Conto: O Amor nos Tempos do Covid (como diria Gabriel García Márquez)
21 fevereiro 2026 às 21h00

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Chamo-me Alfredo. Alfredo Azevedo Antunes. Cá estou, neste Rio de Janeiro, enquanto, Rosália, portuguesa, me aguarda em Aveiro. Nestes meses em que me confino num quarto de hotel, nessa enorme cidade que não é mais minha, espero voltar breve a abraçar Rosália. E faltam-me a placidez das ruas, a brisa fresca e a evocação histórica dessa Aveiro dos meus avozinhos, hoje meu lugar, regaço em que me deito. Explico tudo, tenham paciência. Começo por contar por que cá estou e lá está ela. O que seria uma ausência de uma semana, enquanto resolveria umas questões no Rio, transformou-se em uma delonga de meses, por conta desse Corona Vírus, ou COVID-19, qualquer que seja o nome que se dê a essa coisa que adoece e mata pelo mundo afora. Cheguei aqui no final de fevereiro deste 2020, numa Quarta-Feira de Cinzas, carnaval acabando nessa cidade que parece viver dele e de mais futilidades. Lá se vão três meses. Quando saí de Portugal não havia pânico, nem lá e nem cá. Hoje há mais que isso: há histeria. Não basta o vírus. Misturam-no com política e ideologia. Mas essas confusões tropicais não me interessam. Estou-me nas tintas, como dizem lá em Portugal. Estou-me muito mais para Aveiro do que para Rio de Janeiro. Ocorre que não me deixam que volte, não há mais voos e Portugal mesmo não quer estrangeiros chegando com nova carga de vírus, agora que põe a casa em ordem. Devo aguardar, não sei por quanto tempo, espero que não seja muito, estou angustiado.
Como fui dar com os costados em Aveiro? Tento resumir:
Meu pai era comerciante e minha mãe professora, ambos filhos de portugueses. Ele, dos Azevedo Antunes, da Beira. Ela, dos Queirós, de Aveiro. Nasci na zona norte carioca, na Tijuca, no fim da década de 1960. Bela cidade era então, esse Rio de Janeiro. Capital da República, efervescente centro cultural e artístico, bonitas e imaculadas praias emoldurando a fascinante baia da Guanabara. Cidade segura, ensolarada o ano todo, lugar bom de se conhecer e de se viver. Muito diferente de hoje, poluída, dominada pelo tráfico, economia em declínio, turistas afastados pela insegurança dos assaltos. E com uma classe política muito ocupada em arrombar cofres públicos, sem tempo para alguma ação em benefício da cidade. Uma plácida Tijuca, ainda com belas florestas, uma boa escola de religiosos batistas, uma ida semanal à praia em Botafogo ou Copacabana, a torcida pelo clube Vasco da Gama no estádio do Maracanã aos domingos, esse foi o quadro de minha infância, hoje desfigurado por um trânsito caótico e um aglomerado de construções obedecendo apenas à especulação imobiliária. Minha família não tinha posses, e muito lutamos, minha irmã Maria da Graça – Graça para os familiares – e eu, para nos formarmos, ainda que o esforço paterno e materno fosse de muita ajuda. Estudei engenharia, me formei em 1990, e me empreguei em uma construtora aqui no Rio. Na Universidade, conheci Clarisse. Ela estudava Letras, e encantei-me de saída com seus cabelos longos e seus olhos negros, mas principalmente com seu feitio alegre e espontâneo, responsável por seu sucesso entre os colegas. Namoramos. Conheci seus pais, e confesso: não houve entre eles e eu, aquilo que nós brasileiros chamamos de química entre pessoas. Não houve simpatia de parte a parte. Achei-os um tanto prepotentes e por demais inchados de orgulho por sua fortuna. Acharam-me, por certo, abaixo do que esperavam para marido de sua filha caçula (tinham outras duas, com as quais, acrescente-se, também não me dei lá muito bem). Desejavam, disso não tenho dúvida, alguém com uma árvore genealógica mais frondosa e uma herança substanciosa, coisas que eu não tinha. Mas isso não me causava abalo. Bastava-me Clarisse, e parecíamos destinados a nos completar. Trabalhando bastante, ascendi na empresa em que me ocupava. Abri um curso noturno de preparação para entrada nas escolas de engenharia, juntamente com dois colegas de faculdade, e passei a ganhar meu rico dinheirinho. O suficiente para montar um lar com conforto e dar uma ajuda a meus pais, já bastante encanecidos. Dois anos depois, fechamos o curso e abrimos uma pequena empresa de engenharia. Fazíamos reformas em casas, apartamentos ou lojas, coisa mais trabalhosa que construir, mas um pouco mais rendosa. Tem-se de começar de baixo. O namoro com Clarisse era o céu. Dávamo-nos bem, os gostos eram os mesmos, nossos fins de semana contemplavam sempre uma praia, cinema, música ou dança nalgum barzinho de Copacabana ou Ipanema, uma festinha em casa de uma de suas amigas ou de um meu colega. Por vezes fazíamos uma visita a meus pais, que com ela tiveram boa “química” desde os primeiros dias. Já com os pais de Clarisse continuava a não me sentir à vontade. Um fim de semana no pomposo sítio que tinham em Petrópolis me bastara. Me esquivava de lá voltar. Um tédio, ouvir o pai de Clarisse gabando de sua fortuna, de como a fizera, de suas espertezas nos negócios com concorrentes ou com o governo. Por outro lado, mesmo com meus progressos no trabalho, sentia-me olhado de esguelha: era o pobretão que almejava a filha do ricaço. Elite ignorante, pensava comigo. Não sabe distinguir um vencedor por conta própria, como vou ser.
