Césio: 6 equívocos da série Emergência Radioativa. Um deles é o desrespeito a Henrique Santillo
11 abril 2026 às 21h00

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Curioso por conhecer como a mídia trata o acidente do Césio 137 — que vitimou Goiânia e mesmo Goiás em 1987 —, assisti a série televisiva “Emergência Radioativa”, que tanto sucesso fez pelo Brasil afora e até noutros países.
O acidente, por suas dimensões físicas e psicológicas, merecia algo melhor, em termos de registro e divulgação, o que talvez ocorra um dia. Afinal, foi um dos maiores acidentes radiológicos já registrados.
Entenda porque digo isso.
1
Exemplo de Giovanna Campos, do Jornal Opção
Em primeiro lugar, porque não foi feito um documentário, mas uma semificção, em que o propósito parece mais comercial que histórico. Há pessoas ainda vivas que sofreram imensamente com o acontecido, e que merecem toda nossa consideração e respeito.
Um exemplo de reportagem historicamente respeitosa foi escrita pela jornalista Giovana Campos para o Jornal Opção, em 26 de março deste ano, com depoimentos dos sobreviventes. Vale a pena ler. Na série falta história e sobra teatro.
2
Personagem principal não existe

Outro fato que chama a atenção: na série televisiva, o personagem central é um jovem físico, de Goiás, que se comporta como herói em todo o correr da narrativa.
A informação da série é de que se trata de personagem fictício. Ou seja: o personagem mais importante do filme não existe, na realidade!
Já o segundo mais importante — fora as vítimas, naturalmente —, o diretor da Companhia Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Benny Orenstein, é, na verdade, o físico José Júlio Rosenthal (falecido em 2010), que de fato dispendeu enorme esforço no atendimento aos atingidos pela radiação.
3
Mudar o nome de Leide das Neves foi injusto

Com os nomes trocados, deixou a série de homenagear a memória dos mais sofridos. A garotinha Leide das Neves, que talvez em sua inocência seja a mais dorida das vítimas, teve o nome mudado para Celeste. Nenhum nome real foi mantido, o que não deixa de ser estranho. E injusto.
4
Rio Meia Ponte virou quase um Amazonas
As filmagens, também por mais estranho que pareça, não foram feitas em Goiânia, mas no interior paulista, em Osasco e Santo André, salvo engano. As imagens são, para quem conhece Goiânia, irreconhecíveis. O Rio Meia Ponte transformou-se em algo enorme, quase um Amazonas. Por uma questão econômica, mais um sacrifício da realidade histórica.
5
Diretor não falou com sobreviventes
Por incrível que pareça, nenhum dos sobreviventes foi procurado pela produção, segundo a Fundação Leide das Neves, que até hoje, quase quarenta anos depois, atende às vítimas. É inconcebível que se tenha feito algo cuidadoso sem esses testemunhos. Mas aconteceu.
6
Desrespeito com Henrique Santillo
O tratamento caricato dado ao então governador Henrique Santillo é mais que desrespeitoso.
Henrique Santillo surge com o nome fictício de Roberto Correia, não como o médico responsável e cuidadoso que era, mas como um governador ignorante, grosseiro, que demorava a tomar atitudes, cobrava em demasia dos profissionais da CNEN, queria se livrar às pressas dos rejeitos do Césio-137. Um seu inimigo que fosse produtor da série não seria tão eficiente.
Falo como testemunha presente, falo como quem esteve várias vezes com o governador Santillo em seus momentos de decisão, falo como quem testemunhou mais que sua preocupação, o verdadeiro sofrimento de Santillo com todo o acontecido do Césio.
Eu me encontrava no Senado quando recebi um pedido dele para encontrá-lo em Goiânia, o que fiz de imediato. Santillo estava aflito.
Sabendo que eu fizera, como extensão universitária, um curso de Engenharia Atômica e Nuclear, pedia algumas informações técnicas. Conversamos longamente, e procurei tranquilizá-lo um pouco.
Santillo temia que os resíduos de Césio já colhidos e agrupados pudessem continuar a fazer vítimas. Desejava saber o que poderia ser feito com eles, ainda provisoriamente manejados em Goiânia. Esclareci que deveriam ser armazenados em local apropriado, até para evitar novos vazamentos, e que deveriam ser armazenados em material isolante de radiação, por anos, até que os níveis radioativos baixassem a números inofensivos.
Informei que já existiam, há dois anos, locais próprios de armazenagem no Brasil, pois as usinas nucleares de Angra I e Angra II já estavam em funcionamento desde 1985 (estávamos em 1987) e produziam seus resíduos radioativos.
Afirmei que, se não remetessem esse lixo atômico para os depósitos existentes, o governo estadual teria que providenciar um local apropriado e seguro, em Goiás mesmo.
Santillo perguntou-me sobre os perigos de transportar a carga para o Rio de Janeiro e espalhar contaminação pelo caminho. Disse a ele que, tomados os devidos cuidados — e a CNEN sabia quais —, os perigos eram diminutos.
Deduzo que em função disso, Santillo tentou com a CNEN o transporte dos rejeitos para o depósito já existente no Rio de Janeiro. Uma vontade de resolver de forma rápida e apropriada um problema urgente — que a série mostra quase como uma inconsequência.
Tempos depois, recebo em Brasília novo telefonema e corro a Goiânia.
A CNEN se recusara a enviar os rejeitos para o Rio de Janeiro e exigira a construção de um depósito apropriado, e que estava quase pronto em Abadia de Goiás.
Santillo pedia que eu avaliasse sua segurança, se possível. Munido de meu pequeno contador de radiação, lá fui eu.
Fui bem recebido pelo pessoal da CNEN, que me mostrou as instalações, as toneladas de rejeito devidamente acondicionados em concreto. Medimos a radiação ambiente em vários pontos do depósito. Tudo em ordem.
Depois de um demorado exame de verificação de contaminação radiológica pessoal, voltei ao Palácio das Esmeraldas e transmiti o que vira a Santillo, que respirou aliviado. Lembro-me de como procurava facilitar e auxiliar o trabalho dos técnicos da CNEN.
Essa, minha vivência pessoal do comportamento exemplar do governador Henrique Santillo, um homem que teve a existência marcada pela honestidade e pela responsabilidade. Não merecia esse tratamento descuidado que lhe deu a produção da série. E lamento que esse meu testemunho pessoal não alcance senão uma fração dos que viram a série e suas distorções.

