Mais um ano se encerra e os índices de violência contra as mulheres se mostram preocupantes. Apesar de não ser mulher e sequer passar próximo de qualquer situação de risco extremo por causa do meu gênero, levantar o assunto para incomodar uma sociedade moldada pelo patriarcado e machismo estrutural deve ser obrigação de todos. 

Entendo que estou em um lugar onde reverbero com a escrita para chamar atenção ao fato de tantas mulheres continuam perdendo a vida por homens que diziam amá-las e que iriam protegê-las, mas que não pensaram duas vezes em exterminá-las com justificativas toscas de passionalidade. 

Somente neste mês de dezembro, pelo menos cinco casos ganharam a mídia local. As vítimas tiveram suas histórias interrompidas com facadas, pancadas de barras de ferro e estrangulamento. 

A barbárie não termina por aí. Até um caminhão foi utilizado para acabar com a vida de uma mulher que não queria mais continuar com o relacionamento. Esse foi o final trágico de Nayara Eloá Rocha Gomes, de 34 anos. Ela foi atropelada pelo ex-companheiro em Orizona, na região Sudeste de Goiás. Após o crime, ele abandonou a “arma” do crime em uma estrada vicinal e fugiu a pé para uma plantação. A polícia agiu e ele foi preso em flagrante. Apesar disso, uma família continua enlutada pela ineficiência do Estado que tem chegado apenas quando a tragédia acontece e sem resultado concreto no viés preventivo. 

Mas, como disse anteriormente, Nayara não é um caso isolado. Ainda em dezembro, nos 340.086 km² de área de Goiás, tivemos, nesta terra, o sangue derramado de Larissa Conceição Amaral, de 29 anos, que foi estuprada e morta estrangulada em Águas Lindas; Magna Fernandes de Souza Teodoro, de 31, que foi morta a facadas pelo ex-marido em Morrinhos, após crises de ciúmes; e Natali Vieira Batista, que também foi morta a facadas em Goiânia. Ainda houve uma mulher que foi morta brutalmente com golpes de barra de ferro e estrangulada pelo companheiro. 

Infelizmente, a violência tem cruzado fronteiras interestaduais. Dados recentes mostram que no estado de São Paulo, 233 mulheres perderam a vida entre janeiro e novembro deste ano. O caso mais marcante foi de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por quilômetro na Marginal Tietê. Devido aos ferimentos, Tainara teve as pernas amputadas e passou por diversas cirurgias. Entretanto, após 25 dias, ela não resistiu aos ferimentos e morreu. O suspeito é um ex-ficante da vítima. 

Ainda no estado paulista, os casos de estupro chegaram a marca de 2.697 registros, sendo 260 no mês passado. As delegacias paulistas registraram 61.474 queixas referentes a agressões contra mulheres sob o título de lesão corporal dolosa, a maior marca desde 2012.

Nem durante as viagens a passeio as mulheres têm sido poupadas da violência masculina. Um turista goiano foi preso em Maceió (AL) após agredir a mulher no meio da rua no último fim de semana. Segundo a vítima relatou aos policiais, o agressor estava embriagado e já tinha histórico de comportamento violento ao ingerir bebida alcoólica. A vítima relatou que estava em solo alagoano para comemorar um aniversário. 

Se ao ler esses relatos você não se sentiu enojado e reflexivo, temo que você já está morto por dentro e apenas está ocupando espaço nesse imenso planeta chamado Terra. A prática da empatia deve ser praticada por todos e a luta contra esse problema crônico precisa ser intensificada a cada vez mais. E isso não é apenas um alerta ao poder público – que já vem provando fracassos retumbantes -, mas também para todo cidadão. A discussão aqui ultrapassa queixas vãs realizadas sem qualquer embasamento. São VIDAS perdidas a todo dia, a toda hora, a cada minuto e em fração de segundos. 

Não adianta dizer que ama e quer provar isso com violência travestida de cuidado e masculinidade. Com o aperto no braço, com o toque violento, com o pânico instalado ou com desrespeito ao ouvir um não. 

O pedido de paz, que muitos dizem fazer na virada do ano, pelo jeito não são feito para as mulheres.  

Carta aberta para uma pessoa que vive com HIV Carta aberta para uma pessoa que vive com HIV