O tempo corria. Eu amealhava uma poupança, pensando no casório, e o Sr. Augusto, meu futuro sogro, na certa esperava que Clarisse me trocasse por melhor partido. Quem sabe o filho de um de seus amigos arrogantes e endinheirados. Foi em 1995 que pedi Clarisse em casamento, o que me foi concedido sem entusiasmo. Marcamos a data. Eu havia comprado um pequeno apartamento no Flamengo. Modesta morada, é verdade, mas prática: perto do Centro, onde eu trabalhava, e accessível à Ilha do Fundão, onde Clarisse, para minha satisfação e desgosto de meus sogros, estava lecionando, na Faculdade de Letras. O Sr. Augusto torcera o nariz: – Mulher tem que cuidar de casa. Só.
Era o que minhas duas cunhadas, já casadas, faziam. Ou diziam que faziam. Tinham lá suas domésticas, que cuidavam de tudo, enquanto elas mesmas apenas tratavam de suas vaidades: clubes, modistas, cabeleireiros. Ainda bem que Clarisse não seguira nessa mesma linha. De saída um incômodo: quando marcamos o casamento, Sr. Augusto chamou-nos, a Clarisse e a mim:
– Há um apartamento à venda aqui no prédio. Vou comprá-lo, e vocês vão morar aqui. É bom para Clarisse ficar perto da mãe.
Meus sogros tinham um apartamento em Ipanema, de frente para o mar, em um prédio de luxo. Respondi:
– Agradeço, Sr. Augusto. Já tenho onde morarmos. Não é como aqui, mas minha mulher e eu vamos construir juntos nossa vida, e queremos crescer sem benesses de quem quer que seja.
Pensei que ele teria um infarto, tão rubro ficou. Mas contentou-se em rosnar:
– Façam como quiserem.
Casamo-nos. A combinação era não termos filhos antes de dois anos. Até lá teríamos apartamento maior e melhores condições para criar os pimpolhos. E foram dois bons anos, não nego. Trabalhávamos bastante, mas tínhamos nossos divertidos fins de semana, tal e qual na época em que namorávamos. Por vezes fazíamos um programa familiar. Com a família de Clarisse, pois meus pais, já mais velhos, não tinham disposição – nem muita saúde – para festas, andanças ou passeios de barco. Clarisse apreciava essas saídas, e é natural. Afinal, eram seus pais e suas irmãs em confraternização. Já para mim os atrativos nesses encontros eram poucos ou inexistentes. Sogros e cunhadas não me apreciavam muito (devo confessar que a recíproca era idêntica) e os dois concunhados não cheiravam nem fediam. Na verdade, até fediam um pouco. Saídos do círculo de amizades de meu sogro, trabalhavam ou faziam que trabalhavam em suas empresas e moravam de favor em apartamentos cedidos por ele. Bebiam demais, e eram superficiais, além de irreverentes no linguajar. Mas não me competia cortar ou mesmo restringir o convívio de Clarisse com os seus. Mas bem que eu gostaria que essas sortidas familiares fossem raras.
Ao fim desses dois anos as coisas começaram a se modificar. Os filhos, agora esperados, não vinham. Clarisse entediou-se com seu trabalho e resolveu deixá-lo. Passava mais tempo – agora que o tinha livre e enquanto eu trabalhava – com as irmãs. E eu, cada vez mais uma ovelha fora do rebanho, procurava no trabalho minha compensação para esses desagrados. Não costuma haver remédio para a degradação natural das coisas, para o rolar ladeira abaixo: Clarisse, a princípio imperceptivelmente, mas depois claramente, passou a adotar os hábitos das irmãs: clube, salões de beleza, praia quase todos os dias. Nada de útil. Não me ouviu quando sugeri voltar a dar aulas ou mesmo fazer um curso de mestrado. Nem mesmo levou a sério minha sugestão de algum trabalho comunitário. Passou a procurar diversões mais dispendiosas, como nova e desnecessária pintura em nosso apartamento (havíamos mudado para um maior, em Botafogo), uma troca descabida de mobília, coisas assim. Nem preciso dizer que nossa harmonia dos primeiros tempos se desvanecia. Certo dia, apareceu-me com veículo novo, importado. Indaguei como pagaríamos pela troca. A resposta foi que havia pedido ao pai, que autorizara a permuta numa concessionária de Copacabana. Fui à concessionária, fiz o pagamento devido e disse a Clarisse, com todas as letras que ninguém pagava despesas em minha casa, além de mim. E que, doravante, qualquer gasto extra, só me consultando previamente. Ficou amuada. Meu sogro, já não muito comunicativo comigo, passou à secura. Não me importava: para seco, seco e meio. Os filhos não vieram, as consultas e tratamentos deram em nada. Se tivessem vindo, as coisas poderiam ter corrido de modo diverso. Mas isso é especular. Esfriando, nosso casamento durou apenas mais um pouco. Havia chegado àquela situação em que Clarisse mais vivia com as irmãs do que em casa. E eu buscava cada vez mais no trabalho, a calma que cada vez menos encontrava em casa. Não era agradável, ao fim do dia, a volta para ela, onde me esperavam uma má catadura, silêncios ou reclamações, recriminações ou comparações. Minha mulher era uma estranha com quem tinha convivido dez anos, conclui. Separamo-nos, para visível satisfação de meus sogros, ou melhor, de toda a família de Clarisse, e para minha tristeza, agora com uma sensação de fracasso. Até onde era eu o culpado do ocorrido? Sabe-se lá… Quando fazemos planos, os deuses se riem, diz o ditado.
