Há uma infinidade de relatos que despertam sentimentos dos mais variados, na rica historiografia portuguesa. Sentimentos de respeito e admiração, no mais das vezes. Um desses relatos foi imortalizado por Alexandre Herculano (1810-1877) em seu clássico Lendas e Narrativas, livro publicado inicialmente em 1851 e que tem sucessivas edições vindo a público até hoje, mais de século e meio depois. A base do conto, real por sinal, Herculano a obteve nos registros de Fernão Lopes (1380-1460) que foi o maior cronista histórico de Portugal. Mais que cronista, dizia o próprio Herculano: “Nas crônicas de Fernão Lopes há não só história, há também poesia e drama”. A crônica, que constitui um dos capítulos de Lendas e Narrativas, tem o título de O Castelo de Faria. Seu resumo:

Sobre uma elevação próxima à cidade de Barcelos, entre o Douro e o Minho, no norte português (hoje no distrito de Braga), foi erguido pelos cristãos, em meio à idade média, lá pelo século X, um castelo fortificado, de cujas torres se avistavam as vastas regiões vizinhas. Como diz Herculano: “O Castelo de Faria, com suas torres e ameias, com sua barbacan e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou ali como dominador dos vales vizinhos”. Depois de muitas histórias, abandonado, acabou por desmoronar, lá pelo século XVI, mas não morreu. Suas pedras serviram para a construção de um convento, o Convento da Franqueira, no sopé do monte, que ainda existe; e suas histórias ficaram registradas pelos cronistas.

Durante o reinado de Fernando I de Portugal, na Segunda Guerra com Castela, mais precisamente em 1373, uma invasão castelhana pelo norte de Portugal avançava rumo a Santarém e Lisboa, e uma coluna penetrou pelo Minho, sendo enfrentada por portugueses saídos de Porto e Barcelos, sob o comando de Henrique Manuel, o Conde de Ceia, tio de D. Fernando. Entre eles um grupo chefiado por Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do dito Castelo de Faria. Os portugueses foram derrotados e Nuno Gonçalves foi aprisionado. Era importante, para os castelhanos, tomar o Castelo, cujas fortificações dominavam a região. E quem substituía o alcaide aprisionado era seu filho Gonçalo Nunes, que estava pronto para a resistência, atrás das fortificações. E o cativo se afligia, pensando na possibilidade de os castelhanos, chefiados por Pedro Rodriguez Sarmento, pressionarem seu filho a negociar, trocando sua vida pela rendição do Castelo.

Pensando nisso, imaginou um estratagema, que logo pôs em prática. Pediu a Sarmento que o conduzissem às portas do Castelo, pois convenceria o filho a entregá-lo sem derramamento de sangue, poupando-lhe a vida, que já davam como perdida. Sarmento, convencido, não titubeou: mandou que uma força de lanceiros subisse o monte (chamava-se morro da Franqueira) conduzindo Nuno Gonçalves para o convencimento do filho, enquanto ele, Sarmento, à frente do grosso da tropa, aguardava a rendição à distância. Um arauto castelhano correu até os portões e anunciou o desejo de Nuno Gonçalves de dialogar com o filho. Gonçalo Nunes não se fez esperar, e segundo Herculano, respondeu: “A Virgem proteja meu pai; dizei-lhe que eu o espero”. A guarda castelhana conduziu então Nuno Gonçalvez até o muro do castelo, onde o filho o aguardava. Era o momento que Nuno Gonçalves esperava. Deu-se o diálogo:

Nuno Gonçalves: – “Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse Castelo, que segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Ceia?”

Gonçalo Nunes: “É de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal a quem fizeste preito e menagem””.

Nuno Gonçalves: “Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas dele?”.

Gonçalo Nunes, em voz baixa, percebendo as intenções do pai: “Sei, oh meu pai! Mas não vês que tua morte é certa se os inimigos percebem que me aconselhas a resistência?”.

Nuno Gonçalvez, finalizou em alta voz: “Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse Castelo sem tropeçarem no teu cadáver!”.

Nuno Gonçalves caiu ali mesmo, atravessado pelas lanças e espadas dos castelhanos raivosos pelo logro, enquanto os besteiros do Castelo também abatiam castelhanos com suas flechas certeiras. Mas Gonçalo Nunes e os portugueses de tal forma se enfibraram pelas palavras e pela morte do herói, que os castelhanos, mesmo mais numerosos e armados, depois de derrotados em várias tentativas frustradas de invasão, tiveram que abandonar o cerco ao Castelo.

Terminada a guerra, Gonçalo Nunes fez pouco das honrarias que merecera por sua vitória. O sucesso lhe custara por demais caro. Pesava-lhe a morte do pai. Pediu ao Rei que o desonerasse de qualquer encargo, buscou um convento e fez-se monge. Como tal, terminou seus dias.

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