Deus, onde estás? Entenda como os evangélicos transformaram o Evangelho em mercadoria
26 janeiro 2026 às 19h18

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O movimento evangélico nunca foi um bloco monolítico. Desde o seu nascimento, carrega em si a marca da cisão, da disputa e da fragmentação. O que mudou, ao longo dos séculos, não foi a divisão em si, mas o objeto central dessas disputas: se antes eram doutrinárias, hoje são econômicas e políticas. No Brasil de 2026, a pergunta que ecoa — como na canção do PalavrAntiga — já não é apenas espiritual, mas histórica: “Deus, onde estás?”
O protestantismo nasce no século XVI como ruptura. Lutero, Calvino, Zwinglio e tantos outros não apenas desafiaram Roma, mas inauguraram um princípio que se tornaria estrutural: a livre interpretação das Escrituras. Esse fundamento, embora libertador em um primeiro momento, abriu caminho para uma multiplicação quase infinita de leituras, igrejas, lideranças e interesses.
Desde então, o protestantismo se constrói em tensão: unidade espiritual proclamada, fragmentação prática permanente. Ao longo dos séculos, essa lógica se intensifica com o avanço do capitalismo, especialmente no mundo anglo-saxão, onde fé, empreendedorismo e sucesso material passam a caminhar juntos. A religião deixa de ser apenas doutrina e se torna produto, marca, instituição concorrencial.
A chegada ao Brasil: missão, poder e mercado
No Brasil, o protestantismo chega inicialmente pelas mãos de missionários históricos — presbiterianos, batistas, metodistas — ainda com certo distanciamento do poder político. Mas o cenário muda radicalmente no século XX com o crescimento do pentecostalismo e, mais tarde, do neopentecostalismo.
É nesse ponto que o Evangelho passa a ser moldado pela lógica do mercado. Igrejas crescem como franquias, pastores se tornam CEOs da fé, fiéis viram consumidores e a espiritualidade passa a ser medida por resultados visíveis: templos maiores, transmissões mais sofisticadas, arrecadações mais robustas.
A teologia da prosperidade não é um desvio ocasional: ela é a tradução religiosa do neoliberalismo. O sucesso vira sinal de bênção; o fracasso, evidência de pecado ou falta de fé. O Reino de Deus é deslocado do “já e ainda não” bíblico para o “aqui e agora” do lucro, do poder e da influência.
Do altar ao palanque: a fé capturada pela política
O passo seguinte era inevitável. Se a igreja vira empresa, ela precisa proteger seus interesses. E a política se torna o espaço privilegiado dessa proteção. No Brasil, especialmente a partir dos anos 2000, mas de forma explícita após 2018, o evangelicalismo hegemônico passa a operar como força político-eleitoral organizada.
Não se trata mais de valores morais abstratos, mas de projetos de poder. Bancadas parlamentares, alianças partidárias, concessões de rádio e TV, blindagem jurídica, influência sobre políticas públicas. O nome de Jesus passa a ser usado como slogan, enquanto seus ensinamentos — amor ao inimigo, denúncia da hipocrisia religiosa, crítica aos ricos e poderosos — são cuidadosamente silenciados.
A falsa unidade e a guerra pelo espólio do poder
O episódio envolvendo Damares Alves e Silas Malafaia, em pleno ano eleitoral de 2026, escancara aquilo que sempre esteve presente, mas agora já não se consegue esconder: os evangélicos não estão divididos por teologia, mas por interesses políticos e econômicos.
A disputa não é sobre ética cristã, transparência ou justiça. É sobre quem controla o discurso, quem representa o “povo evangélico”, quem herda o capital político do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Valdemar Costa Neto — os nomes mudam, mas o roteiro é o mesmo: o Evangelho como moeda de troca.
Quando Damares rompe o pacto tácito do silêncio e cita igrejas e líderes envolvidos em denúncias no escândalo do INSS, o que provoca a ira de Malafaia não é o risco à fé cristã, mas à reputação do negócio religioso. “Roupa suja se lava em casa” não é princípio bíblico; é lógica corporativa.
A reação furiosa, os ataques pessoais, a tentativa de deslegitimação pública revelam o medo maior: o medo da perda de poder e de controle da narrativa.
Cada vez mais longe de Jesus
É aqui que a canção do PalavrAntiga se torna quase um lamento profético:
Deus, onde estás?
A Igreja arrancou o sino
O homem esqueceu o menino
Fez castelo de ouro e prata
E perdeu a vida
A pergunta não é sobre a ausência de Deus, mas sobre onde a igreja o colocou. Em meio a alianças espúrias, discursos de ódio, defesa de privilégios e silenciamento de denúncias, Jesus já não é o centro — é apenas um símbolo conveniente.
O Cristo dos Evangelhos confronta líderes religiosos que exploram o povo, denuncia os que transformam o templo em mercado e chama de “sepulcros caiados” aqueles que defendem a moral em público, mas apodrecem por dentro. Não é coincidência que esse Jesus raramente seja citado nos palanques evangélicos.
O que vemos em 2026 não é uma crise pontual, mas o esgotamento de um modelo. O evangelicalismo brasileiro hegemônico tornou-se mais próximo dos políticos do que de Jesus, mais preocupado em manter influência do que em testemunhar o Evangelho.
A divisão sempre existiu. A diferença é que agora ela já não pode ser disfarçada com versículos ou slogans. O que está em jogo não é o futuro da fé cristã — essa sempre sobreviveu às instituições — mas o destino de um projeto que confundiu Reino de Deus com projeto de poder.
Talvez, no fim, a pergunta correta não seja “onde está Deus?”, mas quem teve coragem de expulsá-lo do centro para ocupar o seu lugar.
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