Por falar em ditado, há outro que cabe aqui: A desgraça nunca vem só. Em fins de 1999, havia morrido meu pai, depois de longa doença cardíaca, inoperável. E agora vinha o pior: Minha mãe, morando em meu apartamento do Flamengo, onde eu podia melhor assisti-la em seus males de velhice, pediu-me, na véspera do Natal de 2007, que a levasse ao médico, em Copacabana. Voltávamos, no fim da tarde, quando paramos, eu guiando e ela ao meu lado, num engarrafamento à entrada do Túnel Novo. Não vi de onde surgiu o bandido, que me espetou na cara um revólver, pedindo a carteira e o relógio. Assustei-me, devo ter feito um gesto brusco, e o tiro partiu. Perdi em segundos minha mãe, atingida no peito, enquanto o pivete desaparecia, saltando entre os carros. Eu estava agora sozinho entre seis milhões de habitantes daquela cidade imensa, antes acolhedora, agora hostil. Não falei antes, mas falo agora: minha irmã, Graça, havia se casado com um militar português. Ele viera visitar parentes na colônia lusa da Tijuca, e a conhecera. Vivia agora em Lisboa, acompanhando o marido, o major Lourenço. Mais só do que me encontrava no Rio de Janeiro, impossível. Resolvi seguir o conselho de Graça, que viera para o enterro de nossa mãe:
– Vá conhecer Portugal. Ou mesmo mude para lá. Estamos esperando.
Combinei com meus sócios uma ausência prolongada e fui a Portugal, onde passei dois meses verdadeiramente refrescantes na companhia de Graça e Lourenço. Meu cunhado tomara umas férias, alugamos um carro e percorremos o país, pequenino, se medido pelas réguas do Brasil. Do ensolarado Algarve até a grave Póvoa de Varzim. Passamos pelo Santuário de Fátima e pela Serra da Estrela. Fomos ao Porto, ao vale do Douro. Fartamo-nos de cidadezinhas aprazíveis e acolhedoras, repletas de história e tradições, vinhos e boa mesa. Portugal de meus avós, devia ter-te conhecido há mais tempo!
Voltei ao Rio. Afinal, esperava-me o trabalho. Nossa construtora havia crescido, construíamos habitações populares no entorno da metrópole e ensaiávamos algumas obras públicas, mas desistimos – esse ambiente era muito poluído pela corrupção.
Procurávamos trabalhar apenas com particulares, ganhávamos dinheiro, mas o mercado era restrito. E havia minha solidão. Passei a pensar numa mudança para Portugal. Afinal tinha lá minha irmã e meu cunhado, tremendo boa praça com quem, ao contrário do que acontecera na família de minha ex-mulher, tinha fraterna amizade. Pensei também em requerer a cidadania portuguesa, algo relativamente fácil para um neto de lusitanos por parte de pai e de mãe. Mas ainda tinha muito trabalho, e o tempo passava.
Só voltei a Portugal em 2015, fazendo uma sondagem: com meus quarenta e poucos anos iria me adaptar noutro local que não a minha terra de nascença? Conseguiria desenvolver minha atividade normalmente em país estrangeiro? A verdade é que já não me sentia fora de casa em Portugal, ouvindo nossa língua, mesmo com aquele forte sotaque lusitano, que me embaraçava se falassem muito depressa. Depois de mês e meio, eu já adquiria alguns hábitos de linguagem e uma entonação mais portuguesa, quase eliminando, ou melhor, a eliminar o gerúndio como fazem por lá. Já não dizia lugar, dizia sítio e não insultava os comboios, nominando-os como “trens”. Usava a segunda pessoa, em vez da terceira. Em lugar do “estou aqui”, passei a usar o “cá estou”, e assim por diante. E me deliciava com isso, enquanto Lourenço dizia:
– Chegaste cá falando brasileiro, mas já estás quase a falar português!
