Livro Verde não explica porque o BNDES “deu” bilhões à Odebrecht, JBS, Cuba e Angola

04 agosto 2017 às 09h41

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Procurador Rodrigo Janot está preocupado com 500 mil reais que seriam direcionados ao presidente Michel Temer, mas não dá importância aos bilhões “emprestados” aos empresários Joesley Batista e Marcelo Odebrecht

A cada dia, ao invés de surgirem luzes sobre a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos governos petistas, mais trevas vêm a encobri-la. A saída brusca da competente Maria Silvia Bastos Marques da presidência do banco de fomento deixou pairando no ar uma interrogação, fazendo mais sombra sobre o que já não se sabe. Por que Maria Silvia pediu demissão tão abruptamente? A escolha de Paulo Rabello de Castro, que presidia o IBGE, parecia uma saída natural, por gravidade, para presidência vaga.
Mas mais duas sombras surgem com ele: um genro preso pela Lava Jato (até aí nada de mais — conheço muita gente boa que tem genro de arrepiar) que, ao que parece, andou usando o nome do sogro para lavagem de dinheiro.
Outra, e agora a sombra é mais densa: Paulo Rabello de Castro assume o cargo que mal conhece defendendo as operações que não conhece, levadas a cabo pelos petistas, inclusive e principalmente duas das mais discutíveis (para usar um eufemismo): a da JBS e a do Porto de Mariel, em Cuba. E não satisfeito, vem na mídia poucos dias depois com um “Livro Verde do BNDES”, um cartapácio de 200 e tantas páginas onde o BNDES tenta provar que o mais correto, competente e lucrativo banco de fomento do planeta é o BNDES.
Em uma entrevista, fala Paulo Rabello: “A JBS é um dos negócios mais bem bolados e bem sucedidos da BNDESPar”. Faltou combinar com o Tribunal de Contas da União (TCU), que afirma que em apenas uma operação de compra de debêntures da JBS, o BNDES teve prejuízo de mais de 700 milhões de reais, além de favorecer fraude e aproveitamento.
A Polícia Federal também tem opinião diversa: acha que não está bem explicada uma operação em que o BNDES cedeu recursos à JBS para compra da empresa americana National Beef. A JBS não fez o negócio e não devolveu o dinheiro — 700 milhões — ao BNDES, como contratualmente deveria fazer.
O “Livro Verde do BNDES” mais desinforma do que informa, penso, até porque seus funcionários não tinham como conhecer a trama que se urdia mais no alto, onde gravitavam o presidente Luciano Coutinho, os ministros petistas da Fazenda, Lula da Silva, Dilma Rousseff e outras figuras graúdas das esquerdas nacionais, que a rigor comandavam o banco. Para informar melhor, o “Livro Verde” precisaria de um Encarte Vermelho, onde explicasse porque foi tanto dinheiro nosso para fora e exatamente para ditaduras, semiditaduras ou aspirantes a ditaduras bolivarianas ou marxistas (que dá no mesmo). E desse a relação completa dos desembolsos para financiamento de obras no exterior, com os prazos, carências e taxas de juros praticados. E quem lê nas entrelinhas, depara com algumas afirmativas no “Livro Verde” ou sente falta de outras, que suscitam perguntas. Aí vão algumas delas:
1 — Na página 199, estão listadas as empresas maiores tomadoras do BNDES. A primeira é a Petrobrás, naturalmente. A terceira, depois da Embraer, é a Odebrecht, que tomou 51 bilhões de reais. Ocorre que está segregada a Braskem, do grupo Odebrecht, tomadora de outros 18 bilhões. Assim, só as duas empresas do grupo tomaram 70 bilhões. Mas o mais interessante é que no sétimo lugar está a telefônica Oi, tomadora de 31 bilhões. Se o leitor não sabe da história da Oi, leia reportagem na revista “Piauí” nº 125 (http://piaui.folha.uol.com.br/materia/agonia-da-oi/ — no link pode ser conferido ao menos um trecho). Entre outras coisas verá ali que o BNDES serviu, nos governos petistas, como ponte para as maiores negociatas dentro da Oi. Vai saber também que mesmo que, se consiga sua recuperação como empresa, ao menos 70% de prejuízo ficarão com os credores. O BNDES perdeu então, só nessa empresa, uma das “campeãs nacionais” do petismo, ao menos 20 bilhões de reais. Isto é mais do que o BNDES emprestou à Eletrobrás, responsável pelo setor energético do país, e carente de recursos.
Angola e Cuba
2 — Na página 150, o BNDES explica o que foi “fazer” em Angola e Cuba. Num arrazoado que não leva a lugar algum, o banco procura, no fundo, se eximir da responsabilidade nessas operações, alegando, inclusive, que em tempos passados, antes dos petistas, financiou, por exemplo, exportações de ônibus para Cuba. Não é a mesma coisa. Um ônibus exportado leva materiais e mão de obra brasileiros empregados na sua confecção. O porto de Mariel representou uma opção entre melhorias em portos brasileiros, que delas estão necessitando, e o benefício a uma nação estrangeira, ditatorial, ainda por cima, com aumento no emprego lá longe, para cubanos. Além da corrupção, é bom que se diga.

