“Não há mulher tão relevante no Brasil como Virgínia”: um retrato do nosso tempo
17 fevereiro 2026 às 15h14

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A frase é de Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio. Ao defender a escolha de Virginia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio, ele afirmou que talvez não exista hoje mulher tão relevante no Brasil quanto ela. A declaração, porém, vai além do debate carnavalesco e revela uma distorção cada vez mais presente no espaço público: a confusão entre visibilidade, influência comercial e relevância social.
Virginia é, sem dúvida, uma das mulheres mais vistas do país. Seus números são expressivos, sua capacidade de mobilizar atenção é real e seu nome gera engajamento imediato. Mas a questão central não está nos números. A pergunta que se impõe é simples: relevante para quem e em que sentido?
A projeção de Virginia está associada a um modelo de influência baseado em publicidade massiva e altamente lucrativa, que inclui a divulgação de bets, jogos de azar e produtos financeiros de alto risco, além de campanhas de consumo agressivo. Esse tipo de comunicação vem sendo relacionado por pesquisadores, órgãos de defesa do consumidor e especialistas em saúde pública ao endividamento de famílias, à indução de comportamentos compulsivos e ao impacto negativo sobre públicos vulneráveis, especialmente jovens.
Não se trata de julgamento moral individual. Trata-se de responsabilidade pública. Alcance é poder e poder produz consequências. Quando figuras com dezenas de milhões de seguidores promovem apostas, promessas irreais de ganhos financeiros ou estilos de vida inalcançáveis, os efeitos extrapolam o entretenimento. Ainda assim, esses impactos raramente entram na conta quando se fala em relevância.
Ao afirmar que essa é a maior relevância feminina do Brasil hoje, naturaliza-se a ideia de que o mercado, o algoritmo e a monetização da atenção são os principais critérios de valor social. O contraste é incômodo.
Enquanto influenciadoras dominam o centro do debate público, mulheres responsáveis por transformações estruturais seguem invisibilizadas fora de nichos especializados. A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, desenvolve um tratamento promissor para a tetraplegia a partir da polilaminina, com potencial de impactar diretamente a vida de milhares de pessoas. A biomédica Jaqueline Goes de Jesus liderou o sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil em tempo recorde, contribuindo de forma decisiva para o enfrentamento da pandemia.
Glória Maria rompeu barreiras históricas na televisão brasileira, enfrentou o racismo estrutural e ampliou representatividade em um dos meios mais excludentes do país. Maria da Penha transformou a própria dor em política pública e deu origem a uma das legislações mais importantes do Brasil no combate à violência doméstica.
Nenhuma dessas trajetórias se construiu a partir da lógica da viralização constante ou da monetização da atenção. Ainda assim, seus impactos são duradouros, mensuráveis e profundamente transformadores.
O debate, portanto, não é sobre Carnaval nem sobre quem pode ocupar um posto simbólico em uma escola de samba. É sobre o empobrecimento dos critérios com os quais o país define relevância. Quando relevância passa a significar apenas alcance, corre-se o risco de trocar legado por performance e impacto social por engajamento.
Virginia pode ser uma das mulheres mais visíveis do Brasil. Mas tratar visibilidade como sinônimo de relevância absoluta diz menos sobre ela e muito mais sobre a sociedade que estamos construindo, onde o algoritmo pesa mais que a responsabilidade pública e o número fala mais alto que o legado.
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