O Brasil tem um talento peculiar para produzir diagnósticos precisos e, ao mesmo tempo, ignorá-los com uma consistência quase institucional. A nova CPI do Crime Organizado, instalada no Senado, surge como mais um capítulo de uma longa história em que o país investiga, compreende e, ainda assim, falha em agir.

Não se trata de falta de informação. Ao contrário: há pelo menos duas décadas o Estado brasileiro sabe exatamente de onde vêm as armas que alimentam o crime. E essa constatação é tão incômoda quanto recorrente — elas saem, em grande parte, do próprio sistema legal.

Esse não é um argumento novo, tampouco controverso entre especialistas. Como bem exposto em reportagem do The Intercept Brasil, assinada pela jornalista Cecília Oliveira — um trabalho rigoroso e necessário que merece destaque —, sucessivas CPIs já demonstraram que o problema central não está apenas nas fronteiras ou no contrabando internacional, mas na fragilidade (ou permissividade) do controle interno.

A insistência em apontar o “inimigo externo” talvez seja mais confortável. É mais fácil culpar rotas clandestinas internacionais do que encarar falhas estruturais dentro das próprias instituições. No entanto, os dados acumulados ao longo dos anos desmontam essa narrativa conveniente.

Desde a CPI do Tráfico de Armas (2005-2006), passando pelas investigações da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e pela CPI das Milícias, o padrão se repete: armas e munições apreendidas com organizações criminosas foram originalmente vendidas de forma legal — seja para civis autorizados, seja para forças de segurança. O desvio ocorre depois, em um sistema marcado por fiscalização precária, integração deficiente e, em alguns casos, conivência.

É impossível discutir segurança pública de forma séria ignorando esse dado estrutural. O problema não é apenas o acesso ilegal às armas, mas o percurso que transforma o legal em ilegal. Esse trajeto, frequentemente invisível no debate público, é onde o Estado falha de maneira mais grave.

A ausência de integração entre sistemas como o Sinarm e o Sigma, por exemplo, não é apenas uma falha técnica — é uma escolha política reiterada ao longo dos anos. Sem interoperabilidade de dados, não há rastreabilidade efetiva. Sem rastreabilidade, não há responsabilização. E sem responsabilização, o ciclo continua.

Outro ponto que precisa ser enfrentado com mais honestidade é o papel das próprias instituições de segurança. Casos documentados de desvios de armas e munições de arsenais públicos não são exceções isoladas, mas sintomas de um sistema que carece de auditoria contínua e mecanismos rigorosos de controle. Quando armamentos destinados à proteção da sociedade acabam nas mãos de facções e milícias, o problema deixa de ser apenas criminal — torna-se institucional.

A criação recente da Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas (Renarme) aponta, ao menos no papel, para uma tentativa de corrigir essas distorções. A proposta de integração entre órgãos, compartilhamento de inteligência e atuação coordenada é, sem dúvida, um avanço conceitual. Mas é preciso cautela: o Brasil já produziu boas ideias antes — e falhou na execução.

O histórico é claro. O país não sofre de escassez de propostas, mas de continuidade. Cada escândalo gera indignação, cada CPI produz relatórios robustos, e cada crise termina em esquecimento. Falta transformar recomendações em política de Estado, com metas, monitoramento e transparência permanentes.

Há ainda um elemento político que não pode ser ignorado. O debate sobre segurança pública no Brasil frequentemente é capturado por discursos simplistas, que privilegiam soluções imediatistas e ignoram a complexidade do problema. Falar em controle de armas dentro do próprio Estado não rende manchetes fáceis nem capital eleitoral rápido — mas é exatamente aí que reside o cerne da questão.

Enquanto o país continuar tratando o tráfico de armas como um fenômeno externo, estará lidando apenas com parte do problema. A outra parte — talvez a mais relevante — permanece dentro de casa, protegida por omissões, burocracias ineficientes e, por vezes, interesses políticos.

A pergunta que se impõe, portanto, não é nova, mas segue sem resposta: o Estado brasileiro está disposto a encarar sua própria responsabilidade no abastecimento do crime?

Se a nova CPI quiser, de fato, romper o ciclo, precisará ir além do diagnóstico — algo que já temos em abundância — e enfrentar o desafio mais difícil: implementar mudanças estruturais em um sistema que, há décadas, demonstra resistência à própria transformação.

Até lá, seguiremos assistindo ao mesmo roteiro: investiga-se, comprova-se, divulga-se. Nada muda.