“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra”, esse fragmento do poeta inglês John Mayra Donne diz muito sobre a condição humana, seja ele pobre ou rico. Ninguém é absolutamente só.

Nas escolas aprendemos que a solidão é uma sensação de carência absoluta, de um objetivo ou um desejo que sempre se desloca, gerando na alma a percepção de falta.  A Sociologia explica que a solidão é fruto da marginalização, ou seja, a exclusão do indivíduo da sociedade convencional, por inadaptação ou pela recusa em seguir determinados parâmetros. 

Em um mundo cada vez mais acelerado e digital, sentimentos de solidão e isolamento social se tornam comuns e uma preocupação para a saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que cerca de 25% dos idosos vivenciam isolamento social e 15% dos adolescentes se sentem solitários.

O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, referência nos estudos sobre pós-modernidade, explica que as relações se encontram em um nível absurdo de rapidez e fluidez. A sociedade é líquida, pois no conceito do teórico há ausência de qualquer base mais profunda no sustentáculo daquilo que rege, envolve e é produzido pelas pessoas.

O que assistimos é uma estrutura de sociedade contemporânea que “fabrica” o isolamento, onde as relações são pautadas pela lógica do consumo: conectamos e desconectamos conforme a conveniência. A fragilidade dos laços humanos impulsiona o isolamento social e a solidão.

Outo teórico; porém brasileiro, que pesquisa a comunicação e a ocupação do espaço é Muniz Sodré. Na concepção do sociólogo e jornalista o espaço de troca real entre as pessoas está sendo “destruído” pela mediação tecnológica extrema.

Sodré argumenta que a conexão digital não é comunicação real. E, que mesmo “conectados”, os internautas sentem um vazio de pertencimento comunitário. Contudo, a solidão deixa de ser meramente um “sentimento”, para ser tratada como uma patologia social de alto custo para a saúde pública.

A solidão crônica é associada ao aumento de cortisol e processos inflamatórios. Estudos indicam um risco aumentado de doenças cardiovasculares, demência e morte prematura, comparável ao tabagismo de 15 cigarros por dia, conforme dados da (OMS).

As redes sociais tem gerado nos usuários a “ilusão” do contato. Muitos, estão substituindo interações presenciais por “doses” de dopamina – que não supre a necessidade de pertencimento.

A comunicação no digital também exige uma personalização. Cada vez mais os conteúdos digitais “se inserem” em contextos de bolhas, o que dificulta a empatia e o contato com o “diferente”. Resultado disso, são mais e mais pessoas sendo isoladas.

Temos uma organização social, que mercantilizou o tempo. Em consequência disso, digitalizou o afeto e transformou espaços reais em “corredores” de passagem e não de permanência.

A liquidez que Bauman refere-se atinge de maneira assustadora jovens adultos com dificuldades de socialização presencial pós-pandemia e dependência de telas. Como ainda, os idosos pelo isolamento geográfico e a exclusão digital, em um mundo onde os serviços básicos são em quase toda a totalidade digitais.

A solidão não é mais meramente um sentimento passageiro. O que pesquisadores e representantes do segmento da Saúde têm alertado é que a intensificação do isolamento social está altamente associado à depressão. As pessoas mais velhas, possuem 26% de chances de desenvolverem demência – isso, é o que apresenta a (OMS).

Médicos passaram a prescrever: clubes de leituras, hortas urbanas e grupos de caminhada. O contato social voltou a ser mais eficientes, que antidepressivos. Portanto, valorize a convivência. Dê abraços e desligue um pouco o celular.

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