Afinal, estava na terra de meus avozinhos, e dela eu ouvira muitas e deliciosas narrativas. Em cada cidade, em cada rua, era fácil encontrar um pedaço de história, o mais das vezes encadeada na própria história do Brasil. Ali moravam minha irmã e meu cunhado. Vou para o meio termo, pensei comigo. Alevanto parte de meus capitais, compro morada aqui, fico tempo no Brasil, tempo em Portugal e vejamos no que dá. Mas precisava definir onde me fixar.
Algo eu já sabia: não moraria em Lisboa, para decepção de Graça. Nem no Porto. Não me apeteciam cidades grandes. Teria que escolher um sítio agradável, não muito longe de Lisboa, pois mesmo não vivendo nela, não poderia me distanciar de minha irmã e de meu cunhado, que já era como um irmão que me fazia alegre. Voltei no fim de 2017. No bolso, uma lista de cidades a percorrer. Comecei por Évora, Graça me acompanhando. Bom tamanho, bonita, agradável como quase todas as cidades portuguesas, mas faltava algo: não tinha mar. Algo fundamental para um cidadão costeiro de nascimento e criação, como eu. Deixei de lado minha lista pré-selecionada e fiz outra: Ericeira, Peniche, Caldas da Rainha, Nazaré, Figueira da Foz e Aveiro. Todas à beira-mar, ou dele muito próximas. Em qualquer uma delas que me estabelecesse, estaria em meu elemento marítimo, teria a placidez que as metrópoles não dão e não estaria longe da morada de minha irmã, que poderia alcançar, de carro ou comboio, para um fim de semana ou para uma noite de teatro e jantar. Aluguei um carro em Lisboa e fiz o percurso naquela ordem, permanecendo, em cada cidade ao menos um dia e uma noite. Aveiro foi a última, não só por ser a mais ao norte, na minha seleção. Lá fiquei um pouco mais de tempo. Por quê? Já lhes digo: ainda não a conhecera, nas outras viagens, mas a conhecia de histórias, terra que é de meus avós maternos. Meu avô, Ramalho de Queirós, imigrara para o Brasil em 1920, em busca de melhores condições de vida. Contava-me histórias de navegações e de batalhas, de espadas e de catedrais. Conhecia os poetas portugueses e declamava sonetos, com solenidade. Amava Aveiro, e ouvi dele muitas coisas sobre sua terra natal: A história de uma princesa que se tornou santa, as façanhas dos condes locais, um dos quais pereceu ao lado de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, um padroeiro da cidade, chamado São Gonçalinho que atendia as preces das mulheres encalhadas, ainda que maduras, e lhes arranjava maridos. Muita coisa de história e de lenda, mas tudo fascinante.
Fiz a viagem aproveitando meu próprio silêncio para fazer as auto indagações, que todos fazemos, vez por outra. Uma companheira me fazia falta, sem dúvida. Mesmo quando já nada ia bem em nosso casamento, ainda íamos bem na cama, Clarisse e eu. Divorciado, tive alguns casos, mas nada que tivesse um mínimo de compreensão e cumplicidade. Satisfazer apenas o apelo da natureza, pelo menos do meu lado. Minha ex-mulher era boa parceira de sexo, mas era uma desconhecida, com quem eu não dividia problemas, mágoas, preocupações. Minhas amantes foram tão superficiais quanto uma sessão de cinema. Ainda não sabia bem o que buscava. Mas ao mesmo tempo em que me indagava, aproveitava a paz interior que me dava a terra portuguesa. Boas estradas, cidades aprazíveis a distâncias curtas, sair a qualquer hora da noite sem correr riscos, tudo que não fazia parte de minha vida carioca. Gostei das cidades todas da minha lista, mas com Aveiro foi diferente. Atavismo ou lembranças das histórias avoengas, não sei.
Conheci o museu de Santa Joana, os moliceiros, a universidade, o centro histórico, como se voltasse a um lugar há muito visitado e já meio esquecido, mas atraente e acolhedor. Era ali que eu iria me aninhar.
De volta a Lisboa, comuniquei a Graça e Lourenço minha escolha. O lugar era aquele, mas faltava algo: uma atividade que eu pudesse exercer, ligada à minha formação profissional. Não tinha como me mudar para Aveiro, ou simplesmente lá passar temporadas e ficar no ócio todo o tempo. Poderia fazer minhas viagens pelo país e arredores, mas isso acaba por entediar. Eu já me sentia desconfortável no Rio de Janeiro, não podia me arriscar ao mesmo em Aveiro. Lourenço me afirmou:
– Nada a preocupar. Tenho amigos em Aveiro que vão apresentar-te muitas oportunidades, vão dar mais informações do que podes absorver e hão de mostrar-te as melhores opções de investimento e trabalho. E vão ajudar-te a encontrares a morada que mais te sirva. Quando queres lá ir?
– Tenho que voltar ao Rio para umas desmobilizações e entendimentos com meus sócios. Volto logo.
Graça piscou-me um olho: – E arranje na volta uma namorada portuguesa. É o melhor para si.
Essas mulheres têm mesmo um sexto sentido, pensei cá comigo.
Minha volta ao Rio reavivou dores antigas. Tenho uma pisadura no peito, que é meu divórcio. Mas doem mais fundo as duas feridas: a morte de meu pai, buscando o ar, em sua crise cardíaca; e a de minha mãe, vítima inocente da violência de uma cidade tomada pela marginalidade. Tratei de vender alguns imóveis, e acertar com meus sócios uma redução na minha posição acionária. Continuaria sócio, mas minoritário, enquanto balançasse entre Aveiro e o Rio. No futuro, conversaríamos. Mas o país não ia bem, havia uma crise econômica, os imóveis não se vendiam facilmente. E meus sócios necessitavam de meu concurso ainda por uns tempos. Não tive como voltar a Portugal tão rápido.
Nos fins de tarde, passeava pela Avenida Atlântica, e um pouco mais me sentia tentado por Aveiro: Se lá a despreocupação nas ruas é uma constante, e ninguém teme uma agressão, por cá todos andam amedrontados, nas caminhadas ninguém usa joias, os celulares ficam escondidos, alguém malvestido faz com que todos se afastem, o cidadão que caminha ao lado pode ser o bandido que lhe assalta. Quanta diferença de minhas largas e calmas caminhadas ao longo dos canais ou percorrendo a Avenida Lourenço Peixinho, a principal de Aveiro.
Demorei-me bem mais do que esperava, acertando meus negócios, mas no verão de 2019 desembarquei em Lisboa, onde me esperavam Graça e Lourenço. Quis saber de Lourenço sobre seus amigos em Aveiro:
– Temos tudo organizado por lá. Meus amigos Souza Marques, que são três irmãos, todos militares, dois reformados e um na ativa, nos esperam. A irmã, Rosália, é arquiteta, tem escritório próprio e tem parceria com uma imobiliária e uma construtora. Ficaram entusiasmados em te ser útil. Vais gostar deles. Mas antes de lá ir, vamos fazer alguns passeios, que há tempos não nos vemos. Daqui a uma semana, vamo-nos para Aveiro. Também ficamos lá uns dias, Graça e eu, enquanto te ambientas e fazes tuas primeiras sondagens. Depois ficas entregue à própria sorte e aos teus afazeres, lá com os meus amigos.
Pelos passeios, que me aguardavam, não era difícil deduzir que restava a Graça alguma esperança de que eu me fixasse mais próximo de sua morada, em Lisboa. Guardava por certo as lembranças de nossa infância e adolescência, nós dois os únicos filhos da casa, sempre muito unidos, mesmo depois de adultos, até que se casasse e mudasse para Portugal. Sua lista de passeios contemplava Oeiras, Cascais, Estoril, Sintra, nada muito longe de Lisboa. Vã esperança de Graça. Meu destino, já traçado, apontava mesmo para Aveiro.
Pusemo-nos a caminho numa quinta-feira, logo após o almoço. Sem pressa, estaríamos em Aveiro no final da tarde, tomaríamos o hotel, onde nos encontraria à noite o mais novo dos Souza Marques, chamado Pedro, colega de turma de Lourenço no Palácio da Bemposta, sede da Academia Militar Portuguesa. Começo de vida nova? Perguntei ao agora meu constante interlocutor, isto é, eu próprio. Pedro chegou lá pelas oito horas da noite no saguão do hotel. Agradou-me ao primeiro contato, ao aperto de mão. Dir-se-ia irmão de Lourenço: mesma fisionomia franca, aberta, agradável, de quem nada esconde e não se julga superior e nem inferior ao resto da humanidade. Não desdenhou o convite para jantar. Desfiaram, Lourenço e ele, as lembranças do tempo de Academia e dos melhores acontecidos na carreira. Tomávamos o café, quando anunciou:
– Rosália, minha irmã, nos aguarda amanhã pelas nove horas em seu escritório. Venho buscar-te um pouco antes. Seu escritório é de Arquitetura, mas ela tem dois outros interesses que vão ao encontro do que queres saber, e dizem também respeito à tua profissão: ela supervisiona as construções que projeta, e é parceira de uma imobiliária de alcance nacional, que comercializa imóveis de toda classe. Creio que terás todas as informações que buscas.
Agradeci a atenção, desculpando-me pelo incômodo que iria causar. Sua resposta foi imediata:
– Não causas qualquer incômodo. Falo por Rosália e pela família. Podes usas o escritório dela o quanto quiseres. Já lá há uma sala separada para ti, onde vais ficar até que te estabeleças. Rogo que não te constranjas e não saias de lá enquanto não estiveres seguro de que conheces tanto quanto ela o mercado imobiliário português. Verás que o escritório é grande, confortável, não vais tomar espaço de ninguém, e agrada a Rosália ser útil. Ademais, tenho Lourenço como irmão, logo tenho-te como da família.
Agradeci, um tanto encabulado pelas atenções. Não estava acostumado com elas, fora do convívio com meus pais e Graça. E o exemplo mais forte vinha da família da que fora minha namorada, noiva e mulher: anos de desatenções. Isso me veio de imediato à cabeça, não como mágoa do passado, mas como conforto do presente.
