional da política resolve opinar, a reação quase sempre busca deslegitimar o mensageiro em vez de debater a mensagem. E isso acontece mesmo quando o artista já possui carreira consolidada e uma base de fãs expressiva.
A sociedade tem facilidade em aplaudir a juventude enquanto promessa de futuro, mas se enrola quando essa mesma juventude resolve fazer barulho no presente. Jovens são convidados a pensar, mas não a influenciar, são chamados a sonhar, mas não a decidir. Eles são incentivados a ocupar espaços desde que se mantenham dentro das linhas invisíveis do “respeitável” e “aceitável”.
Os números ajudam a desmontar o mito de desinteresse ou apatia. Uma das pesquisas mais recentes sobre juventude no Brasil, chamada Juventudes: Um Desafio Pendente, mostra que os jovens, não apenas consideram a política importante como 54% afirmam isso, como também sinalizam diferentes formas de engajamento além do voto formal. Outros 45% mencionam participação em mobilizações de rua e outras ações diretas, já 44% citam atuação em coletivos organizados em torno de causas e 34% falam em se posicionar e cobrar nas redes sociais como formas de atuação política significativa. Esses dados revelam que os jovens estão, sim, presentes no debate político, ainda que nem sempre sejam levados a sério quando o fazem.
Aqui no Brasil, essa dinâmica aparece nas reações a artistas que ousam falar de política ou sociedade, nas redes sociais, nas conversas familiares e nas críticas automáticas que reduzem qualquer posicionamento jovem à “fase”, “modinha” ou “falta de experiência”. Muitos chegam a se sentir intimidados, inferiorizados por apenas ter uma opinião divergente. E convenhamos, não é porque o mais velho já viveu mais tempo que a opinião dele deve ser levada como verdade absoluta. Afinal, somos seres capazes de formar opiniões e livres para concordar e discordar quando bem entendermos.
No fim, o que se chama de “falta de maturidade” muitas vezes é apenas discordância mal digerida. A idade vira muleta argumentativa quando já não há disposição para escutar. Questionar um jovem ou quem fala algo fora do script é saudável, silenciá-lo, não. Mas é exatamente isso que se repete quando o debate é encerrado antes mesmo de começar, sob o pretexto de que “o tempo vai ensinar”.
Faltou dizer que experiência não substitui argumento, e idade não garante lucidez. A juventude não quer tomar o lugar de ninguém quer apenas o direito de ocupar o próprio. Faltou dizer que o problema nunca foi o jovem falar cedo demais, mas o costume de ouvir tarde demais. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente se incomoda quando a promessa vira voz.
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