Sátántangó, romance de László Krasznahorkai, é sombrio, mas a narrativa é clara e atraente
06 dezembro 2025 às 21h00

COMPARTILHAR
O Prêmio Nobel de Literatura László Krasznahorkai só tem dois livros publicados no Brasil: “Sátántangó” (Companhia das Letras, 232 páginas, tradução de Paulo Schiller) e “O Retorno do Barão de Wenckheim” (Companhia das Letras, 512 páginas, tradução de Zsuzsanna Spiry”).
O título “Sátántangó” significa Tango de Satanás (ou Satã). O livro saiu no Brasil este ano. O original húngaro é de 1985.
Fato secundário, mas invulgar, que não resisto a contar aos leitores: logo que anunciado o vencedor do Nobel, curioso, encomendei pela internet meu exemplar desse livro, e aguardei, não sem certa excitação, sua chegada.
Como demorasse além do razoável, comuniquei-me com o livreiro, que alegou extravio. Contrariado, preparava-me para nova encomenda e nova espera, quando recebo, naquele mesmo dia, um pacote pelos correios, remetido por meu amigo, o historiador Salatiel Correia. Qual a minha surpresa, ao abri-lo e constatar que se tratava de um exemplar exatamente do “Sátántangó”! Meu amigo Salatiel, além de bom escritor, será também adivinho, suponho.
Uma distopia sombria

A narrativa é o que poder-se-ia chamar de uma distopia sombria. O local é sombrio, o tempo é sombrio, são sombrios os personagens e a trama.
Com tudo isso, é um livro não só atraente, mas magnético: não é fácil interromper sua leitura, tal o grau de interesse que desperta o fluir da narrativa.
Se algo não é sombrio no livro, é o texto. A construção das frases em português, por Paulo Schiller (médico, psicanalista, escritor e tradutor — filho de húngaros), ficou de uma clareza a toda prova, conferindo uma leitura fácil, ainda que as frases sejam alongadas e sinuosas, e os parágrafos gigantescos, como exige o original.
O cenário é um assentamento agroindustrial em ruínas, no interior húngaro. As construções, abandonadas, ostentam pisos danificados, paredes a ponto de desmoronamento, telhados que deixam passar a água da chuva que cai incessante, portas que não mais se fecham. O maquinário está abandonado, inoperante. As ruas, encharcadas, são mais lamaçais que vias de passagem, pois o tempo está permanentemente fechado pelas chuvas acompanhadas das ventanias geladas.
Os personagens são densos, as personalidades pesadas. Não há leveza em nenhuma delas, nem mesmo em Estike, a garotinha deficiente, que acredita em árvore que dá dinheiro. Estike mata seu gato, Micur, e se mata.

Há o médico solitário e alcóolatra, que nunca sai de casa, e espiona os vizinhos, o fazendeiro agressivo Kerekes, o taverneiro angustiado que só se acalma fazendo a contabilidade de sua taverna, e muitos outros, igualmente soturnos.
A estória começa com o despertar de Futaki, um assentado, ouvindo sinos, embora não existam sinos nas proximidades; e com a chegada do dono da casa, Schmidt, que quase surpreende Futaki, que dormia com sua mulher, a lasciva sra. Schmidt.
A trama se desenrola com a expectativa da chegada do personagem central, Irimiás, e seu companheiro Petrina, que todos julgavam mortos, ao local.
A dupla, segundo informam, se aproxima do assentamento e todos se aprestam em aguardá-la. Correm para a taverna local e esperam, em meio a uma bebedeira e danças de tango.

O que representam, Irimiás e Petrina, para despertar atenção e esperança naquele ambiente devastado, naquelas almas desalentadas? Falam pelas autoridades? Trazem uma mensagem de progresso? Ou são simplesmente uma dupla de vigaristas a enganar e vender esperanças, a despojar dos últimos recursos os já bem despojados? O interesse e a interrogação estão sempre presentes na narrativa, que, como eu disse, a despeito do sombrio, é atraente.
Não há como não deduzir, na obra de Krasznahorkai, a presença de uma crítica, velada pelo estilo único do autor, à ditadura comunista vivida pela Hungria nas quatro décadas que vão do final da Segunda Guerra Mundial até 1989.
O clima pesado de decadência econômica que se entrevê no correr dos capítulos, a desesperança presente nos personagens, o vício da bebida, o fio de possibilidade de mudança de vida contido nas promessas ocultas de Irimás, a que se agarram os aldeões, a pretensa importância do autointitulado arauto da renovação, dando a entender que se trata de alguém ligado à cúpula do regime, tudo isso aponta para a vida oprimida sob uma ditadura.

Nada mais sombrio do que o totalitarismo, convenhamos. E não era outro o regime vivido pelos magiares quando o autor redigiu sua obra.
Não menos importante é ressaltar que na União Soviética, que atrás da Cortina de Ferro, pouquíssimos movimentos de reação à ditadura stalinista existiram.
Um, e dos mais importantes, foi o da revolta magiar de 1956, quando Nikita Kruschev, entre surpreso e raivoso, ordenou o esmagamento da sedição com toda a dureza, o que ocasionou a morte de dezenas de milhares de húngaros.
Se o autor ressalta em 1985, em sua excepcional obra literária, o então clima húngaro de descrença, há ainda mais arte na metáfora, na narrativa com sutileza das adversidades de seu povo. Um livro diferente e, eu diria, com uma dose mínima de exagero, imperdível.
Deu origem a um filme com o mesmo nome, do cineasta também húngaro, Béla Tarr. Índice de sua densidade: o filme tem sete horas de duração. E foi considerado, pela crítica europeia, um dos melhores filmes já feitos.
Leia mais sobre László Krasznahorkai
(https://tinyurl.com/4v8rmy7r)
Leia mais: Saiba o que não revelaram sobre a operação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro

