Entenda por que Miguel Torga merecia o Nobel de Literatura… e não José Saramago
17 janeiro 2026 às 21h00

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O leitor certamente não saberá dizer quem foi Adolfo Correia da Rocha (1907-1995), mas não terá dificuldade em identificá-lo por seu pseudônimo: Miguel Torga.
Tenho vários amigos portugueses que discordam quando indagados sobre o merecimento do único Prêmio Nobel português de Literatura, conferido a José Saramago. Há outros mais merecedores — dizem — e concordo.
Mencionam quase sempre António Lobo Antunes (vivo, nasceu em 1942) e Miguel Torga. Coincidentemente, ambos médicos e ganhadores do prêmio Camões — o maior prêmio literário em língua portuguesa —, além de muitos outros prêmios, e traduzidos para várias línguas.

Miguel Torga foi romancista, contista (principalmente), poeta e dramaturgo. Mas foi antes de tudo um exemplo de superação. Publicou mais de cinquenta livros e foi traduzido para uma dúzia de línguas, o japonês inclusive.
Filho de um casal humilde de agricultores, nasceu na região mais pobre de Portugal, em Trás-os-Montes, lugar de terras áridas e pedregosas, de difícil agricultura.
Como a vida ali não era fácil, foi a região portuguesa que mais emigrou seus cidadãos, inclusive para o Brasil. Nas décadas de 1920 a 1950, era comum, ao indagar a um português que vivia no Rio de Janeiro sobre sua origem, ouvir como resposta: “Sou trasmontano”.
Aos 10 anos, Torga foi mandado para a cidade do Porto, onde fazia trabalhos caseiros para sobrevivência, e aos 11 para um seminário, na tentativa paterna de torná-lo religioso e assim lhe dar uma ocupação.

Mas o rapaz era determinado, e comunicou ao pai que não tinha inclinação para o sacerdócio.
Como havia um tio dono de uma propriedade rural em Minas Gerais, no então longínquo Brasil (que só era acessível por mar), foi mandado para trabalhar com o parente no além-mar, aos 13 anos. Sorte sua.
O tio percebeu a inteligência viva do rapaz, o matriculou em uma escola vizinha, em Leopoldina, e ao fim de cinco anos se propôs a custear seus estudos na universidade. Torga regressou a Portugal e fixou-se em Coimbra, onde, graças ao tio, terminou o então liceu e cursou medicina, dos 20 aos 25 anos.
Já no primeiro ano de faculdade publicou um livro de poemas — “Ansiedade” —, e dividiu os estudos médicos com a atividade literária, em colaboração com revistas e na elaboração e publicação de outros livros, em prosa e em poesia.

Formando-se em medicina em 1933, foi exercê-la na sua região pobre de Trás-os-Montes, transferindo sua moradia para Coimbra em 1939, já tendo então, como atividade principal, a literatura. Durante mais de sessenta anos de atividade, produziu incessantemente, escrevendo até pouco antes de sua morte por câncer, em 1995.
Miguel Torga escreveu poemas sobre o Brasil
Seus escritos, embora variados em seus temas, são mais fortes quando retratam os personagens e as situações que testemunhou na sua região agreste, de homens sofridos e resistentes, vivendo sem outro amparo que não seu valor pessoal, sua capacidade de sobrevivência e da solidariedade entre desassistidos.
Um exemplo ilustrativo de sua obra está no admirável volume “Contos da Montanha”, publicado em 1941, uma das obras mais admiráveis da literatura portuguesa.

Vale lembrar que o pseudônimo Miguel Torga foi adotado por ele próprio em 1934, aos 27 anos, depois de se formar, ao começar a clinicar em Miranda do Corvo, no norte português. Foi uma homenagem do então Adolfo Correia da Rocha a dois gigantes da literatura ibérica, Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno e ao mesmo tempo a um arbusto, uma urze dos terrenos pedregosos e de pouca água de Portugal, que mesmo em face do agreste floresce e encanta: a Torga (nome científico: Calluna Vulgaris).
Torga não se esqueceu de sua adolescência no Brasil (dos 13 aos 15 anos). Mais de trinta anos depois de sua volta a Portugal, no livro “Diário VIII”, de 1957, encontra-se o poema Brasil, cujos primeiros versos são:
Pátria de emigração,
É num poema que te posso ter…
A terra – possessiva inspiração;
E os rios – como versos a correr.
Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como pude
Onde podia:
Na doce quietude
Da força represada da poesia

No livro Diário XI, este já de 1970, outro poema, como mesmo título, Brasil, reza:
Brasil onde vivi, Brasil onde penei,
Brasil de meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Caia do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar! Perder-te mais. Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois polos de atração no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos,
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza de um regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse,
Entre o chão encontrado e o chão perdido.
Por sua origem, Torga estava destinado a uma trajetória de vida plana, horizontal e medíocre. Firmou-se num tripé de força de vontade, de dedicação aos estudos e de talento, e tornou essa trajetória vertical, de elevação e de chegada ao topo da literatura de Portugal.
Mesmo os duros percalços de berço e de vida não contaminaram sua alma de poeta, como se vê em “Para a Manhã”, poesia composta no alvorecer, ao contemplar uma rosa orvalhada:
Rosa acordada, que sonhaste?
Nas pálpebras molhadas vê-se ainda
Que choraste …
Foi algum pesadelo?
Algum presságio triste?
Ou disse-te algum deus que não existe
Eternidade?
Acordaste e és bela:
Vive!
O sol enxugará esse teu pranto
Passado.
Nega o presságio com perfume e encanto!
Faz o dia perfeito e acabado!
Miguel Torga merece admiração e respeito. É muito lido em Portugal e na Europa. Precisa ser mais lido no Brasil.