De fato, era grande o escritório. E de bom gosto: aos móveis modernos, misturavam-se peças de decoração antigas, louças na maioria. Uma risonha recepcionista levou-nos à sala de Rosália, que se levantou de sua prancheta, despediu uma estagiária a quem dava instruções, e veio nos receber. Senti o ar eletrificar-se à minha volta. Rosália era até então um nome, uma palavra. Teria vários significados, como atenção, utilidade, ou outros substantivos abstratos. Não me preparei, em momento algum, para a concretude que vinha a meu encontro. Ou tinha embotado, por um relacionamento longo e fracassado, meus sentidos de sedução e acasalamento. Mas não importa. Rosália, nos poucos passos que deu até a porta por onde entrávamos, foi um alumbramento. Da cabeça aos pés: da minha altura, cabelos lisos caindo pelos lados de um belo rosto oval, olhos claros que nos fixavam com confiança e firmeza, belas formas encerradas em um sóbrio vestido cinza sem decote, cuja única concessão à ousadia era uma fenda que subia acima do joelho e mostrava um início de coxa ao andar. De irresistível magnetismo, diga-se. Só as leves comissuras nos cantos dos lábios, denunciavam uma mulher além dos trinta anos, o que não quer dizer nada, ou melhor, quer dizer que além da beleza estaria ali também a experiência. Concentrei-me. Não podia ficar ali como um beócio, me fixando naquela fenda na saia do vestido. Rosália comandou:
– Vamos nos sentar – apontou uma pequena mesa de reunião, presente em sua sala arranjada com gosto, onde conviviam, com a mesa onde nos sentávamos, uma escrivaninha, uma prancheta de desenho e uma estante onde se mesclavam livros de arquitetura e decoração e pequenos vasos de flores frescas, num arranjo de incontestável bom gosto.
– É um prazer poder ser de alguma utilidade, Dr. Alfredo – prosseguiu. Soube que te interessas pelo mercado imobiliário e pelas construções. Minha especialidade é justamente nesse campo. Faço projetos para reabilitações, o que chamas no Brasil reconstrução de prédios antigos, preservando as fachadas, e acompanho essas obras. É algo muito em voga em todo Portugal, e particularmente cá em Aveiro. Também trabalho na comercialização das dependências advindas dessas reabilitações. Já tens cá uma sala, que vou mostrar agora, e sobre a tua mesa já está a legislação pertinente às reabilitações, a que respeita às novas empresas e a que trata das atividades de estrangeiros. Se algo precisares além disso, peço que me perguntes. Faça como se em tua casa. Permanece cá o tempo que precisares. E mais: vamos hoje à tarde percorrer algumas das reabilitações que fazemos aqui no centro da cidade. Amanhã, que é sábado, iremos à Costa Nova, onde também temos trabalho, e por lá almoçamos. Quero vossa companhia, tua, de tua irmã e de teu cunhado. Pedro também irá conosco.
– Não sei como agradecer tanta atenção, Dra. Rosália – respondi -. Gostaria que me dissesse como posso indenizá-la pelo espaço ocupado e pelas despesas que inevitavelmente vou acrescentar a seu escritório nesses dias. Poucos dias, espero – menti – em que vou estar aqui de lado, perturbando.
– Nada vais indenizar, até porque vamos trocar experiências sobre nossa atividade comum. Também quero me ilustrar sobre essa atividade no Brasil, onde, aliás, a Arquitetura faz escola de fama mundial. E me chames Rosália, deixemos de lado os títulos, já que vamos comungar o ambiente de trabalho.
– De acordo, Rosália. Sou também apenas Alfredo, doravante.
– Vamos conhecer tua sala – concluiu.
Graça e Lourenço, que pretendiam regressar a Lisboa no sábado, transferiram sua viagem para a segunda feira. Pedro havia sido categórico:
– Já tens compromissos até domingo, ainda que não saibas, Lourenço. Amanhã vamos à Costa Nova, e domingo vamos à casa de minha mãe, que lá almoçamos todos. Vamos os irmãos e as esposas, vai Rosália e não vos dispensamos aos três.
Ressurgiu a indagação que eu me fizera desde o momento em que vira Rosália: casada? separada? solteirona? Nada disso, afinal. Ao perguntar a Lourenço, o que ocasionou um olhar furtivo de Graça, acompanhado de um significativo sorriso, tive a resposta:
– Viúva. Há quase dois anos. Tem uma filha de doze anos, que está em estudos na Inglaterra.
Um meu descuidado suspiro de alívio também não passou despercebido a Graça. Ia falar qualquer coisa, mas preferiu calar-se.
