A filiação de Ana Paula Rezende ao PL não é apenas um movimento estratégico-eleitoral. Ela carrega uma dimensão simbólica profunda — e contraditória — quando analisada à luz da história de seu pai, Iris Rezende. Em 1969, durante o regime militar (1964–1985), Iris Rezende teve seus direitos políticos cassados por dez anos pelo Ato Institucional nº 5. Foi punido por se posicionar contra o autoritarismo e por defender a institucionalidade democrática. Sua trajetória política foi marcada pela resistência civil dentro das regras do jogo democrático.

Iris construiu sua carreira como um político de centro-direita com diálogo social, transitando entre conservadorismo administrativo e sensibilidade popular. Nunca militou na extrema-direita. Nunca defendeu ruptura institucional. Nunca fez acenos a regimes autoritários. Esse dado histórico torna a decisão da filha ainda mais sensível.

A filiação de Ana Paula Rezende ao PL e sua indicação como vice na chapa do senador Wilder Morais produziram impacto imediato no noticiário político goiano. Mas passado o efeito surpresa, a pergunta central permanece: trata-se de um movimento eleitoral consistente ou de uma articulação predominantemente empresarial revestida de discurso político? Ana Paula é capaz de agregar lideranças ao projeto que embarcou ou pegou o bote sozinha?

A decisão não pode ser analisada sem considerar o papel de Frederico Peixoto Craveiro, marido de Ana Paula, que mantém relações societárias com Wilder na empresa Craveiro e Morais Participações. Esse vínculo empresarial altera o eixo interpretativo do gesto político.

Se há sociedade formal entre os dois núcleos familiares, a migração partidária deixa de ser apenas uma “busca por espaço” e passa a ser também um movimento estratégico de alinhamento econômico. Nesse contexto, o discurso de que o MDB teria fechado portas soa frágil. Ana Paula era vice-presidente estadual do MDB e, com a saída de Daniel Vilela para assumir o governo, ela estaria a poucos dias de assumir a presidência estadual da legenda. Ou seja: institucionalmente, ela estava prestes a ocupar o comando partidário.

Já o aliado histórico de Iris Rezende, Agenor Mariano avalia que a saída de Ana Paula do MDB resulta, politicamente, de “uma síndrome da realeza (acha-se que se tem direito por uma questão familiar, por exemplo). Ela quer que todos beijem suas mãos”. Agenor Mariano disse ao Jornal Opção que tem condições, tanto políticas quanto morais, de comentar a saída.

O PL e a memória da ditadura

O PL é o partido de Jair Bolsonaro, líder político que ao longo de décadas fez declarações públicas elogiosas ao regime militar e ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura.

Bolsonaro já afirmou, em diferentes momentos de sua carreira, que o erro do regime foi “torturar e não matar”. Também homenageou Ustra no plenário da Câmara durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff. Não se trata de interpretação ideológica: são declarações públicas registradas.

Contradição ideológica ou pragmatismo político?

Esse movimento pode ser interpretado de três formas:

  1. Pragmatismo eleitoral: a decisão é puramente estratégica, ignorando a dimensão ideológica.
  2. Descolamento geracional: Ana Paula não se sente vinculada ao posicionamento histórico do pai.
  3. Releitura do legado: tentativa de ressignificar Iris dentro de um campo mais conservador.

O problema é que Iris nunca pertenceu à extrema-direita. Ele defendia reformas sociais, diálogo institucional e respeito às regras democráticas. Sua distância respeitosa de Bolsonaro durante a pandemia foi pública e simbólica.

Impacto eleitoral real: simbologia basta?

A grande questão é se essa contradição histórica terá peso eleitoral.

O eleitorado goiano tende a ser pragmático. O que decide eleições estaduais costuma ser:

  • Estrutura administrativa.
  • Apoio de prefeitos.
  • Capacidade de articulação regional.

Nesse ponto, Daniel Vilela parte com vantagem objetiva, respaldado pela máquina estadual e pela aliança com Ronaldo Caiado.

Ana Paula, por sua vez:

  • Nunca disputou eleição.
  • Nunca foi testada em pesquisas.
  • Não demonstrou capacidade de liderança autônoma.

O sobrenome Iris pode abrir portas simbólicas, mas não garante transferência automática de votos — especialmente se parte do eleitorado histórico do pai enxergar incoerência na nova aliança.

O racha no PL: fragmentação conservadora

Internamente, o PL enfrenta turbulência. Gustavo Gayer, considerado o nome mais forte do bolsonarismo goiano, defendia aliança com Daniel e Caiado visando viabilizar candidatura ao Senado.

A decisão de Wilder cria tensão:

  • Pode empurrar Gayer para fora do partido.
  • Pode enfraquecer a unidade conservadora.
  • Pode transformar o PL em arena de disputa interna.

Além disso, já houve embates envolvendo Major Vitor Hugo, revelando que o partido está longe de ser coeso.

Fragmentação interna geralmente fortalece quem está no governo.

E há ainda o fator nacional: a própria família Bolsonaro vive divisões estratégicas entre Michelle, Flavio e Carlos. Quando a liderança maior não apresenta direção clara, as disputas locais tendem a se intensificar.

Foi uma jogada de mestre de Ana Paula — ou uma aposta que pode redesenhar negativamente o tabuleiro para quem a fez? Não se sabe. O bom da política é isto: ela é imprevisível.

Leia também: Agenor Mariano diz que Ana Paula Rezende, ao sair do MDB, foi acometida pela síndrome da realeza

Daniel Vilela diz que saída de Ana Paula do MDB foi “impensada”, e que negativa de doação de recursos públicos pode ter influenciado