Nem guerra preventiva, nem libertação: o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã é a política do abismo
19 março 2026 às 15h26

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Quando Estados Unidos e Israel atacam o Irã sob o discurso da “segurança”, o que se vê não é defesa legítima, mas a repetição de uma velha lógica imperial: destruir primeiro, explicar depois. O conflito, que entrou na terceira semana em março de 2026, já produziu milhares de mortos, atingiu a cúpula iraniana, abalou o Estreito de Ormuz e aprofundou uma crise regional de grandes proporções. Chamar isso de “estabilidade” é insultar a inteligência do mundo.
É preciso dizer com clareza: não se trata de uma cruzada civilizatória. Trata-se da crença, tão recorrente em Washington e endossada por Tel Aviv, de que bombas podem reorganizar o Oriente Médio conforme seus interesses estratégicos. A própria evolução da guerra já expõe a falência dessa tese. Mesmo após ataques de grande escala e a eliminação de lideranças centrais, avaliações relatadas pela imprensa indicam que o regime iraniano não colapsou; ao contrário, endureceu e concentrou ainda mais poder. A pergunta que faltou fazer antes das bombas era simples: destruir para colocar o quê no lugar?
O argumento moral também desmorona quando confrontado com os fatos. A ONU abriu investigação sobre um ataque a uma escola primária no Irã que, segundo autoridades iranianas e apurações preliminares citadas pela Reuters, pode ter matado 168 crianças. Mesmo que a investigação ainda não tenha concluído responsabilidades, o simples fato de haver suspeita robusta de um massacre infantil já bastaria para suspender qualquer triunfalismo militar. Guerra vendida como cirúrgica quase sempre termina produzindo corpos civis, luto coletivo e justificativas burocráticas.
Há ainda um vício político nessa ofensiva: a ideia de que a queda ou o enfraquecimento violento de um inimigo basta para produzir liberdade. Não basta. Não bastou no Iraque, não estabilizou o Afeganistão e não dá qualquer garantia de democratização no Irã. A experiência recente mostra o contrário: guerras externas fortalecem aparatos internos de repressão, estimulam nacionalismo defensivo e fecham o espaço para dissidências autônomas. Quem mais perde, quase sempre, é a sociedade civil que já vivia comprimida entre autoritarismo doméstico e cerco externo.
Nada disso absolve o regime iraniano. O Irã dos aiatolás não é vítima inocente da história. É um regime autoritário, repressivo e hostil a liberdades fundamentais, com longo histórico de violência política interna e projeção militar desestabilizadora na região. Criticar o ataque dos Estados Unidos e Israel não exige romantizar Teerã. Exige apenas honestidade intelectual para reconhecer que um regime ruim não torna virtuosa qualquer guerra contra ele. Uma ditadura pode ser real; a manipulação geopolítica de sua existência também.
O mais revelador é que a guerra já extrapolou o campo militar e entrou no terreno da irresponsabilidade global. O fechamento quase total do Estreito de Ormuz, a pressão sobre rotas energéticas e a resistência de aliados em embarcar na escalada mostram que a aventura militar cobra preço internacional alto. Não é apenas o Irã que sangra: a economia mundial sente, a diplomacia regional se deteriora e o risco de alastramento se torna permanente. Guerra “limitada”, no Oriente Médio, quase sempre é só outro nome para crise sem controle.
Israel, por sua vez, tenta vender a noção de que segurança nacional pode ser construída pela superioridade militar permanente sobre seus vizinhos. Esse paradigma já produziu ocupação, apartheid denunciado por organizações internacionais em outros contextos e sucessivas campanhas de devastação em territórios palestinos. Expandir a mesma lógica para o Irã não é solução; é a ampliação de um método que substitui política por força e direito internacional por poder de fogo.
No fim, o que Estados Unidos e Israel oferecem ao mundo é o velho espetáculo da guerra moralizada: apresentam-se como guardiões da ordem enquanto aprofundam o caos; falam em paz enquanto multiplicam frentes de conflito; evocam liberdade enquanto escolhem, unilateralmente, quem pode viver sob soberania e quem deve ser “corrigido” por mísseis. O nome disso não é defesa. É hegemonia armada.
Eis o ponto que realmente faltou dizer: a invasão — ou, mais precisamente, a campanha militar em larga escala — contra o Irã não é apenas um erro estratégico. É um fracasso ético. Porque toda vez que grandes potências se arrogam o direito de redesenhar a região à força, o resultado costuma ser o mesmo: mais ruínas, mais radicalização e menos humanidade.

