A lição das Olimpíadas de Inverno para o Brasil: o frio não pode ser desculpa para falta de investimentos no esporte
23 fevereiro 2026 às 14h00

COMPARTILHAR
O Brasil precisa abandonar a ideia de que certos esportes “não são para nós”, mesmo que não neve no país ou que se trate de modalidades pouco convencionais. Essa crença não deveria mais servir como justificativa, independentemente das dificuldades financeiras e logísticas. Em pleno século XXI, com mobilidade internacional, centros de treinamento espalhados pelo mundo e intercâmbio esportivo consolidado, limitar as ambições não condiz com um país de dimensões continentais.
E nem seria preciso recorrer ao exemplo do esquiador Lucas Pinheiro Braathen, primeiro medalhista do Brasil em Jogos de Inverno, com o ouro no slalom gigante. Antes dele, o mundo já havia assistido a uma das histórias mais improváveis do esporte: a equipe de bobsled da Jamaica, que surpreendeu ao competir nos Jogos de 1988, em Calgary. A trajetória dos jamaicanos, vindos de um país tropical sem tradição no gelo, virou símbolo de ousadia e superação e foi eternizada no filme Jamaica Abaixo de Zero.
Se a Jamaica pôde desafiar a lógica e entrar para a história olímpica de inverno, por que o Brasil deveria aceitar limitações autoimpostas?
Vamos além: nem é preciso falar apenas de esportes de inverno, mas de modalidades que fogem do eixo tradicional do futebol, do vôlei ou do basquete. Em 2023, por exemplo, o Brasil conquistou a medalha de prata no beisebol nos Jogos Pan-Americanos de Santiago. Já em março deste ano, o país participará da World Baseball Classic (WBC), a “Copa do Mundo” da modalidade. Ainda assim, o beisebol segue praticamente invisível para a maioria dos brasileiros.
Enquanto isso, estrangeiros vêm impulsionando o desenvolvimento do esporte no país, principalmente na formação de atletas e, gradualmente, colhendo resultados concretos. Um exemplo emblemático é o do brasileiro Cláudio Pereira, de 17 anos, que assinou contrato de quase R$ 3 milhões com o Boston Red Sox, uma das franquias mais tradicionais da Major League Baseball (MLB). O jovem foi formado na academia da Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS), que mantém parceria com a liga norte-americana.
Outra modalidade que já ensaiou um salto de popularidade é o rugby. Em 2010, a fornecedora de material esportivo Topper chegou a veicular campanhas publicitárias apostando que o esporte poderia “ser grande no Brasil”, explorando justamente a ideia de força, coletividade e espírito competitivo que dialogam com o perfil do atleta brasileiro. Passados mais de 15 anos, porém, o potencial ainda não se converteu em massificação.
Apesar dos avanços institucionais e da organização promovida pela Confederação Brasileira de Rugby (CBRu), a modalidade segue carente de maior apoio. Ainda assim, o potencial está lá: é um esporte olímpico e conta com forte cultura universitária no país. Permanece, porém, concentrada em nichos, sobretudo em clubes tradicionais e no ambiente acadêmico, assim como o futebol americano, outra modalidade que também vem crescendo no Brasil.
Com tantos exemplos espalhados pelo mundo, por que o Brasil não pode sonhar em estruturar uma equipe competitiva de bobsled ou avançar de forma estratégica para o mercado do críquete? Trata-se de um dos esportes mais assistidos do planeta, com audiência bilionária concentrada sobretudo no Sul da Ásia, no Reino Unido e na Oceania, e que poderia encontrar no Brasil espaço para crescer em número de praticantes e investidores. O mesmo raciocínio vale para modalidades como o hóquei no gelo, o ciclismo de estrada ou outras que são grandes em diferentes países.
A globalização encurtou distâncias, reduziu barreiras logísticas e transformou o esporte de alto rendimento em uma rede internacional de formação, tecnologia e compartilhamento de conhecimento. Repetindo: em pleno século XXI, limitar as ambições não condiz com um país de dimensões continentais como o Brasil.
Hoje, atletas treinam fora de seus países de origem com naturalidade, federações firmam convênios bilaterais e clubes funcionam como polos globais de desenvolvimento. A preparação deixou de ser restrita à geografia local. Países sem tradição em determinadas modalidades buscam excelência onde ela existe, enviam talentos para centros de referência e importam metodologia. Isso não é exceção, mas regra no esporte moderno.