O mesmo vale para as obras angolanas, que o BNDES financiou. As estradas brasileiras por onde transita a soja, para citar um exemplo, são, em muitos trechos (como as BRs 158 e 364, em Goiás), uma afronta ao trabalho suado dos caminhoneiros nacionais, pelo péssimo estado em que se encontram. Proporcionam permanente desgaste físico de veículos e profissionais, e risco de vida. Por que financiar estradas em Angola, com dinheiro público do Brasil, se nossas estradas estão a clamar providências?
E o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, é um democrata, que está no poder há 30 anos, cuja filha, Isabel, é a mulher mais rica da África (3 bilhões de dólares). Dinheiro na sua mão é vendaval. E o “Livro Verde” é omisso.
Não lista todos os financiamentos externos, nem mesmo os mais expressivos. Os que beneficiam a Nicarágua (e que dificilmente receberemos um dia), por exemplo, não são citados. Raciocínio idêntico ao feito para Mariel podemos fazer quanto ao metrô de Caracas. Não compete ao BNDES promover a melhoria da mobilidade urbana dos venezuelanos, como fez, mas a dos brasileiros, pessimamente servidos de transporte coletivo.
3 — Na página 150 do Livro Verde há um quadro interessante, que mostra dez obras financiadas pelo BNDES no exterior: duas na Argentina, duas na Venezuela, duas em Angola, uma em Cuba, uma em Moçambique, uma na República Dominicana e uma em Honduras. São estradas, hidrelétricas, metrôs. Obras, todas, em setores carentes por aqui, sendo feitas lá fora com dinheiro brasileiro.
O BNDES teria que se chamar Banco Internacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bides). Seria mais apropriado, ao menos na era petista. E há uma curiosidade no quadro. O BNDES afirma que todos os empréstimos estão adimplentes, exceto o de Moçambique. Como são todos recentes, a presunção é de que estão ainda no prazo de carência, em que só se cobram os juros (aliás são bem pequenos). Deduz-se que Moçambique nem os juros está pagando. E todos sabemos que a Venezuela sequer tem divisas para importar alimentos. Vai pagar ao Brasil um dia?
4 — Uma afirmação, e a última indagação: não há a menor dúvida de que os irmãos da JBS são imensamente astutos. Prova é que se aproximaram do PT, e conseguiram favores que nenhum prêmio lotérico no planeta supera. Mandavam no BNDES. Prova ainda maior dessa astúcia é que se aproveitaram da bonomia de Rodrigo Janot para desviar a atenção de seus “padrinhos” petistas, os únicos que poderiam tê-los elevado à altura em que estão. E sair livres e ricos. Levaram Janot a perseguir uma mala com 500 mil reais, pensando que ela vai levá-lo ao presidente Michel Temer, enquanto eles se vão para os EUA com alguns bilhões e a atenção se desvia de seus padrinhos petistas. E faço a pergunta: são astutos mas não tinham a destreza para os grandes voos externos que deram. Quem Lula pôs ao lado deles para os guiar lá fora? Para ensiná-los a fazer negócios internacionais? Para montar para eles um banco? Alguém vivido e experiente internacionalmente, sem dúvida. Mas tudo são sombras quando se trata das questões do BNDES, e dificilmente saberemos. l