O Cristo do Brasileiro é o Povo Negro
12 fevereiro 2026 às 16h18

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Tiago Vechi
Somos ensinados a odiar, a temer, a viver divididos. Muitas vezes pela percepção que somos ilhas em separados, como se não dependêssemos uns dos outros para existir. Porém, paradoxalmente à medida que aumenta o individualismo e a tecnologia avança também precisamos confiar cada vez mais uns nos outros, uma confiança cega no sistema que haverá comida no mercado amanhã, que a energia chegará na minha casa a cada instante, que terei água para banhar e beber todos os dias. Esta esperança, na maioria das vezes, se vê atendida, mas por vezes é feita de tola.
Confiamos também na veracidade daquilo que nos é ensinado nas escolas, em casa, nas igrejas e nas telas, entretanto muito se tem pecado quando refletimos sobre nossas origens. A grandeza do nosso tempo tem cegado nossos olhos quando o assunto é as conquistas dos nossos antepassados, todas as sociedades acreditaram ser o último estágio da humanidade e inventaram memórias sobre suas origens. O ensino sobre nossa história, principalmente como brasileiros, nos é negligenciado, escondido, guardado debaixo de sete chaves, mas é preciso lembrar: só se esconde o que é precioso.
Precisamos conhecer nossos herois e heroínas, que muitas vezes não tem nome. Essa reflexão me tomou coração e mente quando fui convidado a participar de um encontro do Movimento Negro organizado pela CONEN, sendo um homem branco. Eu que tantas vezes me vi dominado pelo racismo, contaminado pelo ódio, envenenado pela ignorância, tive, no amor de irmãos e irmãs que ainda não me conhecem, a cura. Eu que, até então, só havia oferecido podridão, recebi o amor.
Ao ver uma senhora com cerca dos seus 70 anos ser convidada para o meio de uma roda de samba receber os agradecimentos pelos cuidados e trabalhos que ofereceu ao longo de sua vida ao som de “Não deixa o Samba morrer” entendi, pela primeira vez, o que sentem os cristãos ao dizerem que receberam algo que não mereciam. Foi diante desta cena (a qual eu não era merecedor de vivenciar) que percebi, O Cristo Brasileiro é o Povo Negro.
Não à toa digo isso, foi sob o sacrifício (não voluntário) destes ancestrais que se construiu a nossa cultura, nossas tecnologias, nossa modernidade. A luta e a morte foi deles, os benefícios e os louros, têm sido nossos. O passado não podemos mais mudar, mas podemos contá-lo com a dignidade que ele merece, afinal foi com as palavras que Cristo fez a água virar vinho; agora, devemos nós fazer o mesmo com o sangue derramado sobre esta terra que ainda temos a coragem de chamar de nossa.
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