As visitas às obras passaram-se entre meus interesses comerciais e minha atração por Rosália. O almoço em casa de D. Manuela, a mãe dos Souza Marques, significou a minha tarde mais descontraída desde que perdera minha mãe, anos atrás. De D. Manuela, ativa, falante, mas pequenina, eu perguntava: como poderia ser mãe daqueles homenzarrões que quase a dobravam em altura e daquela bela mulher também quase do mesmo porte dos irmãos? Dos irmãos Souza Marques e esposas ficou-me a lembrança da espontaneidade, da atenção e da cortesia. Quase senti-me em família. E lembrei-me inevitavelmente da família de Clarisse, em seu sítio de Petrópolis, anos atrás, onde eu, mesmo parte dela, me sentia um intruso.
Tive dias cheios, desde então, com a papelada. Os portugueses amam tanto a burocracia quanto os brasileiros. Com uma diferença: seus funcionários são extremamente educados, quer se trate de um investidor chinês milionário ou de um paupérrimo imigrante moçambicano buscando emprego. São muito atenciosos. Não há entre eles a prepotência e a grosseria da maioria dos empregados públicos cariocas encarregados do contato com o povo. Também pudera: os brasileiros que trabalham para o governo ganham melhor do que os que trabalham no setor privado e têm uma estabilidade ao fim de três anos de contratação, algo tão inexplicável quanto absurdo. Ficam com o rei na barriga.
Todo apaixonado é desajeitado, e eu estava apaixonado. Sem que eu nada dissesse, Rosália se desdobrava em atenções, o que me deixava ainda mais encabulado. Ofereceu-se para me encontrar um apartamento.
– Já tens ideia de onde morar? De quantos quartos queres uma morada? Casa ou apartamento? – Indagou-me um dia, entrando pela minha sala, trazendo um sol dentro de si.
– Preciso de um apartamento de dois ou três quartos, onde possam se hospedar minha irmã e cunhado, quando vierem a Aveiro, ali próximo do centro histórico, não longe do Teatro e das livrarias. São velhas paixões minhas a leitura e os espetáculos.
Dez dias depois eu tinha um apartamento sob medida, que em mais duas semanas estava decorado e mobiliado, pois Graça pedira a Rosália que cuidasse de tudo. E com o mesmo bom gosto de seu escritório.
Almoçamos juntos algumas vezes nas proximidades de seu local de trabalho. Quando lá almoçava, junto com algum estagiário, Rosália me fazia o convite, que eu não desdenhava. Mas eram encontros formais, outras pessoas presentes. Estive várias vezes em sua sala, tratando de assuntos profissionais, desejoso de uma conversa mais pessoal, mas me contive. Minha experiência matrimonial tinha redundado em timidez, na verdade. Num dia quente de agosto, ficamos até mais tarde no trabalho, e cheio de coragem, convidei Rosália para jantar. Havia um restaurante acolhedor próximo ao escritório. Aceitou sem titubeios. Pela primeira vez, falamos mais intimamente, indagamo-nos sobre nossas experiências matrimoniais, rimo-nos. Mesmo embevecido, não me insinuei. Todo apaixonado é meio néscio, qualquer que seja a idade. Mas Rosália, eu percebia, já adivinhava tudo.
Dias depois, veio até minha sala:
– Convidaste-me, hoje convido eu. Voltemos ao restaurante.
Ao fim do jantar, quando disse que a acompanharia até seu carro, na garagem, tomou-me pelo braço. Lá chegando disse-me:
– Entra. Vou deixar-te no hotel. Ainda não mudaste e nem compraste um carro, que eu saiba.
À porta do hotel, despedi-me dela com um beijo na face. Pareceu-me que esperava algo mais. Na verdade, não sabia como me comportar, embora a desejasse intensamente. Mas ela tomaria as rédeas: dois dias depois, novo convite:
– Sábado, busco-te ao hotel. Vais conhecer um belo lugar para jantarmos.
Jantamos de fato numa bela cantina, às margens de um canal, Rosália falante, seus olhos brilhantes após uma taça de vinho, me encantando mais que nunca, fazendo com que me descontraísse. Ao final:
– Moro aqui perto. Vais conhecer minha morada e tomamos um Porto. Queres?
Ora, se queria. Acho mesmo que nada mais queria naquele momento que a promessa contida no convite. Ainda que me achasse um parvo – como se diz em Portugal – por não ser eu a tomar a iniciativa.
Ao me despertar, na manhã seguinte, Rosália respirava placidamente, adormecida a meu lado. Pensei em beliscar-me. Não o fazem os que duvidam se estão acordados ou em sonhos?
Abertas as comportas, conversávamos todas as noites, à saída do escritório, detalhávamos nossas vidas, esclarecíamos nossas dúvidas.
– Atraímo-nos desde que irrompeste pelo meu escritório naquele dia. Não percebeste? – Perguntou-me.
– Percebi que fui fulminado por um relâmpago, quando lhe vi – respondi -. Mas não vi reações de sua parte. Riu-se:
– Querias que me atirasse a ti? Muito esperei que tomasses a iniciativa, que não vinha. Tomei-te o braço, quando te levei ao hotel, e parece que nem percebeste. Esperava naquele dia algo mais tórrido na despedida. Deste-me apenas um cândido beijo na face. Resolvi passar à ação, antes que me escapasses a uma cachopa qualquer.
