Você já precisou ir a uma consulta médica da qual não passou nem cinco minutos na presença do médico? Ou aguardou por horas na recepção, mesmo tendo agendado o atendimento com dias, às vezes meses de antecedência? Situações como essas têm gerado revolta, especialmente entre quem paga caro por um plano de saúde ou precisa se ausentar do trabalho e de compromissos pessoais para ser atendido. A pergunta que fica é inevitável: o que está acontecendo com a medicina praticada hoje no Brasil?

É comum ouvir justificativas que apontam para salários baixos, jornadas exaustivas e excesso de pacientes. E, de fato, esses fatores existem. Mas reduzir o problema apenas à remuneração é ignorar uma discussão mais profunda, que passa diretamente pela formação médica, tema que ganhou evidência com a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED), que aponta que 60% dos alunos não alcançaram a nota mínima para a proficiência.

Criado pelo Ministério da Educação e aplicado pelo Inep, o ENAMED surge como um termômetro da qualidade dos cursos de Medicina no país. Seus resultados mostram que uma parcela significativa das instituições não conseguiu atingir desempenho considerado satisfatório. Isso acende um alerta importante: não se trata apenas da quantidade de médicos formados, mas da qualidade dessa formação. O exame aplicado mostrou que questões com tema sobre pediatria, saúde mental e ginecologia foram os assuntos com o maior índice de erro entre os estudantes.

Um influenciador com mais de 268 mil seguidores e estudante de medicina em uma das mais renomadas faculdades da área em Brasília, Enrico Rico, veio a público “se defender” e defender a universidade. Ele argumentou dizendo que “primeiramente, pelo fato de ser a primeira edição da prova, ninguém sabia o peso real que seria isso para a instituição”. Ele completou dizendo ainda que seus colegas de curso “acabaram se dedicando muito mais a provas de residências, a provas particulares, do que se dedicar a uma prova onde ninguém sabia muito o peso”.

A justificativa, no entanto, expõe um problema ainda mais profundo do que o resultado em si. Quando estudantes de Medicina priorizam provas de residência ou avaliações particulares em detrimento de um exame nacional que mede a qualidade da formação oferecida pela própria instituição, o debate deixa de ser sobre “peso da prova” e passa a ser sobre compromisso com a formação. Afinal, se o ENAMED avalia competências essenciais para o exercício da medicina, por que ele seria tratado como secundário?

O argumento de que “ninguém sabia o impacto real” da prova também revela uma cultura acadêmica preocupante, na qual o esforço do estudante se concentra apenas naquilo que gera retorno individual imediato, e não no que contribui para a avaliação coletiva do curso e, por consequência, para a qualidade do sistema de saúde. A formação médica não pode ser vista apenas como uma etapa estratégica para aprovação em residências concorridas, mas como um processo contínuo de responsabilidade social.

O reflexo disso aparece justamente no consultório. Um médico mal preparado tende a se apoiar em protocolos rígidos, consultas rápidas e pouco diálogo. Falta tempo, mas muitas vezes falta também segurança clínica, escuta qualificada e capacidade de analisar o paciente para além dos exames laboratoriais. O resultado é uma medicina apressada, distante e, para muitos pacientes, desumana.

ENAMED em Goiás

Em estados como Goiás, o cenário escancara contrastes. Há instituições que alcançaram bom desempenho no ENAMED, mostrando que é possível formar médicos tecnicamente competentes e comprometidos com a prática clínica. Ao mesmo tempo, cursos com notas baixas revelam fragilidades na estrutura, na supervisão acadêmica e na formação prática, fatores que impactam diretamente o atendimento à população.

O Governador do estado, Ronaldo Caiado (UB), que, curiosamente é formado em medicina com especialização em ortopedia, desde 1972, criticou as notas baixas e apontou como grave e deteriorante tais resultados. Para ele, as faculdades visam apenas o lucro e não formar bons profissionais. Um dos pontos trazidos por Caiado na tentativa de minar novos resultados desastrosos, é a criação do exame de proficiência para médicos recém-formados, semelhante ao aplicado aos advogados, pela OAB. E é fato, se houvesse uma prova para os formandos, a certeza é que muitos não chegariam a pegar o CRM, levando em consideração o resultado do ENAMED.

Tudo o que a sociedade cobra são médicos mais atentos, humanos, preparados e que entendam sobre a especialidade escolhida para exercer. Mas, vale deixar claro: O ENAMED não resolve tudo, mas aponta caminhos. Ele mostra onde a formação precisa melhorar e reforça que cuidar da saúde da população começa muito antes do consultório: começa na sala de aula, nos hospitais-escola e na forma como se ensina a ser médico.

No fim das contas, o paciente não quer apenas um diagnóstico rápido. Ele quer ser ouvido, compreendido e tratado com responsabilidade. E isso não deveria ser um luxo, mas o mínimo esperado de um sistema de saúde que se propõe a cuidar de pessoas.