O Brasil acaba de superar uma marca mundial. Alvíssaras? Não, só constrangimento e vergonha.

O país acaba de exibir um episódio de corrupção e de gangsterismo sem paralelo no mundo, em volume, em extensão, em criatividade (maligna) e em envolvimento de figuras altamente posicionadas na República. O escândalo do Banco Master, que, ao que parece também se liga ao escândalo anterior, o do roubo dos velhinhos do INSS, é de deixar humilhada a icônica Máfia Italiana.

A figura principal do escândalo, o misto de banqueiro, gangster e outras coisas, Daniel Vorcaro (por ironia, sobrenome italiano), superou em audácia os mais destemidos capos, os mais sombrios padrinhos e chefões aparecidos no cinema hollywoodiano sobre a organização criminosa que era, até agora, o paradigma mundial do crime organizado.

Giovanni Falcone e Paolo Borsellino juízes italianos
Giovani Falcone e Paolo Borsellimo: assassinados pela máfia italiana | Foto: Reprodução

Mal comparando: em volume, o estouro do Banco Master, ainda que não bem avaliado até agora, é algo que supera os R$ 60 bilhões. Apenas o prejuízo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é maior que R$ 50 bilhões.

O escândalo do Banco Ambrosiano, que envolveu a Máfia e o Banco do Vaticano em 1982, deixou um rombo de “apenas” 1 bilhão de euros, ou 6 bilhões de reais, dez vezes menos que o do “nosso” Banco Master. A Máfia Italiana que se recolha, pois, à sua insignificância.

No que respeita à relação com a Justiça, também, o caso Master se posiciona como mestre, ensinando à Máfia Italiana como proceder.

Acossada pela justiça, a organização criminosa da Itália recorreu à violência e à intimidação. Tentou conter juízes e promotores pelo medo. Entre 1970 e 2000, a Máfia assassinou cerca de duas dezenas de autoridades judiciárias italianas.

Totò Riina e Bernardo Provenzano: mafiosos da Cosa Nostra | Fotos: Reproduções/Montagem

Casos famosos tiveram repercussão mundial, e foram muito noticiados, no Brasil inclusive. Ficou conhecido o atentado que matou o juiz Giovanni Falcone, sua esposa e três seguranças. Os mafiosos detonaram, em 1992, por controle remoto, 500g de explosivos colocados sob uma ponte, em Palermo, quando o carro de Falcone passava sobre ela. Falcone havia deflagrado a operação Mãos Limpas, que levou dezenas de mafiosos à cadeia. O juiz Paolo Borsellino e cinco seguranças foram mortos em um atentado com um carro bomba, também em 1992, e em Palermo.

Posso imaginar como Daniel Vorcaro encara esses casos: com desprezo, pela grosseria e pela falta de criatividade dos “colegas” italianos, ele que tratou a questão da relação com a justiça com muito refinamento e com uma enorme dose de delicadeza. Em vez da violência, uma aproximação gentil e cuidadosa, convites para solenidades semioficiais, só depois partindo para aproximações mais intimistas, como suntuosas festas, até chegar aos oferecimentos de vantagens aparentemente lícitas, embora plenas de más intenções. E quase deu certo. Até porque não se sabe quantos juízes das instâncias inferiores foram abordados e até cooptados pelo gigantesco esquema, que como vimos chegou até os ministros da Suprema Corte.

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Ibaneis Rocha e Daniel Vorcaro: no caminho o Banco de Brasília | Fotos: Divulgação e reprodução

Quanto à aproximação e envolvimento dos políticos, a Máfia Italiana também tem muito a aprender com Vorcaro e acólitos. A organização italiana se aproximou de políticos de menor porte, principalmente prefeitos municipais e conselheiros (vereadores) locais, para controlar licitações públicas de obras civis, que lhes permitiam lavagem de dinheiro.

Alguns foram descobertos, como na Calábria, em 2012. Posso imaginar Vorcaro balançando a cabeça, em sinal de desaprovação. “Não é assim que se faz”, diria ele. “Há que se ir direto ao topo da pirâmide e tratar com os figurões”.

Vorcaro com Davi Alcolumbre e Hugo Motta

O jornal digital CBN Política, no dia 5 deste mês, publicou: Mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro indicam que ele teria se reunido com o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, em agosto do ano passado.

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Hugo Motta, Lula e Davi Alcolumbre: os três conversaram com Daniel Vorcaro | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Em uma conversa com a influenciadora Martha Graef, namorada (ou ex-namorada) do empresário, Vorcaro afirma que o encontro ocorreu na residência oficial do Senado e teria durado até meia-noite. Segundo o diálogo, ele classificou a reunião como “boa” e mencionou a possibilidade de um novo encontro na terça-feira seguinte.

As conversas fazem parte do material apreendido pela Polícia Federal após a prisão de Vorcaro.

Em outros trechos, Vorcaro também cita encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. As assessorias de Alcolumbre e Motta foram procuradas, mas não se manifestaram sobre o teor das mensagens.

O jornal Poder 360 noticiou, também no dia 5 deste mês: Mensagens trocadas entre o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e sua ex-namorada, Martha Graeff, mostram que o ex-banqueiro teve encontros com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

As informações estão em mensagens trocadas pelo casal no Whatsapp que foram alvo de quebra de sigilo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Nas conversas, obtidas pelo Poder360, Vorcaro cita um jantar com “Hugo e 6 empresários” na “residência oficial”. O evento foi em 26 de fevereiro de 2025, menos de 1 mês depois de Motta ter sido eleito presidente da Câmara.

Em outro diálogo com a namorada, revelado pela CNN, Vorcaro relata encontro com o presidente Lula Silva, fora da agenda, em dezembro de 2024, onde estiveram presentes o presidente do Banco Central e três ministros do Governo (não revelou quais). Uma lição para a Máfia, cujas duas únicas tentativas de aproximação com figurões (os primeiros-ministros Giulio Andreotti e Silvio Berlusconi) foram malsucedidas.

E, dando ainda mais azas à imaginação, vejo Vorcaro, em conversa imaginária com os sisudos chefões da Máfia Italiana aconselhando: “Vocês levam os negócios com demais seriedade. Há que se misturar um pouco de alegria, como eu faço. Unir o útil ao agradável. Por exemplo, levar parlamentares, ministros do governo e juízes para uma degustação de uísque Macallan em Londres; ou para uma festinha com 300 garotas de programa levadas da Ucrânia, da Rússia e outros países. Afinal, vocês estão na Europa, bem mais perto que eu, que estou no Brasil. Usem a imaginação.”

Deixando de lado a ironia, cada dia temos mais com o que nos envergonhar. Mas há, claro, quem, como certos políticos e banqueiros, que não se envergonham.