– Meu casamento e minha vivência com a família de minha ex-mulher foram traumáticos. Tinha meus impulsos de conquista embotados. E temia que você me repelisse. Não poderia encarar seus irmãos se tivesse feito um assédio indevido, depois de tantas atenções.
– Tudo isso é passado! – Concluiu.
Meus receios eram os mais infundados possíveis. Ao perceber que namorávamos, não só D. Manuela, como os irmãos de Rosália não mudaram o tratamento cordial. Talvez mais atenções mesmo me dispensassem.
Chegava ao fim do ano. Meus negócios começavam a engrenar em terras portuguesas. Aprendera a me comportar dentro dos costumes locais, apreciar o trato educado, mas demorado dos órgãos públicos, ter paciência. Não tinha dúvidas, dar-me-ia bem em terras dos avós. Fizera alguns investimentos.
Pedi a meus sócios que se desfizessem de meu apartamento de moradia no Rio, que ainda não vendera. Que o vendessem mobiliado. Também transferiria o restante de minha posição acionária na empresa a eles. Que fizessem sua proposta. Qualquer que fosse, pensei comigo, eu aceitaria. Não era mais representativa minha participação e eram honestos os meus sócios. Definira minha vida futura, encontrara o que buscava, embora até há pouco não soubesse exatamente o que era, e que estava tão claro agora: Uma mulher que me completava, uma confidente por quem eu estava apaixonado, que me correspondia e em cuja família eu encontrava a que perdera com a morte de meus pais. E mais: a proximidade de minha irmã e meu cunhado, um trabalho tranquilo e promissor, em montante a não me escravizar. Por fim, uma cidade dos meus sonhos para moradia.
Enquanto aguardava as providências dos meus sócios, fazíamos algumas viagens pelo interior português. No Natal fomos conhecer Santiago de Compostela, a devota cidadezinha espanhola na fronteira norte portuguesa. Apenas Rosália e eu. Para que alguém mais?
Quando disse a Graça de meu namoro, riu-se:
– Pensas que eu não sabia? Rosália e eu falamos sempre. Conheço os detalhes.
– E por que você, minha própria irmã, nada me disse? Nem Lourenço?
– Segredos de mulheres. Lourenço, homem que é, tampouco sabe, ou deixam de ser segredos femininos.
Foi em fins de janeiro deste 2020 que recebi a notícia das últimas providências tomadas para encerrar minha vida carioca. Precisaria lá voltar para pouca coisa mais que assinar alguns papéis. Falei a Rosália:
– Vou ao Rio finalizar meus negócios no Brasil. Espero apenas passar o Carnaval, época em que toda a cidade não pensa noutra coisa. Em uma semana, dez dias no máximo, volto. Quer ir comigo?
– Com tanto trabalho que tenho? Não seria aconselhável.
– Outra pergunta, e formulada não em brasileiro, mas em bom português: À minha volta, queres casar comigo?
Riu-se. Olhou-me gravemente:
– Caso-me a qualquer tempo contigo. Mas não nos ocupemos disso por ora. Se quiseres, mudes para minha casa, hoje mesmo. Ou mudo-me para a tua. Casamo-nos quando nos apeteça. Na tua volta, um mês depois, ou em um ano. Encontrei-te; me encontraste. Sou o que buscavas, estou convencida. Mas mais convencida estou que és o companheiro que me faltava. Qualquer dia nos casamos em uma igrejinha de uma cidade próxima, sem pompas ou comemorações. Isso é o que menos importa. Somos maduros o bastante para sabermos o que queremos um do outro, que de resto já temos.
– Se o fazemos sem aviso enfrentaremos as fúrias de Graça e Lourenço. E talvez de tua família.
– Fazemos depois uma comemoração para todos, num dos almoços domingueiros de minha mãe, e tudo se apazigua.
Rosália mudou-se no dia seguinte para meu apartamento. Dias depois, no que chamamos no Brasil terça de Carnaval, último dia formal da festa, levou-me ao Porto, para o voo rumo ao Rio de Janeiro.
– Volto logo, miúda. – Despedi-me.
Não poderia imaginar que ficaria retido no Rio de Janeiro, ou nunca embarcaria. Essa a história resumida. Não muito, mas não dá para resumir mais, sem que bem me entendam. Estou em isolamento desde fevereiro, e maio já acaba. Um ócio inquieto, um desassossego, e saudades. Não me dizem quando posso estar de volta a minha Rosália e meu Aveiro. De meus dois mundos, colheu-me naquele errado a pandemia. Estou no que me exclui e onde não tenho seres queridos. A ponte para o outro, o que me acolhe, onde tenho meus amores, foi rompida. Derrubou-a um ente invisível, um mero vírus, que teima em não desaparecer para que ela se reconstrua e permita que eu volte. Não sabe ninguém quando isso dar-se-á. Pelo menos mais alguns meses, mas nada é certo, dizem-me, para que possa voltar a Portugal. Espero ansioso e saudoso, o retorno para onde me aconchego. É isso!
(Publicado originalmente na revista “Sicoob Cultura” n. 29)

